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Capítulo 10
Maísa narrando
Oi, me chamo Maísa da Costa. Tenho 40 anos, sou mãe do Pedro Henrique e mãe do Ricardo, só que ele não sabe.
Há 26 anos atrás eu morava aqui no Juramento. O morro era liderado por um velho c***l, seu nome Garcia, o Gelo. Eu nem passava perto daquele homem, porque diziam que, quando ele queria uma pessoa, ou seja, uma mulher, ele pegava à força. As leis nesse morro não existiam. Então, as moças que se prezavam não passavam perto dele, nem perto da boca, nem perto dos seus soldados.
Ele tinha um filho chamado Antônio. Aquele filho dele estudava no asfalto, e ele era frio com o Antônio. Muitas das vezes, quando eu vinha da escola, o Antônio vinha subindo o morro sozinho ou com a Isabela. Conversávamos muito. Sendo ele mais velho, acabou o estudo primeiro. Isabela continuou a estudar; ela queria fazer engenharia. E nos tornamos amigas, íamos juntas para a escola. A sua mãe trabalhava fora e deixava ela em casa com seu pai, que morreu de infarto anos depois, quando Isabela tinha 16 anos e eu 13.
Começamos a perceber que Antônio tinha se tornado um rapaz lindo, mas ele era muito quieto, porque o pai dele era um homem muito mau. Quando ele perdeu a mãe, Antônio se tornou mais frio. Em uma invasão, o pai dele morreu também, e ele ficou tomando conta do morro junto com um amigo do pai dele, sendo que esse amigo foi embora para o asfalto e ele ficou sozinho. Então botou um subchefe, amigo dele também.
Isabela começou a estudar engenharia e quase não nos víamos mais. Era difícil encontrar com a Isabela. Às vezes eu ia tomar um sorvete e encontrava ela subindo correndo para estudar para prova. Eu parei de estudar quando terminei o primário e começamos a nos afastar, nos distanciamos.
Antônio já era chefe do morro e foi apresentado à facção. Lembro até hoje o dia em que ele foi apresentado. O nome dele passou a ser AG, o chefe; todos chamavam ele assim. No dia da sua apresentação teve um baile no morro, e todas as meninas foram. Eu também fui.
Chegando lá, ele botou o olho em mim e eu, iludida, achei que ele gostou de mim. Ficamos juntos naquela noite. Ele foi o meu primeiro, e nunca mais paramos de nos encontrar.
Quando foi um dia, meus pais descobriram que eu estava grávida e me botaram para fora. Não deu tempo de eu dizer para ele. Mas uma amiga minha sabia e contou para ele que eu tinha ido embora do morro porque estava grávida. Meus pais me botaram para fora e fui para a casa de uma tia minha em São Gonçalo. Fiquei por lá até o Ricardo nascer.
Um dia eu soube que meu pai deu um infarto e faleceu. Não demorou seis meses e a minha mãe também morreu, e a casa no morro ficou sozinha. Falei com a minha tia e voltei com meu filho para lá. Só que eu não conseguia arrumar emprego, e no morro não tinha creche. Comecei a entrar em desespero. O dinheiro que eu tinha levado estava acabando e o meu filho estava ficando sem leite. Ele ficou doente, tive que levar no postinho. Não tinha dinheiro para comprar remédio.
Fui até a boca e pedi ajuda. Um amigo meu que estava na boca e sabia da situação, e sabia que o meu filho era filho do Garcia, falou para mim:
— Por que você não entrega esse menino para o Garcia? Você soube? Ele se casou com a Isabela.
Aquilo para mim foi um choque. Perguntei:
— A Isabela?
Ele disse:
— Sim. Tirou ela do morro e ele também saiu. Quem tá tomando conta aí é o Misinho, aquele amigo dele.
Fiquei assustada com aquilo. A Isabela, logo a Isabela… Mas tudo bem. Ele me emprestou o dinheiro. Comprei os remédios do meu filho, as fraldas e o leite. Meu filho tinha seis meses.
Dois meses depois, quando meu filho estava com oito meses, bateram na minha porta. Abri e me entregaram uma cesta básica — que não era uma cesta básica, era um mundo: tinha carne, tinha tudo. Perguntei quem mandou aquilo, e o rapaz falou:
— Foi o seu Garcia.
Aceitei, porque realmente eu não tinha nada para comer. Já tinha dois dias que eu não comia direito. Ele mandou esse dinheiro aqui para a senhora comprar um gás.
Aceitei, porque eu não tinha dinheiro, e aquilo me deu uma ponta de esperança, porque eu ainda o amava.
No outro dia, eu estava sentada com meu filho no colo. Bateram à porta. Mandei entrar, porque estava encostada. Quando eu olhei, era o Garcia em pé na porta. Como ele é muito grande, eu tomei um susto, porque tampou até o sol. Eu não soube o que falar, só fiquei olhando séria para ele.
Ele disse:
— É esse o meu filho?
Olhei séria para ele e disse:
— É.
Ele pegou o Ricardo no colo e falou:
— Ele é meu filho. Parece comigo, mas lembra muito você. Vai ser um moleque bonito.
Sorri sem graça e disse:
— Vai ser, porque ele parece contigo.
Aí ele me fez uma pergunta que eu nem pensei. Ele perguntou:
— Me dá ele para eu criar? Minha esposa não pode ter filhos e ela queria uma criança.
Perguntei:
— Você vai dizer que é seu filho?
Ele balançou a cabeça e disse:
— Sim. Ela não vai ficar com raiva do meu filho. Vou falar a verdade para ela, mas vou dizer que nós tivemos algum caso e você sumiu do morro. Foi quando eu conheci e casei com ela. Estamos juntos há um ano. Eu nem sabia que você estava grávida.
Não pensei duas vezes e entreguei o Ricardo na mão dele. Ele falou:
— Não deixa ele esquecer a origem dele. Um dia conta para ele o que aconteceu. Não deixa ele às cegas. Ele é o herdeiro desse mundo. Se alguém souber que ele é seu filho e você não estiver mais aí, vão matar ele e tomar o morro.
Ele me deu uma quantia gorda e falou:
— Estou te dando esse dinheiro não é para pagar nada, é para te ajudar. Saia desse morro, compre uma casa para você, refaça a sua vida. Seu filho vai ser bem cuidado.
Peguei aquele dinheiro e guardei. Quando ele saiu, eu desatei a chorar muito, porque eu não queria ter dado meu filho, mas ele estava passando necessidade.
Saí do morro só com as roupas. Vendi a casa com tudo dentro e fui embora. Comprei uma casinha em Niterói. Lá eu conheci o Álvaro, nos casamos e eu tive o Pedro Henrique.
Passaram-se dez anos e eu contei a verdade para o Álvaro. Ele me condenou, disse que eu errei porque eu não devia ter dado meu filho. Eu respondi:
— Eu dei para o pai, não dei para qualquer um. E, pelo que eu sei, o menino está sendo muito bem criado. Estuda nas melhores escolas e não é uma criança esnobe.
E a mulher que cria ele foi minha amiga um dia. Ela não sabe que Ricardo é meu filho.
Dali em diante, meu marido começou a se drogar, a beber e a contrair dívidas. Um dia ele saiu e apareceu afogado no mar de Niterói. Não sei o que aconteceu.
Meu filho já estava terminando os estudos para passar para a faculdade. Vendi a casa e fui embora dali. Voltei para o Juramento. Meu filho estava com 17 anos. Ele entrou para a faculdade e ficou estudando lá. Hoje ele é administrador de empresas e trabalha com o irmão, sem saber que está trabalhando com o irmão.
Fiquei apreensiva, porque quando meu filho souber que trabalha com o irmão, não sei se ele vai me perdoar.
Sofri muito com a morte do Garcia, mas tem algo estranho e errado nisso. O avião que explodiu e caiu no mar era o avião do próprio hangar dele. Como assim ele não viu a mecânica do avião? Alguém sabotou esse avião.
Mas isso é conversa para cachorro grande. Eu não me meto nessas coisas. Vou ficar de longe, orando e cuidando do meu filho. Eu espero que ele não descubra esse morro e venha herdar o lugar do pai.