Cassidy
Uma das últimas coisas que quero fazer é admitir quando meus pais estão certos sobre qualquer coisa. A simplicidade da nossa situação, quando Vincenzo a explicou, me fez acreditar que todos os nossos problemas desapareceriam se falássemos com Clarice. Há esperança transbordando de que podemos acabar com essa loucura depois de meses dando a Don Caruso o nosso dinheiro suado.
No entanto, olhar para Don Caruso sentado atrás da mesa no trailer do nosso escritório me preocupa com o que quer que ele tenha planejado. A capacidade de desafiar abertamente as ordens de um Don não é concedida a muitos. Eu deveria estar preocupada com a minha vida, mas há uma parte de mim que sente que Don Caruso não vai se livrar de mim até que minha utilidade se esgote.
— Você foi muito burra, Cassidy — diz Niklaus com desdém. — Se eu te mandar fazer alguma coisa, é melhor você fazer.
Reviro os olhos enquanto meus pais permanecem imóveis, impotentes, deixando esse babaca nos controlar como marionetes. Minhas palavras saem curtas, carregadas de frustração e irritação.
— Não quero entrar nesse joguinho entre você e Don Lombardi. Não vou sair com ele e colocar minha vida em risco.
— Você vai fazer o que eu mandar, Cassidy — retruca Niklaus, frio. — Sua família ainda tem uma dívida a pagar, e, se querem continuar longe da cadeia, vale a pena correr esse risco.
Ele se aproxima mais, como se pudesse me envolver com sua presença sufocante.
— Eu entendo que talvez você não queira ser tão direta na frente dos seus pais... então, vai me encontrar para jantar — ele sorri, como se estivesse me fazendo um favor.
Dou um passo para trás, desejando que esse pesadelo tenha um fim logo.
Meus pais permanecem em silêncio, cúmplices da chantagem, enquanto Niklaus continua:
— O preço por manter o seu segredinho aumentou. O dinheiro do leilão agora precisa cobrir os custos do canteiro de obras, o que significa que você está ficando sem fundos para bancar meu salário semanal.
— Solte os canos. — Pego minha bolsa e a seguro com força. — Você ganha mais com a gente do que os nossos funcionários.
— Bem — ele sorri de canto —, assassinos soltos têm um preço. E também há um custo por discutir nossos negócios com as autoridades.
Sinto meu coração afundar. Como ele sabe? Falamos com Clarice há só algumas horas...
— Você é ingênua se pensa que só Don Lombardi tem contatos no alto escalão — diz Niklaus, com um riso baixo. — O que você achou que aconteceria depois de procurar o promotor?
— Ninguém falou com o promotor! — exclama minha mãe, o olhar aflito recaindo sobre nós.
Clarice havia nos dito que não tínhamos provas suficientes contra Niklaus. Mesmo assim, como ele descobriu tão rápido? Será que ela o traiu?
— Não mintam. Estamos além disso agora — adverte Niklaus. — Fomos tão “honestos” com o resto... como, por exemplo, com o cadáver daquele jovem, apodrecendo nas estacas da fundação deste mesmo lugar. Imagine o choque público se descobrirem que vocês mataram alguém tão inocente quanto Adam.
— Quem é Adam? — pergunto, o nome me soando estranho e pesado.
O olhar de horror no rosto de meu pai é imediato. Ele se vira para Niklaus, incrédulo.
— Como... como você sabia o nome dele? O rosto dele nunca apareceu nas câmeras. Só vimos o corpo cair no buraco, coberto depois por concreto...
O sorriso de Niklaus se alarga como o de um predador prestes a devorar a presa.
— Posso ou não ter convencido o rapaz a aceitar um emprego aqui. Disse a ele para pegar o pagamento que quisesse.
— Ele tentou me levar — murmura Mamãe, num sussurro cheio de dor. Sei o que ela quer dizer. Não foi por dinheiro que aquele homem veio... Foi por algo que nunca deveria ter sido oferecido. A dor se transforma em raiva. — Você mandou aquele monstro para cá. Por quê, Caruso?
— O que aconteceu? — pergunto, antes mesmo de entender o que quero saber. O medo me paralisa. Só sei que meus pais mataram alguém, e Niklaus sabe disso. Isso basta para me manter refém.
Mas meus pais não são pessoas ruins. O que quer que tenham feito... foi necessário. Só que os detalhes — os malditos detalhes — são o que Niklaus usa para nos manter sob controle.
Ele cruza os dedos e recosta-se, como se tivesse todo o tempo do mundo.
— A Construtora Leone Brothers foi escolhida por sorteio para impulsionar negócios locais. Mas eu queria a vaga. Precisava desses contratos. E então, aqui vai sua saída: transfiram a empresa para mim, e eu desapareço da vida de vocês. Caso contrário, Cassidy... você vai jantar comigo amanhã. E vamos conversar sobre que tipo de informação se deve considerar ao se envolver com Don Lombardi.
— Já disse que não vou fazer isso! Não vou arriscar minha vida...
A velocidade com que Niklaus se levanta é assustadora. Num instante, ele vira a mesa com força, os papéis e objetos voando como detritos no meio de uma explosão.
Dou um pulo, meu corpo enrijecido pelo susto. Ele respira pesado, e se pudesse cuspir fogo pelas narinas, o faria.
— O problema é que você acha que, só porque eu quero provar essa sua b****a doce, Cassidy, você não corre perigo. Ou faz o que eu digo... ou eu tomo exatamente o que quero de todos vocês. E então? Família Leone? Negócios... — ele estende uma mão — ou prazer? — estende a outra.
Meus pais me olham como se quisessem implorar que eu escolha o caminho mais fácil.
A construtora foi o sonho deles, construído com sangue, suor e décadas de sacrifício. Ser destruído por um monstro como Niklaus... é c***l. Mas ainda mais c***l é saber que, mais uma vez, eu sou a moeda de troca.
Meus olhos ardem, mas seguro as lágrimas. Não posso desmoronar agora.
— A que horas preciso estar pronta?
— Kings. Amanhã. Às seis. Vista-se como a deusa que você é. Não se atrase.
Quando Niklaus sai, finalmente respiro.
— O que vocês dois fizeram? — exige Mamãe, olhando de mim para meu pai.
— Falamos com um advogado — respondo. — Vincenzo nos indicou um contato. Ele quer ajudar. Não vou traí-lo.
— Você não faz ideia de quem Don Lombardi realmente é! — grita minha mãe. — Por que sua lealdade é com ele e não conosco?
Minha raiva explode.
— E por que a de vocês é com Don Caruso e não comigo?! Vocês me vendem como se fosse fácil! Como se eu tivesse nascido para pagar pelos erros de vocês!
Saio do escritório, lágrimas me cegando, e corro para o carro. Hesito antes de entrar, esmagada pela culpa.
Tudo o que tenho, meus pais me deram. A casa, os estudos, a proteção. E agora... eles me pedem isso. Como posso chamá-los de monstros, se tudo que fazem é tentar sobreviver?
— Cassidy! — grita meu pai, correndo atrás de mim. — Me desculpa. Estou tentando proteger você... e sua mãe. Faria qualquer coisa por esta família. Se perdermos a construtora... nunca vamos nos recuperar.
Vejo a dor no rosto dele e entendo. Para ele, meu corpo é um preço pequeno perto da ruína completa.
Ligo o carro e vou embora, calada.
O dia seguinte se arrasta até a noite. Me troco com cuidado, vestindo um minivestido turquesa brilhante. Os saltos prateados me fazem parecer poderosa, mas só eu sei o quanto estou desmoronando por dentro. Se vou ser sacrificada, que ao menos pareça uma rainha indo ao altar.
A viagem até Manhattan é um borrão. Meus pensamentos são um caos, mas minhas mãos dirigem por instinto. O Kings se aproxima, reluzente e ameaçador.
Cada passo até a entrada me faz querer correr. Mas não posso. Preciso proteger meus pais.
O segurança me encara.
— Nome?
— Cassidy Leone.
Ele assente e abre a porta. A recepcionista me conduz até a mesa de Niklaus, que se levanta com um sorriso pretensioso.
— Você está fenomenal, Cassidy.
— Obrigada, Sr. Caruso.
— Me chame de Niklaus. Vamos ser mais que amigos, agora que trabalhamos juntos. Quer pedir algo?
— Não. Me diga logo o que quer.
— Preciso saber qual empresa Don Lombardi está usando para comprar imóveis. Ele não mexe com isso, mas ouvi rumores.
— E como espera que eu descubra isso?
— Você tem tempo. Mas se não descobrir... seus pais pagam o preço.
— E quando eu conseguir essa informação? Terminamos com isso?
Ele sorri, dando de ombros.
— Veremos.
— Com licença. Preciso ir ao banheiro.
— Fique à vontade. Só pra saber, não tem saída por lá — diz ele, rindo.
Sigo pelo corredor e entro no banheiro. Sozinha, quase caio de joelhos. Respiro fundo.
Quando abro a porta, a última pessoa que esperava ver está ali.
— Vincenzo — sussurro, sentindo o medo subir pela espinha. — Você não deveria estar aqui.
— E você, Cassidy... também não.