CONHECENDO PEDRO

1331 Palavras
Capítulo 9 Pedro narrando Tô felizão porque comecei a trampar junto com meu melhor amigo. Ele é um irmão de alma, gente boa pra caramba. Ele não merecia o que está acontecendo com ele. Perdeu os pais daquele jeito, mas o Pai lá de cima sabe o que faz. Meu amigo está muito triste, percebi isso. O que eu não queria aconteceu: a nojenta da Helena está de volta. Soube que ela tinha ido para a França encontrar o pai dela. Não gosto do pai dela. Vi ele uma vez e o sorriso dele soa falso. Eu não entendi… há alguns meses atrás, vi o pai dela aqui no morro saindo de carro. Não entendi muito, até porque eu moro aqui há algum tempo. Eu morava em Niterói. Meu pai faleceu, minha mãe vendeu a casa para pagar as dívidas que meu pai deixou. Eu não sabia, mas meu pai gostava de jogo e usava droga. Isso só aconteceu depois que meu pai descobriu alguma coisa que eu não sei o que é até hoje. Eu lembro de uma noite em que minha mãe conversava com ele em seu quarto. Eu só ouvi ele dizendo: — Eu não acredito que você fez isso. Você foi c***l. Você poderia ficar com ele… Eu não entendi aquela fala, mas tudo bem, era conversa deles. No outro dia, minha mãe estava com os olhos inchados de tanto chorar. Perguntei a ela: — O que aconteceu? E ela não disse nada. Falei com ela que eu queria fazer faculdade de Administração. Ela me falou que não tinha esse dinheiro, que iria vender a casa, pagar as dívidas e morar de aluguel em alguma comunidade. A minha faculdade era no Rio, a UFRJ. Então, quando eu passei, eu fui para a faculdade. Minha mãe vendeu tudo que tinha e foi para o Juramento. Eu não entendi o porquê de ela ter ido para lá. Alugou uma casa mais abaixo, bem longe de boca, de tudo. Tudo bem para mim, tá ótimo. Não gosto de passar perto dos caras, só se for preciso. Tive que ir lá me apresentar, porque eu ia ficar chegando tarde da noite da faculdade. Já expliquei para eles que eu não trabalho fora e vivo com a minha mãe. Minha mãe mora ali e tal. Como a minha mãe nunca gostou que chamassem ela de Maísa, eu falei o segundo nome dela, então todos chamam a minha mãe de Eulália. Eles falaram: — Tudo bem. O chefe não está aí, mas o sub dele está. Pode ir lá conversar com ele. Quando eu entrei, tinha um senhor nos seus quarenta anos e falou comigo. Expliquei para ele que eu estava fazendo faculdade e tal, tal. E ali os olhos daquele homem brilharam e ele disse: — Poxa, que legal. Você vai ser diferenciado aqui na comunidade. Pode ficar à vontade pra entrar e sair a hora que você quiser. Mas, se for trazer alguém de fora, tem que avisar, porque nós não conhecemos as pessoas. O chefe não fica aqui no morro, mas ele tem a fiel dele aqui, então fica ligado pra você não mexer com a mulher errada, tá bom? Eu respondi: — Pô, cara, não vim aqui atrás de mulher. Vim pra morar, fazer minha faculdade e cuidar da minha mãe. — Então tudo bem. Fui para minha casa. Falei para minha mãe que tinha conversado com ele, e a minha mãe perguntou: — Você viu o dono do morro? Não entendi a pergunta. — Não — respondi. — Tinha um moço lá, parece que é o subchefe. Dizem que o dono não mora aí. — Então é o sub que toma conta do morro. Minha mãe respirou, parecendo aliviada, e foi guardar as roupas, porque a casa já tinha mobília. Até bonitinha a casa. Pagamos quatro meses de aluguel adiantado, porque a gente não sabe como vai ser futuramente. Minha mãe arrumou um serviço e começou a trabalhar de segunda a sexta, ganhando um salário fixo de R$ 1.800. O aluguel era 300, então dava pra gente se virar com o restante, até porque eu ainda não estava trabalhando. Eu não gostava de andar no morro pra baixo e pra cima, então, se as pessoas quisessem me encontrar, iriam me encontrar em casa. Na segunda-feira seguinte, depois de um mês estando aqui, comecei a fazer minha faculdade. Eu vivia sempre sozinho, isolado no meu canto. Um dia encontrei um rapaz também fazendo seu lanche. Eu sentei perto dele e falei: — Você também não gosta de estar perto de muita gente? Ele respondeu que não. — Eu também não. Gosto de ficar sozinho, não sou muito sociável. Aquele rapaz virou e falou: — Não é ser sociável, são as pessoas que se aproximam da gente. Então eu me apresentei: — Prazer, meu nome é Pedro Henrique. E o seu? — Meu nome é Ricardo D’Angelo Garcia. Eu apertei a mão dele. — Prazer. Falei para ele que eu moro no Juramento e que muitos daqui da faculdade se afastam de mim por eu ser da favela, mas tenho orgulho de dizer onde eu moro, porque eu não escondo nada de ninguém. Não fumo, não uso droga, não faço coisa errada, nem tomo mulher dos outros. Sou um cara maneiro. Ali eu arranquei uma risada daquele jovem Ricardo e fizemos uma amizade. Essa amizade já dura seis anos. São seis anos morando ali no Juramento, e toda vez que tem alguma coisa legal ele sempre me chama. Eu explico pra ele que não estou trabalhando, faço alguns b***s, porque sou um cara inteligente, sei mexer com computador. Então eu arrumo, de vez em quando, um trampo de um mês, faço freelancer e vou pra casa levar o dinheiro pra ajudar minha mãe. Ele é um cara legal. Ele me contou que o pai dele é dono de um hangar com oito aviões e ainda tem outros serviços também. Agora tem mais, né, porque são seis anos… eu acho que eles estão com trinta aviões naquele hangar. E, se ele é o meu melhor amigo, ele não vê que eu sou pobre, ele não liga. Todo lugar que vai, pode ter rico como for, ele me chama pra ficar conversando comigo. Eu gostei muito desse amigo. Ele arrumou uma namorada, ficou noivo, me levou para o noivado dele. Mas eu percebi que é coisa só de pele, ele não ama essa menina. E ela é super antipática, não suporto ela e sei que ela vai dar trabalho a ele no futuro. Meu amigo perdeu os pais tem duas semanas, e eu fiquei ali do lado dele. Eu só estranhei uma coisa: quando eu falei pra minha mãe que o senhor Garcia havia falecido, minha mãe passou m*l na hora. Eu não entendi, mas ela disse que já estava passando m*l, só tomou um susto e piorou. E outra coisa: o morro todo foi no enterro do senhor Garcia. Será que ele é tão conhecido assim? Eu vou perguntar uma hora dessas pra minha mãe, porque não tem nada a ver aquele povo todo do morro ir no enterro dele. Mas tudo bem, eu acho que ele ajudava alguma ONG aqui do morro pra esse povo todo fazer essa comoção. Fui e fiquei ao lado do meu amigo. Ele exigia minha presença toda hora. A noiva dele estava desfazendo do pessoal da comunidade, e ele não gostou. A mesma mulher da praia esteve no enterro, e ela chorava muito. A menina dela não foi. Ela esteve lá sozinha, vestida de preto, ficou de longe olhando e chorando muito. Esses caras da boca chegaram e levaram ela abraçada. Eu não entendi nada, mas eu vou perguntar pra minha mãe sobre isso também. Tem muita coisa escondida que eu não sei, mas eu quero saber. Minha mãe ficou triste, abatida pelos cantos. Aquela mulher chorando, e os bandidos da boca abraçando ela e levando… eu não entendi, não. Mas eu vou entender. Continua…
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