Percebo o ritmo do salão se acomodar dentro de mim quando o ambiente muda um grau. Não sei explicar, é como quando o vento vira a página sem tua mão: as cortinas não mexem, mas você sabe. O gerente que falou com o Salvatore antes reaparece, não olha pra mim, não olha pra ninguém, só mira o chão duas vezes, o que me parece um código. Salvatore não reage. Só tira a mão do meu ombro devagar e ajeita a gravata como quem afia uma lâmina. — Levanta comigo — diz, calmo demais. Eu levanto. Ele oferece o braço. Eu seguro. O crupiê sorri, o casal elegante também. Nada acontece e, mesmo assim, tudo acontece. Quando damos três passos, um garçom surge com uma bandeja. O movimento é ensaiado, perfeito, ensaiado demais. A taça mais na ponta está colocada de um jeito que qualquer esbarrão derrubaria no

