Capítulo 7
Continuação....
Narrativa do Autor
Eles ficaram até mais ou menos oito da noite resolvendo a documentação da empresa e viram quanto todos os funcionários recebiam, inclusive o salário dos seguranças. Eles ganhavam muito bem pelo que faziam. Estava tudo quase resolvido.
Desceram para a reunião no pátio e botaram as coisas em pauta. Alguns seguranças disseram que os pagamentos deles estavam atrasados e perguntaram como ia ficar. Ricardo resolveu a situação com Pedro e disse:
— Amanhã passem na administração e conversem com o Pedro. Ele está incumbido de fazer o pagamento de todos vocês a partir de hoje. E os funcionários, quem vai fazer o pagamento é o seu Luiz. Vocês vão estar no caderno de pagamento na minha sala. Vocês entenderam?
Todos entenderam. Eram mais ou menos dezoito seguranças, e ficaram ali esperando Ricardo dispensá-los.
Ricardo olhou meio estranho para os seguranças e perguntou:
— O que vocês estão fazendo aqui ainda?
Um deles, que parecia ser o chefe da segurança, disse:
— Estamos esperando o senhor nos dispensar, porque alguém tem que ficar aqui fazendo a escolta da empresa.
Ricardo respondeu:
— Então você escolhe quatro para ficar fazendo a escolta juntamente com você e dispensa o resto. Estou no escritório. A propósito, muito prazer, eu sou o filho do dono e vou tomar conta da empresa até eu resolver o que vou fazer com essa empresa, porque não temos só essa empresa, temos outras que ainda vou descobrir, porque meu pai não me disse muita coisa. Essa empresa aqui eu sempre vim, agora nas outras eu nunca fui.
Um dos seguranças ficou meio desconfortável com a afirmação de Ricardo, coçou a cabeça e disse:
— Se o senhor procurar direitinho, seu Ricardo, o senhor vai descobrir onde está o restante das empresas.
Ricardo não entendeu muito bem a fala do segurança, mas também não perguntou nada. Dispensou a todos e subiu para o escritório juntamente com Pedro.
O celular de Pedro vibrou. Ele sabia que em reuniões não podia ficar com o celular ligado para que não tocasse alto e atrapalhasse, por isso ele botou no vibracal. Ele atendeu no viva-voz. Era a voz da mãe de Pedro:
— Você não vai vir pra casa, Pedro? Aonde você está?
Pedro respondeu sorrindo:
— Calma, véia, já estou chegando. Só tô resolvendo uns pepinos aqui e já tô indo. E pode cumprimentar o mais novo trabalhador do Morro do Juramento: arrumei um trampo e comecei a trabalhar hoje mesmo.
Ela perguntou:
— Aonde você arrumou um emprego, meu filho?
Ele disse:
— Com meu amigo Ricardo. Sou administrador da empresa dele e contador. Agora tô montado na grana.
E deu aquele sorriso largo, mas quando olhou para o rosto de Ricardo, ele estava pálido. Pedro não entendeu o que estava acontecendo.
Pedro falou para a mãe:
— Já tô chegando em casa, depois a gente se fala. Tchau.
Desligando o telefone, perguntou a Ricardo:
— Por que você está assim desse jeito?
Ricardo respondeu:
— Eu não sei. Quando ouvi a voz da sua mãe, senti uma ternura muito grande no coração. Deu uma calmaria, como se eu conhecesse a sua mãe desde sempre. Na verdade, eu nunca vi a sua mãe. Senti um carinho por ela como sentia pela minha mãe, que já se foi.
E Ricardo começou a chorar. Pedro o abraçou e disse:
— Meu amigo, você precisa esquecer esse acontecimento, porque você tem que tocar a empresa do seu pai.
Ricardo enxugou as lágrimas. Na frente do amigo ele podia chorar, mas podia sair do elevador e ter alguém no corredor. Então ele se ajeitou, respirou fundo e saiu do elevador.
Pedro olhou para ele com tristeza e disse:
— Você vai superar isso.
Quando eles entraram na sala da presidência, quem estava sentada na cadeira da presidência? Sim, Helena. Ela estava lá com ar de superioridade, como se nada tivesse acontecido e como se não tivesse sido expulsa do enterro dos pais de Ricardo.
Ricardo olhou para ela e disse:
— O que você está fazendo aqui?
Helena, com a cara mais cínica, respondeu:
— Eu vim te ver. Ou você esqueceu que tem uma noiva? Eu deixei passar esses dias porque eu estava com meu pai fora do país. Fui pra lá ajudar meu pai a resolver algumas coisas. Agora estou aqui pra você. Como eu sei que você tem esse aí — olhou para Pedro com ar de desdém — achei melhor ficar longe. Agora eu vim pra te ajudar. Vou ficar ao seu lado, mesmo que você não queira. Sei que você precisa de mim, nem que seja pra aguentar seu mau humor, mas eu estou aqui pra você.
Ela levantou da cadeira e deu um beijo na boca de Ricardo, que retribuiu, mas não com a mesma alegria de vê-la ali; foi no automático.
Pedro raspou a garganta e disse:
— Amigo, vai precisar mais de mim?
Ele foi para o lado daquelas gavetas misteriosas, que já estavam fechadas, e a documentação estava toda guardada. Ele verificou se tinha mais alguma coisa faltando, porque sabia como tinha deixado. Não faltava nada. Apenas em cima da mesa estava a foto da Helena com o Ricardo, muito bonita por sinal. Ele olhou para a cara dela com nojo, se despediu do amigo e disse:
— Amanhã, sete horas, estarei aqui. Obrigado pela oportunidade.
Apertou o botão do elevador e ficou do lado de fora esperando. Ouviu quando Helena falou para Ricardo:
— Não vai me dizer que você botou esse cara pra trabalhar com você?
Ricardo respondeu:
— E por que eu não botaria? Ele é o meu melhor amigo e ficou comigo na pior hora da minha vida.
Ela respirou fundo e disse:
— Ficou com você por perto porque ele sabe quanto você vale. Te tratando bem, você dá a roupa do corpo. E eu estou aqui pra impedir isso.
Ricardo olhou para ela e disse:
— Você está maluca. Eu não quero nem pensar em ver você destratando o meu melhor amigo. Se não, quem vai sair da minha vida vai ser você.
Na mesma hora houve um silêncio. O elevador chegou, e Pedro entrou.
No caminho, Pedro pensava: vou ter problemas com essa mulher, mas não posso me virar contra ela porque ela é noiva do meu melhor amigo e patrão. Não vou falar nada, vou fazer meu trampo e, na minha hora, vou embora. A não ser que ele me chame pra um happy hour, aí eu vou, mas fora isso vou ficar na minha, porque sei que essa mulher é problema e ele ainda não viu isso. Ela não ama ele, ela está de olho no que ele tem, e eu vou descobrir.
Já que o pai dela é bilionário, uma das maiores fortunas do Rio de Janeiro, igualzinho ao Ricardo, que agora juntou as duas fortunas da mãe e do pai, porque dona Isabela também era bem-sucedida. Ela tinha um escritório de engenharia imenso. Falando nisso, vou perguntar ao meu amigo em que fim se deu o escritório de engenharia da mãe dele.
Chegando em casa, sua mãe estava sentada no sofá, nervosa, esperando que Pedro dissesse alguma coisa.
Pedro chegou, deu um beijo no rosto dela e disse:
— Pode cumprimentar o mais novo administrador de empresa do Rio de Janeiro.
A mãe dele deu um sorriso azedo e falou um parabéns que não era parabéns, era algo automático.
Pedro franziu a testa e perguntou:
— A senhora parece que não gostou de eu estar trabalhando.
Ela disse:
— Eu não gostei é de onde você está trabalhando. De você estar trabalhando pra mim é uma maravilha, graças a Deus, mas com quem e aonde eu não gostei.
Pedro olhou para a mãe apreensivo e disse:
— A Helena voltou e chegou dominando o Ricardo. Ele está muito vulnerável por causa da morte dos pais e ela vai dominar ele fácil. Não digo nada se amanhã ele já não tiver casado com ela. Ela é dominadora, mas eu não posso, mãe, abrir os olhos do Ricardo. Eu não tô entendendo: se o pai dela é podre de rico, por que ela está de olho grande na fortuna do Ricardo, que agora, depois da morte dos pais, dobrou juntando com a da mãe dele? Eu não sei o que vai ser, mas ele tem que acordar. Se ele não acordar, vai ser tarde. E vou te dizer uma coisa, mãe: eu vou lutar junto com ele, não vou deixar que ninguém brinque com o coração do meu amigo.
Maísa olhou para ele séria e disse:
— Não se mete nisso. Isso é briga de cachorro grande. Você vai sair machucado desse meio.
Pedro olhou para a mãe e disse:
— Às vezes parece que você está me escondendo alguma coisa em relação à família do RD.
Maísa ficou sem graça, levantou e disse:
— Sua comida está no micro-ondas, é só ligar pra esquentar. Boa noite, vou dormir.