Capítulo 3

1856 Palavras
Vincenzo As más vibrações que sinto enquanto dirijo até o canteiro de obras, numa noite de domingo, são fortes o bastante para me fazer reconsiderar as ordens da Cassidy de deixá-la sozinha. A última coisa que quero é envolver a polícia, mas também não posso correr o risco de ser quem eu sou — não na frente dela. Já é r**m o suficiente eu ter cedido tão facilmente ao seu outro pedido. Um fim de semana inteiro de êxtase s****l na praia, acordando ao lado da Cassidy, dentro dela, revivendo cada memória como se quisesse gravá-las sob a pele. Distração suficiente por um bom tempo. E isso me preocupa. Meus olhos percorrem cada canto do local assim que chego. O trailer longo não esconde que há movimento lá dentro; quem está lá nem se dá ao trabalho de ser discreto. O portão para caminhões e equipamentos está fechado com uma corrente, mas o cadeado foi claramente cortado e deixado pendurado de forma displicente. Ando em direção a ele com a arma já em posição. Nenhum guarda, nenhum alarme, nenhuma câmera. Que tipo de operação é essa que eles estão administrando? Com um ferrolho de nove milímetros e um pente de dezessete cartuchos, a arma se encaixa perfeitamente na minha mão, com a mesma familiaridade com que minhas mãos moldam-se à b***a da Cassidy. É disso que falo quando digo que ela é uma distração. Tudo que quero agora é entrar nesse trailer, resolver o problema à moda antiga e, depois, comemorar como se fosse um prêmio. Respiro fundo e avanço devagar. Um facho de luz atravessa as janelas, varrendo o interior. Antes que eu consiga me aproximar mais, a porta se escancara de repente. Meus braços reagem por instinto, a mira da arma fixa na a******a. Um sujeito de máscara de esqui surge na soleira, paralisado pela surpresa. Eles não esperavam por ninguém. O tempo parece se esticar, mas é questão de segundos. O intruso dispara na minha direção. Aperto o gatilho, mas ele se lança para a esquerda, abaixando o ombro e me atingindo de lado. Sou forçado a recuar, perdendo momentaneamente o equilíbrio. Ele tropeça, se recupera e dispara em direção ao portão. O som do metal reverbera na noite enquanto ele passa por ele e sobe em uma motocicleta escondida sob a sombra dos andaimes. Quando percebo, já é tarde demais. O rugido da moto e as luzes traseiras vermelhas desaparecendo me provocam como um insulto pessoal. Reviro a área para garantir que não há mais ninguém por perto. O trailer está revirado, mas vazio. Respiro fundo e volto para o carro. Cassidy ainda está ao telefone, claramente frustrada. Ela desliga com força e bufa. — Minha mãe me ligou de volta antes que eu pudesse falar com a polícia. Disse para eu não perder tempo com a polícia de Nova York. Você está bem? Aqueles tiros foram seus? — pergunta, com a testa franzida. É uma decisão estranha não envolver a polícia, mas quem paga o Niklaus para silenciá-los não quer sirenes por perto. — Fui eu, sim. O desgraçado correu pra cima de mim. Ou ele tem algum treinamento, ou é só um maluco com sorte. — respondo, já indo ajudá-la a trancar o local, mas ela me interrompe. — Não posso simplesmente sair daqui. Preciso saber o que eles estavam procurando. Ou se levaram algo. — Ela me empurra suavemente e entra no trailer. — Guarda essa coisa, Vince. — aponta para a arma. Enfio a pistola na cintura e a sigo. Cassidy acende as luzes, os olhos castanho-claros atentos, varrendo cada centímetro da bagunça. Gavetas abertas, papéis espalhados pelo chão e pela mesa. Ela começa a folheá-los, sem direção exata, mas claramente preocupada. — Onde fica o sistema de segurança? — pergunto. Ela balança a cabeça com um sorriso amargo. — Não tem. Cortes no orçamento. Difícil manter segurança vinte e quatro horas quando temos que pagar sabe-se lá quanto ao Caruso toda semana. — O que ele tem contra vocês? — insisto. Cassidy desvia, concentrando-se em reordenar os papéis. — Disseram que o dinheiro que você ofereceu tão generosamente por mim é suficiente para afastá-lo. Não se preocupe, Vince. — Eu entendo de chantagem, Cassidy. E só existem duas formas de resolver isso: ou você elimina quem te ameaça, ou expõe o que ele esconde. E, honestamente, matar o Caruso seria simples, mas o barulho seria grande demais. — Isso nunca vai acontecer — rebate ela com firmeza, destrancando uma gaveta da escrivaninha. — O cofre está aqui. Nem mexeram. — Você deixa dinheiro aqui? — pergunto, já imaginando o caos que é a segurança desse lugar. — Sexta-feira foi exceção. Alguns funcionários descontam cheques conosco. O que sobra vai pro banco. Mas não tem mais nada aqui que valha a pena roubar. — Não subestime a criatividade de um ladrão. Eles podem estar atrás de informações. Documentos, contratos, qualquer coisa. Você guarda essas coisas em casa? — Às vezes. Meus pais também. Mas sem cofre aqui, levamos o que é importante pra casa. Assinto, refletindo. — Não acho seguro você voltar pra lá sozinha. Ela ergue a mão, me cortando. — Vince, já fez demais. Não quero te dever mais nada. Preciso seguir em frente. — O que paguei naquele leilão foi pelo seu tempo, Cassidy. Tempo que você me deu. Isso aqui é só bom senso. Se Niklaus estiver por trás disso, pode ser mais do que uma simples birra. Ele não aceita perder. — Vamos fazer um acordo, então. Vou ficar na casa dos meus pais até isso acabar. Amanhã eles pagam o que devem ao Niklaus. Quando ele souber que não sou mais... "intocada", a obsessão dele deve acabar. Ela é otimista demais. Ingênua, até. Mas não adianta forçar. Cassidy não me pertence. Ela escolhe confiar nos mesmos que a jogaram aos leões. E, como sempre, eu fico do lado de fora. Sem discutir mais, ajudo a trancar o trailer e a levo até a casa dos pais. Ela se despede com um aceno rápido antes de sumir pela porta. Quando vejo a luz se acender, me dou por satisfeito e vou embora. Mas a sensação de que algo está errado me acompanha até em casa. Viro de um lado para o outro na cama, a mente inundada por lembranças dela, até o despertador anunciar um novo dia. O treino é uma tragédia. O caminho até o escritório, pior ainda. A Cassidy me ronda os pensamentos como uma maldição. Chegando à sede da Lombardi Security, vejo Lorenzo Marino me esperando no saguão. Meu melhor amigo e vice-presidente da empresa. Mesma altura, cabelo preto ondulado, olhar vibrante e aquele sorriso irritante que só ele tem. — Como foi o leilão? — pergunta com um brilho zombeteiro nos olhos verdes. — Agitado. Mas preciso de um favor. Preciso que isso fique fora dos registros. — Isso é negócio de Família... ou negócio de Família? — ele sussurra, enquanto entramos no elevador. Espero até estarmos trancados no meu escritório, no vigésimo andar. Só então respondo. Porque se tem alguém em quem eu confio, é ele. Mas mesmo com as janelas abertas para Manhattan, hoje, minha atenção está em outro lugar. E esse lugar tem nome. Cassidy. Há várias mini luzes LED magnéticas no grande mapa interativo à minha frente, cada uma indicando onde minhas equipes de segurança estão posicionadas. Pequenos pontos piscando marcam a localização exata de cada time, atualizando em tempo real o país, a cidade e até o status da operação. É um lembrete silencioso de que, enquanto minha mente insiste em voltar para Cassidy, o resto do mundo não para de girar. As equipes na América do Sul, por exemplo, operam sob o guarda-chuva diplomático, protegendo famílias influentes que preferem resolver problemas longe dos olhos da imprensa. Em Serra Leoa, outra equipe protege instalações médicas e voluntários internacionais em uma vila remota, garantindo que ajuda humanitária não se torne alvo fácil. Nos Estados Unidos, a maioria das nossas forças permanece em stand-by, com pelo menos duas equipes de seis homens aguardando novas designações, prontos para agir ao menor sinal. Preciso afastar Cassidy e a família Leone da minha cabeça. Temos negócios para tocar. Não, eu tenho negócios para tocar. — Quero saber qual é o interesse do Niklaus Caruso na construtora Leone Brothers — digo a Lorenzo, sem rodeios. — É uma empresa pequena no Brooklyn, nada que justificasse a atenção dele. Eles estão com um projeto no Centro Comunitário de Saint Bartholomew. Investigue a fundo. Quero saber quem financia, quem lucra, e por que diabos o Niklaus se importa. Assim que tiver essa informação, quero a Cassidy designada a uma equipe particular. Talvez os pais dela também precisem de proteção. Não quero surpresas. Lorenzo solta um suspiro longo e ergue uma sobrancelha em minha direção, aquela expressão dele que mistura ceticismo e provocação. — O Primeiro-Ministro da Irlanda está vindo para uma reunião privada — lembra ele. — Querem um encontro reservado com a professora dos filhos e a babá. Você sabe como essas coisas são. Nossa agenda não está exatamente livre. Tem certeza de que vale a pena realocar recursos por causa de uma construtora do Brooklyn? — Ainda não sei — admito, apertando os olhos para o mapa. — Mas pretendo descobrir. Assim que souber o que o Niklaus sabe, poderei medir o tamanho do problema. O que eu sei é que a Cassidy já está envolvida, e isso basta para manter a atenção. Niklaus a quer. Eu a tive — por um fim de semana, sim, mas o suficiente para ele querer destruir a família dela. — Só quero entender o jogo antes de jogá-la de volta à vida dela. Lorenzo sorri com aquele ar de quem já sabe onde isso vai dar. — Ah, a vitória no leilão. Muito bom, garoto do Vale — brinca ele, usando o apelido que me acompanha desde os cinco anos. — Você pagou mais alto que o Niklaus por ela também, não foi? — Foi. Mas tem mais coisa aí. Ele não se irrita só por perder uma aposta. Tem algo contra a Família Leone, e eu quero descobrir o quê. Não gosto de incertezas. — E se a Família dela estiver afundada até o pescoço? — Lorenzo inclina-se para frente, o tom meio cínico. — Vai ver fazem parte do esquema funerário do Niklaus. Corpos nas fundações dos prédios, aquela velha história. Pode ser mais podre do que você imagina. — Possível — respondo, cruzando os braços. — Mas ainda assim, quero respostas. E quero rápido. Apenas faça isso, por favor. Ele levanta as mãos em rendição, um sorriso curioso nos lábios. — Como quiser, chefe. Como quiser. Mas já vi onde isso vai dar — diz, levantando-se da cadeira com a naturalidade de quem está acostumado a limpar minhas confusões. Enquanto ele sai, me pego encarando o ponto piscante sobre Nova York. Lá fora, a cidade pulsa, indiferente aos jogos de poder e às obsessões pessoais. Mas aqui dentro, tudo está prestes a se complicar ainda mais. E eu sei que não vou conseguir manter Cassidy longe disso por muito tempo.
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