Capítulo 7

2875 Palavras
Ele não vai se lembrar de mim, insisti. Tive que me concentrar para não ficar ansiosa. Os martinis que tomei mais cedo naquela noite já tinham perdido o efeito, e agora eu estava nervosa. Como eu tinha sido convencida a fazer isso de novo? — Você pode parar de dizer isso? — Ashley olhou ao redor, avaliando o quanto tempo levaria até chegar nossa vez. Estávamos alinhadas com uma dúzia de outras mulheres que ficaram depois da palestra na convenção Publicidade em uma Nova Era para cumprimentar o palestrante, Edward Johnson. — Você é inteligente. Espirituosa. Bem-arrumada. Linda. Ninguém pode te esquecer. A mulher que ela estava descrevendo só existia há alguns meses. Antes disso, eu era desajeitada e tímida, me escondendo atrás de feições simples e de um cabelo castanho-claro sempre preso em um r**o de cavalo. — Você não me conhecia na faculdade. Eu era completamente esquecível naquela época. E, obviamente, nada de especial, já que não consegui manter minha vaga em Harvard por mais de um semestre. Ashley inalou fundo, um sinal de que estava tentando manter a paciência. Então ela se virou para mim e me deu seu sorriso mais encorajador. — Eu te conheço agora. Mesmo que ele não se lembre de você, ele vai fingir que lembra só para continuar falando com você. Minha pálpebra tremeu enquanto eu lutava para não revirar os olhos. — Cale a boca. — Não posso. Tenho uma paixonite completamente não lésbica por você. Você sabe disso. Não entendo como alguém não ficaria encantado por você. Ela entrelaçou o braço no meu e demos um passo à frente. Faltava apenas uma pessoa entre nós e Edward. Entre o meu passado e o meu presente. Eu estava pronta para ver esses dois mundos colidirem. Honestamente, eu provavelmente estava me empolgando à toa. Cinco anos haviam se passado, e o que foi tão impactante para mim naquela época provavelmente não significava nada para ele agora. Afinal, m*l nos conhecíamos. Tínhamos tido apenas algumas conversas reais — e o resto da minha experiência com ele era de longe, como uma espectadora. Não era como se eu estivesse na fila para ver Travis Smith. Isso, sim, seria um motivo para ficar ansiosa. Ele se lembraria de mim. Teria que se lembrar. O que aconteceu entre nós foi um curto tempo, mas imenso no impacto que teve — pelo menos, na minha vida. Mas será que eu tive o mesmo efeito na dele? Ainda estava perdida nesses pensamentos — no rosto de Travis, em seus olhos castanhos, e na maneira horrível como nos separamos — quando a mulher à nossa frente saiu da fila, me deixando cara a cara com Edward Johnson. Jesus, ele era lindo. Sempre fora, mas os últimos anos só o tinham deixado ainda mais impressionante. Eu o havia observado nos últimos noventa minutos, durante sua palestra, mas de perto sua presença era simplesmente hipnotizante. Seus olhos azuis estavam ainda mais intensos. Seu sorriso, ainda mais devastador. Ele tinha aquele tipo de beleza que poderia deixar qualquer mulher sem ar. Eu estava convencida disso. — Olá — ele disse, suavemente. Tão suavemente que não consegui dizer se era por me reconhecer ou apenas por charme. — Uh, oi — foi tudo o que consegui soltar. Eu podia estar arrumada por fora, mas ver Edward Johnson trouxe de volta todo o constrangimento adolescente que eu pensava ter superado. Felizmente, Ashley estava ali para me resgatar. Ela deu um passo à frente, me cutucando. — Oi, eu sou Ashley. Esta é minha amiga Emma. Nós trabalhamos na Now, Inc. em Los Angeles e queríamos dizer que realmente gostamos da sua palestra hoje à noite. Achei fascinante a sua visão sobre o relacionamento entre os departamentos de uma agência. Vejo as mesmas lutas competitivas entre a equipe de vendas e a criativa no nosso escritório. — Obrigado — Edward disse, seu tom leve e caloroso. — A guerra entre vendedores e artistas. A eterna batalha. — Ele olhou para nós duas, mas tudo que pude fazer foi balançar a cabeça como uma i****a. Ashley inalou com força — um sinal claro de frustração — e colocou o braço ao redor dos meus ombros. — Além disso, ela é muito tímida para dizer isso, mas Emma foi garçonete em uma casa noturna que você frequentava. — Ashley! — Eu a repreendi, mortificada. Era o tipo de amiga que falava tudo — e mais um pouco — se eu não a controlasse. Eu já podia sentir o calor subindo para minhas bochechas só de imaginar se ela mencionasse Travis também. — Eu não ia falar mais nada — ela murmurou. — Ah, eu me lembro de você — Edward disse, finalmente olhando para mim — realmente olhando. O jeito como seus olhos azul-escuros examinaram meu rosto fez cócegas na minha pele, e eu senti minhas bochechas queimarem. — Você trabalhava no The Luxe Lounge, certo? — Sim. Trabalhei lá por quase dois anos. — Eu não conseguia manter o olhar. Era tão constrangedor. — Tenho certeza de que você não se lembra de mim — acrescentei rapidamente, esperando que ele apenas concordasse e encurtasse meu sofrimento. — É só algo interessante para contar para minha amiga, nada demais. Ele riu educadamente, e aquela covinha que eu tanto amava apareceu. Como aquilo ainda tinha o poder de deixar meus joelhos fracos? — De qualquer forma — eu disse, percebendo as pessoas atrás de nós na fila, ansiosas para seu momento de encanto. — Foi bom ver você. Você fez um ótimo discurso. — Eu agradeço. — Edward continuou a me observar por um instante, como se tentasse puxar alguma lembrança, mas então Ashley me cutucou para irmos, e ele voltou sua atenção para as mulheres atrás de nós. — Isso foi constrangedor — murmurei assim que estávamos a alguns metros de distância. — Valeu cada segundo — ela suspirou, abanando-se com o Caderninho de anotações. — Eu não acredito que você era apaixonada por esse bilionário obscenamente bonito. Ele é ainda mais atraente pessoalmente do que nas capas da Vogue. E aquela covinha! Eu ri, meio sem fôlego. — Foi bom ter outra pessoa testemunhando a beleza que é Edward Johnson. — Você deveria vê-lo sem camisa — Ashley disse, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Atrás de mim, ouvi Edward pronunciar algo que chamou minha atenção. Meu coração disparou quando me virei para vê-lo me encarar. — O que você disse? — Você trabalhava para o pai de Travis — ele repetiu, seus olhos arregalados ao fazer a conexão. Travis. Foi essa palavra que me fez congelar. Ele se lembrava. Meu coração disparou. — Eu te disse — Ashley sussurrou, com um sorriso vitorioso. Eu belisquei o braço dela, depois voltei a me virar para Edward. Ele levantou um dedo, pedindo que eu esperasse enquanto ele terminava de assinar um papel para outra mulher. Quando terminou, caminhou direto em nossa direção. — Podemos conversar? Quero saber porque você desapareceu? — disse ele, seus olhos cravados nos meus. — Vamos tomar um drinque. — Ok, seu pai morreu, você foi para casa e criou sua irmã, e não conseguiu terminar sua faculdade E depois? Já fazia quase uma hora e meia desde que Ashley gentilmente fingiu estar cansada demais para se juntar a nós para uma bebida noturna, e Edward me levou a uma de suas casas noturnas locais favoritas, The night club, para uma bebida, que agora havia se transformado em duas. A cabine circular em que estávamos sentados tinha vista para a pista de dança abaixo, mas por causa da forma como era definida com paredes de vidro, a música não estava alta demais para conversar. Ela fornecia uma vibração muito única, íntima e viva. — É basicamente isso, na verdade. Eu não tinha me incomodado em contar a ele sobre minha luta para voltar para Harvard ou como a fundação Casa do bem se recusou a me dar minha bolsa de volta depois que eu saí sem terminar o semestre. Embora tivesse acontecido há cinco anos atrás, ainda era um ponto sensível. — Não pode ser isso. Sempre tem mais — ele cutucou. — Como você escolheu a publicidade? — Bem. A publicidade realmente me encontrou — eu disse, tirando meus sapatos e dobrando um pé sob minha coxa. — Eu estava buscando fazer algo novo e eu queria encontrar um emprego que envolvesse números e métricas, mas também envolvesse criatividade, então eu me dediquei ao marketing. Pretendo me formar — Em marketing. tive uma entrevista com uma headhunter, e uma das vagas que ela tinha disponíveis era em um departamento de marketing em uma agência de publicidade. De todas as posições que ela me mostrou, era a que eu menos estava interessada. Mas então, quando recebi a oferta e voei para Los Angeles para visitar o escritório, me apaixonei pela energia de lá. Havia números, estrutura, ideias e arte. Onde mais você consegue misturar tudo isso? Edward havia tirado o paletó antes. Agora, ele afrouxou a gravata e esticou o braço sobre o topo do banco. — Algumas pessoas acham que nós vamos ficar loucos por escolher essa área. Sua escolha de palavras feriu algo que não me incomodava há muito tempo. Eu me perguntava se eu era louca naquela época, quando eu era mais jovem e os pensamentos e sentimentos que eu tinha eram estranhos, incomuns e difíceis de lidar. As pessoas e fantasias que me excitavam eram assustadoras e sombrias. Mas eu tinha crescido e percebi que meu tempo em Harvard não tinha sido anormal. Tinha sido um período de flertes e descobertas, mas de forma alguma definia quem eu seria pelo resto da minha vida. Meus pensamentos eram normais. Minhas fantasias não eram estranhas. Eu não era louca. Às vezes, porém, eu me preocupava que teria que me esforçar um pouco demais para me convencer disso. Às vezes, me sentia uma impostora dentro da minha própria pele, mas eu estava com Edward Johnson agora — e se isso era loucura, era exatamente o tipo de loucura que eu queria para mim. O tipo de loucura que eu esperava ser. Então eu disse: — Provavelmente sim. Mas o que há de errado nisso? Nossos olhos se encontraram e permaneceram fixos, carregados de algo que ainda não ousávamos nomear. Conforme a noite avançava, nos aproximávamos cada vez mais um do outro, como se a gravidade entre nós fosse inevitável. Agora estávamos inclinados, nossos corpos separados apenas por alguns centímetros, e eu sabia que aquilo estava indo para algum lugar — ou para lugar nenhum. — Você ainda está no departamento de marketing, então? — perguntou Edward, pegando seu Manhattan e girando-o antes de tomar um gole. — Estou no setor de pesquisa, e agora quero ser gerente de estratégia e marketing. Suspirei interiormente. Pensar no meu trabalho era sempre um pouco deprimente. Embora eu amasse o que fazia, o presidente que tinha chegado no ano passado transformou tudo em um pesadelo. Além disso, o que me fascinava mesmo era a empresa de Edward — a Reach, Inc. O negócio tinha apenas cinco anos e já era um dos líderes do setor. Era o tipo de carreira que eu imaginava ter se tivesse terminado a faculdade em Harvard, mas a vida tinha me levado por outros caminhos. — Seu trabalho, no entanto… — fiz uma pausa, esperando que meu ciúme soasse apenas como admiração. — O que você construiu é incrível. Edward deu de ombros de um jeito que parecia ao mesmo tempo desdenhoso e divertido. — Tem sido uma viagem e tanto. m*l posso acreditar que é a minha vida, às vezes. Isso me surpreendeu. Ele nasceu em berço de ouro — eu imaginava que esperasse que tudo o que tocasse virasse ouro. Era mais difícil me ressentir do sucesso dele quando ele falava com tanta naturalidade. — Isso vai soar ingênuo, mas… o que exatamente você faz? Como divide as responsabilidades? — Nada ingênuo — disse ele, pousando o copo devagar, nossos joelhos quase se tocando. O calor dele irradiava para mim, e eu senti uma onda de excitação subir pela minha barriga. — Na verdade, não tenho ideia. Ri com um nervosismo que não conseguia explicar. — Seja sério. — Bem. Nossa estrutura é tradicional, com um conselho de diretores — cinco pessoas. Cinco homens, pelo que eu sabia. Era um mundo de patriarcas. Travis era o único outro nome que eu conhecia. — Há dois caras em Tóquio, um em Londres, e Nathan Sinclair e eu cuidamos do escritório de Nova York. Nate supervisiona os serviços criativos e de contas. Eu administro… todo o resto. — O que é muito. — O que é muito — ele repetiu, como se confirmasse para si mesmo. — Então operações, marketing, pesquisa, finanças… tudo você? — perguntei, surpresa. Nosso escritório tinha três chefes e era bem menor. Edward apenas sorriu de leve. — Na maioria das vezes, me escondo no meu escritório e leio o Diário de noticia o dia todo, mas de alguma forma os cheques continuam chegando. — Você faz bem mais do que isso. Ele suspirou e concordou com a cabeça. — Estamos crescendo. Teremos que reestruturar logo. — Então mudou de assunto, seu tom se tornando repentinamente sério e focado em mim. — Mas isso é chato. Vamos falar sobre você. Abaixei os olhos, subitamente tímida. — Já te contei tudo sobre mim. Ele estendeu a mão para ajustar meu colar — uma cruz simples que foi da minha mãe. O toque dele era quente na minha pele, quente demais, como fogo sobre fogo. Eu me acendi. — Você está diferente de cinco anos atrás — ele disse, sua voz suave, quase contemplativa, enquanto passava o dedo pelo decote do meu vestido verde esmeralda. — Mais segura. Mais mulher. Eu senti meu coração bater forte, mas não consegui evitar um sorriso. O toque dele era leve, quase reverente, mas com a promessa de algo mais. Ele desceu o dedo lentamente, roçando a pele do meu ombro. — E esses cabelos loiros… — Ele ergueu uma mecha, enrolando-a entre seus dedos. — Antes você os prendia num r**o de cavalo que m*l deixava ver seu rosto. Agora, eles emolduram tudo o que você é. — Você acha que mudei tanto assim? — perguntei, minha voz baixa, provocante. Ele assentiu, seu olhar me prendendo como se pudesse ver além da pele. — Sim. Você mudou. Mas de uma maneira que faz você parecer ainda mais você, se isso faz sentido. — Faz. — Eu respirei fundo, tentando processar a intensidade de suas palavras. Ele se aproximou, o calor de seu corpo quase tocando o meu. — Esse vestido verde esmeralda… você sabe o que faz comigo, não sabe? — murmurou, o tom carregado de desejo. — É quase… c***l. — c***l? — Eu ri suavemente, mordendo o lábio inferior. — Porque cada vez que olho para você, eu lembro do que quase tivemos cinco anos atrás… e do que ainda podemos ter agora. Coloquei a mão na coxa dele, de leve, cautelosa. O músculo dele se contraiu sob meu toque, e um arrepio percorreu meu corpo. — Se eu fui tão marcante para você, por que não me reconheceu quando me viu? — provoquei, arqueando uma sobrancelha. Ele puxou um fio do meu cabelo, e eu podia imaginá-lo puxando mais forte. — Não te reconheci sem o r**o de cavalo. — Sim, eu imaginei que fosse isso. O rosto dele ficou sério, sombrio. — Eu realmente estava a fim de você, Emma. A intensidade da confissão me surpreendeu. — Por cinco minutos. Literalmente cinco minutos. — Havia muitas garotas naquela cidade — ele admitiu, com um sorriso meio triste. — Demorei um pouco para perceber você. A mão dele subiu na minha perna, acariciando a pele na parte interna da minha coxa, e eu perdi o fôlego. — Não foi minha culpa. — Uh-huh — murmurei, quase sem voz. Era difícil refutá-lo quando eu estava tão vulnerável, tão tonta com o calor e o toque dele. Eu o queria naquela época. Não só a pessoa dele, mas tudo que ele representava — aqueles olhos azuis, o dinheiro, o futuro promissor. Esse desejo não tinha desaparecido. — Se eu tivesse te visto mais vezes… — ele parou, a voz rouca e carregada. — E então? — perguntei, quase num sussurro. Eu também pensava nisso às vezes. Imaginava o que poderia ter acontecido entre nós. Ele se inclinou e disse agora, bem perto do meu ouvido: — Eu teria tentado te levar para a cama. Eu senti o calor do toque de Edward, a proximidade dele mexendo comigo de um jeito que sempre mexeu. Mas, apesar do que ele dizia — e do quanto eu queria acreditar que as coisas seriam simples — eu sabia que não podia. Porque não importava o quanto eu quisesse, ou o quanto ele era o tipo de loucura que eu sempre quis me entregar, eu não podia esquecer o que aconteceu com Travis. Eu tinha perdido minha virgindade com ele, não com Edward, e isso ainda pesava no meu peito como um segredo que nunca poderia compartilhar. Um detalhe que me fazia hesitar antes de me render totalmente.
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