Capítulo 4

1133 Palavras
Cassidy De alguma forma, acordar no meu quarto de infância não me traz mais sentimentos de segurança e felicidade. As paredes, continuam brancas, porém agora imploram por uma nova camada de tinta, e o piso de madeira range mais alto do que eu me lembrava, como se também protestasse pela passagem do tempo. Os perfumes esquecidos da adolescência ainda flutuam no ar, trazendo ecos de lembranças antigas, mas a sensação de estar de volta para casa não me acolhe como antes. Essas paredes já não me pertencem. Arrasto-me para fora da cama, ciente de que já estou atrasada nesta segunda-feira preguiçosa. A cama de casal da minha juventude ainda é confortável, aconchegante até, mas a verdade é que eu preferiria ter Vincenzo ao meu lado, e não apenas meu velho conjunto de edredom. Quando ele se ofereceu para me hospedar em sua casa, tudo em mim gritou para aceitar. Era exatamente isso que eu queria: que ele quisesse estar perto de mim, que quisesse me proteger. Mas ontem à noite, enquanto ele expulsava o intruso, uma ideia me atravessou como um espinho incômodo. Eu não conheço Vincenzo tão bem quanto conheço a sensação do seu corpo colidindo com o meu. Nossas conversas sobre comida e música se embaralham na memória junto com as lembranças do seu toque, seus beijos, seus movimentos. Na verdade, pouco falamos sobre coisas importantes — família, lealdades, intenções. Eu sou uma tola se acreditar que conheço aquele homem de verdade. Deixar Vincenzo me proteger, quando foram os meus próprios pais que me colocaram nessa situação, é pedir demais. Ele já carrega nas costas o peso de um conflito com Niklaus Caruso. E se Vincenzo piorar as coisas? E se ele me proteger apenas para se posicionar melhor contra Niklaus? No fim das contas, Vincenzo também é um chefão. A diferença é que ele não me dá náuseas nem me faz tremer de medo — não ainda, pelo menos. Mas essa confusão de emoções me empurra para uma rotina estranha, automática, porque o trabalho é o único jeito de calar a mente. Quando finalmente desço para a cozinha, encontro meus pais na mesa do café. Vovô está mergulhado no jornal, sorvendo café, e mamãe frita ovos como se eu ainda estivesse no ensino médio. Três pratos já estão postos, o terceiro obviamente me esperando. — Bom dia, Cassidy. Como foi seu fim de semana com Don Lombardi? — pergunta Mãe, animada demais. — Como você sabe com quem eu estava? — retruco, franzindo o cenho. — E sobre o cara que invadiu o escritório ontem? Não devíamos chamar a polícia? — Querida, você sabe por que não podemos chamar a polícia — responde Papai, sem desviar os olhos do jornal. — Sabemos com quem você estava porque nos permitiram ficar com o dinheiro do leilão. — Isso não me parece certo — murmuro, encarando o prato cheio que me repugna. Mamãe sorri como se tivesse ganhado na loteria. — Don Caruso deixou Don Lombardi dar um lance maior de propósito, para que você pudesse ajudar a todos nós. Dou uma risada seca. — Se vocês tivessem ido ao leilão, saberiam que isso é uma mentira deslavada. Vincenzo e Niklaus se odeiam. As famílias deles têm uma rixa que não é de hoje. — Exatamente — Papai intervém. — Don Caruso quer que usemos o dinheiro de Don Lombardi para reforçar nossos canteiros de obras. Cuidado, Cassidy. A noite de ontem não foi coincidência. Reviro os olhos. — Vocês realmente acham que Niklaus está fazendo isso por bondade? Ele nunca se importou conosco. E Vincenzo não é tão burro quanto vocês pensam. Se ele descobrir que estou colhendo informações para o Caruso, vocês fazem ideia do que ele faria comigo? Eles trocam um olhar tenso. É visível que só agora a ficha está caindo. — Don Caruso vai te proteger de Don Lombardi, Cassidy — Papai insiste, com uma convicção vazia. — Não. — Minha voz sai mais firme do que esperava. — Não vou arriscar minha vida por causa das dívidas de vocês. A tensão se espalha pela cozinha como fumaça densa. Tento mudar de assunto, mas é inútil. Eles estão cegos. — A polícia é uma opção. Extorsão, ameaças, intimidação... Isso tem que valer alguma coisa. — Você não entende — diz Mamãe, suspirando. — Se a polícia investigar, seu pai vai ser preso. E você também pode acabar indiciada. É melhor ficarmos calados. — Então vamos continuar alimentando esse ciclo? Vocês realmente acham que isso vai acabar bem? — Estou farta. — Esqueçam. Já sei qual é a resposta. Levanto-me bruscamente, encerrando a conversa. Aviso que irei buscar meu carro, ignorando o olhar resignado deles. A vibração do celular me avisa que o relógio já marca oito horas. Mesmo longe da Igreja de São Bartolomeu, meus pensamentos continuam presos ao caos de ontem. Ligo para Frankie. O tom sonolento dele me arranca um sorriso inevitável. — É melhor que alguém esteja morto ou pegando fogo, Cassidy. — São quase nove, Frankie. Ele resmunga, sarcástico. — Garota, eu dormi há duas horas. O que aconteceu agora? Seus pais aprontaram de novo? Eddie Suada quer te arrastar pra zumba? Preciso forjar uma emergência? O jeito debochado dele é um alívio. Rimos juntos. Ele sempre sabe como puxar de volta minha sanidade. — Obrigada, Frankie. Estou indo. — Porta destrancada. Traz café. E comida. Deixa de conversa. O resto da manhã passa como um borrão entre paradas e pensamentos desconexos. No meu apartamento, a sensação de estar sendo observada não me abandona. Na obra, recupero meu carro — velho, mas fiel. Na doceria chandelie, compro os melhores doces, esperando que um pouco de açúcar torne tudo mais leve. Quando chego ao prédio do Frankie, ele me espera como sempre foi: despenteado, sem camisa, de moletom e sorriso insolente. Seu abraço esmagador me arranca um riso tímido, e pela primeira vez em dias, sinto uma pontada de normalidade. — Você está fantástica, Cassidy. O que anda fazendo? — Sobrevivendo aos Leone, como sempre. E você? Desde quando ficou sarado? Pensei que quisesse doces, não elogios. — Continuamos vilões, priminha. Mas agora queimamos calorias de jeitos... mais divertidos. Ele me guia para dentro do apartamento que um dia foi da vovó. A familiaridade do ambiente me acolhe, mas a nostalgia é breve. Não há como ignorar a razão de eu estar aqui. Enquanto nos acomodamos no sofá, Frankie para de mastigar e me encara. — O que está acontecendo, Cassidy? Lembre-se: eu ainda te conheço melhor do que ninguém. Olho em volta, me certificando de que estamos sozinhos. Então respiro fundo. — A pessoa com quem você queimou todas essas calorias ontem... está aqui? Ou posso falar sem plateia? Frankie ergue uma sobrancelha, curioso. E eu, finalmente, deixo a verdade começar a sair.
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