Capítulo 6
Narrativa do Autor
Depois da morte dos seus pais, as coisas ficaram diferentes para Ricardo. Seu amigo inseparável, Pedro, não o largou de jeito nenhum, apesar de sua mãe, Maísa, estar o tempo todo tentando evitar que ele fosse atrás de Ricardo para ajudar.
Tudo ficou diferente uma semana depois do acidente e do sumiço de Helena, depois de ser expulsa do enterro dos pais de Ricardo por ele.
Ricardo compareceu à empresa e começou a mexer em toda a papelada. Havia duas gavetas trancadas com chaves de segredo. Ele chamou o gerente da empresa, perguntando quem tinha a chave dessas duas gavetas. Foi quando Ricardo percebeu que as gavetas eram por impressão digital o segredo, e automaticamente os cadeados iriam se abrir. Cadeados esses de segredo, e o segredo estava na impressão digital.
O gerente saiu e voltou com um senhor de idade, e o senhor falou o que Ricardo havia descoberto: que tinha uma digital e que essa digital abriria o cadeado de segredo, que a gaveta seria liberada.
— Tudo bem, depois eu vejo isso — ele disse, e mexeu nas papeladas.
Passou o dia inteiro resolvendo problemas e percebeu que tinha uma entrada de dinheiro muito grande de algum lugar, e ele não sabia qual. Nem o gerente dizia nada, só ficava rodeando e vendo o que ele estava fazendo, tipo vigiando. De vez em quando, ele via o gerente com um radinho passando instruções para alguém que não era dali de dentro, e Ricardo tinha quase certeza que também não era funcionário. Mas tudo bem, ele estava resolvendo uma coisa por vez.
Passou na parte de administração e viu que muitas contas estavam sendo feitas erradas. Ele era arquiteto, não contador. O que ele fez no outro dia? Contactou Pedro. Ligou para o seu número, e no segundo toque Pedro atendeu.
Ligação on
— Pedro: Fala, RD, o que tá havendo?
— Ricardo: Você está trampando? Se não estiver, você poderia dar um pulo aqui na empresa do meu pai? Estou precisando que resolva algumas coisas e eu não tô com cabeça pra isso, até porque sou arquiteto, não administrador de empresas.
— Pedro: Sim, posso fazer isso sim. Não estou trabalhando, esqueceu que me formei agora? Então ainda estou distribuindo currículo. Preciso realmente de trabalhar. Vou até aí, só aguarda uma hora mais ou menos, é o tempo que eu tenho pra chegar aí.
— Ricardo: Vou mandar o Uber te pegar aí na entrada do Juramento.
— Pedro: Então já é. Já tô subindo pra tomar banho. Quando eu estiver pronto, te dou um toque e você manda o carro.
Ligação off
Ricardo voltou para as contas que não batiam de jeito nenhum. Tinha uma entrada e saída de dinheiro que parecia ser caixa dois. A entrada era vista, mas a saída não, então alguma coisa estava errada. Ele teria que saber o que era, por isso chamou o seu amigo, que sabia o que fazer. Ricardo não entendia nada de contabilidade.
Ricardo pensou: dependendo do que Pedro for fazer, ele vai ser o contador da empresa e o administrador, porque eu não estou administrando nada, nem sei fazer isso. Claro que vou ficar por perto, mas meus planos de abrir um escritório de arquitetura vão ter que parar por aqui. Graças ao meu bom Deus, nunca mais vi a Helena, e que ela fique longe por um bom tempo.
Não demorou muito, Pedro entrou daquele jeito malandro dele no escritório onde Ricardo estava, o antigo escritório do seu pai.
— O que manda, chefe? — perguntou Pedro.
Ricardo, meio desconfortável com a palavra “chefe”, respondeu:
— Não sou chefe de nada, eu só quero uma ajuda aqui pra resolver esse pepino.
Eles começaram a resolver o que estava em cima da mesa. Foi muito rápido. Pedro resolveu tudo em um piscar de olhos e foi botando de lado o que não dava pra resolver naquela hora.
Pedro falou de um jeito espontâneo:
— Esses papéis aqui estão estranhos. Entra muito dinheiro e não sai a mesma quantia que entrou. É muito estranho. E, procurando nas finanças, não estão no livro-caixa da empresa. Temos que saber o que está acontecendo, senão não poderei te ajudar. E essas gavetas aqui, o que elas têm? Estão trancadas com segredo, parece até filme de espião. Será que tem uma digital que pode abrir essa gaveta?
Ricardo respondeu:
— Não sei, porque meu pai nunca me falou dessas gavetas. E sempre quando eu vinha aqui, eu sentava naquele sofá ali, que é de frente pra mesa. Hoje eu estou atrás da mesa, então dá pra mim ver o que está aqui. Agora eu me deparei com essa gaveta. Não sei como abrir, só sei que tem que ter uma digital.
Pedro olhou estranho para aquela gaveta e disse:
— Cara, já assisti muito filme de ficção, filme de suspense, e eu vou te mandar fazer um negócio que você vai achar engraçado. Mas se você fizer e der certo? Vamos testar?
Ricardo olhou pra ele meio apreensivo, mas aceitou, dizendo:
— Vamos sim, vamos testar.
Pedro, com aquele jeito maroto, falou:
— Me dá sua mão esquerda.
Ricardo esticou a mão. Pedro falou:
— Agora bota a palma da mão esquerda aqui.
Ele botou e fez um track. Pedro olhou para Ricardo assustado, dizendo:
— Ouviu isso?
Ricardo assentiu com a cabeça:
— Ouvi, sim.
— Me dá sua mão direita — disse Pedro.
Ricardo estendeu a mão. Pedro pegou e botou a palma da mão direita onde estava marcado. Ouviram mais dois track, e as gavetas se abriram automaticamente.
Um olhou pra cara do outro sorrindo, e Ricardo mexeu nas gavetas, tirando todos os papéis que estavam ali, começando a pesquisar papel por papel e entregando nas mãos de Pedro. Pedro analisava tudo.
Ele ficou sério, sentou numa cadeira de frente e continuou analisando.
De repente, entrou o gerente e falou:
— Patrão, já são sete e meia da noite. O senhor vai continuar aí? Porque os funcionários estão querendo ir embora.
Ricardo olhou para o funcionário e disse:
— Pode dispensar todos, e você também pode ir. Só os seguranças eu quero que continuem aqui, todos eles. Não saiam, porque eu vou ter uma reunião com eles.
O gerente, meio desconfortável, falou:
— Quando seu pai fazia a reunião com os seguranças, eu ficava junto pra ajudar no que ele precisasse.
Foi quando Ricardo falou:
— Eu já tenho alguém que vai me ajudar. Se eu precisar, esse aqui é o novo administrador da empresa e contador também. O RH está precisando de pessoas do tipo dele, e ele está contratado a partir de hoje. Ele vai ser o meu braço direito aqui dentro da empresa enquanto eu estiver aqui. E amanhã você passa no RH, está demitido.
O gerente olhou para o rosto de Ricardo, assustado:
— Por que o senhor está me demitindo? Eu trabalho aqui há mais de quinze anos. Não tem por que o senhor me demitir. É só me tirar desse cargo e me botar em outro, ou em outro setor. Até porque eu sei de tudo o que aconteceu dentro dessa empresa, e nós podemos conversar sobre isso.
Pedro olhou para Ricardo e disse:
— Pô, Ricardo, me desculpa aí, mas eu também acho estranho você demitir ele. O cara não fez nada. Eu não sei, eu não vi, mas pô, dá uma chance pro cara. Não rebaixa ele, não. Deixa ele como gerente. Ele não é o gerente financeiro da empresa? Deixa ele como gerente. Ele só vai ter que prestar conta agora pra mim e pra você, pronto. E trazer a papelada que eles usavam no passado. Tudo que você viu, ele vai rever junto contigo. É isso que é administrar uma empresa: tendo jogo de cintura e fazendo tudo pelo certo.
Ricardo voltou atrás:
— É, Pedro, você tá certo. Me desculpa, seu Luiz. Então tudo bem. O senhor continua como gerente da empresa, mas a partir de amanhã eu quero o senhor aqui às sete da manhã junto comigo, pra me entregar todos os relatórios de quinze anos até hoje, tá certo? Pode ir pra casa, não precisa ficar assustado, o senhor não vai ser mandado embora.
Pedro deu um sorriso e ficou mais confortável ao lado do seu amigo Ricardo, até porque ele também é dependente de emprego. Então, ver alguém ser demitido pra ele não é bom, ainda mais se for pra botar ele no lugar, aí fica mais desconfortável ainda. Mas, no final, deu tudo certo.
Continua...