Sem revisão
O espelho geralmente é considerado o maior inimigo de uma mulher, porque ele mostra quem realmente somos em todas as nossas nuances. Foram raras as vezes que o considerei como tal. Lembro de cada uma delas, esquecer é algo que não me permito, pois são lembranças que fazem eu entender que não importa o que os outros dizem ou acham, tudo o que importa é o que eu penso de mim mesma e convenhamos, eu sou gostosa pra c*****o!
— Devemos nos assustar por ele saber suas medidas? — Brenda perguntou irritada, alguém que não ver há sete anos, sabe a minha numeração, enquanto ela sempre erra. Brenda há muito tempo desistiu de me dar roupas de presente e passou a comprar livros, cosméticos e papelaria.
— Ele sempre foi bom de olho. Deve ter visto alguma foto recente nas redes sociais. — E isso era um fato, Lee sempre teve bom gosto, assim como sempre acertou o tamanho das roupas, o vestido que ele mandou de presente, caiu perfeitamente nas minhas curvas abundantes.
O maldito vestido me deixou sexy e elegante, eu o amei e odeio So Ho por me fazer gostar de um presente dele.
— Quer saber, não importa. Se ele está agindo como um stalker, logo vamos saber. Félix disse que trabalha próximo ao Renoir’s e que vai está a sua espera, é só dizer o seu nome para o hostess. — Avisou animada.
Ainda não sei onde estava com a cabeça quando deixei minha amiga maluca arrumar um encontro às cegas pra mim. Ainda mais com o histórico dela onde só tem encontros furados.
Bom, se o cara for um mala sem alça pelo menos eu vou conseguir comer de graça no Renoir’s, um fato que me faz questionar o tipo de pessoa que esse ser humano é, geralmente, é necessário agenda com semanas de antecedência para conseguir uma reserva no restaurante que mistura o melhor da culinária francesa com o melhor da culinária paraense.
— Eu vou chamar um 99, porque ainda tô devendo o Uber da última corrida que deixei para pagar depois. — Eu sou uma negação, mas o meu nome tá sujo na praça, então uso débito em conta e como o dinheiro é contado, sempre esqueço de separar o do Uber.
Mas eu vou criar vergonha na minha cara e pagar o que devo, ah, se vou!
Paguei o motorista e desci, nesta noite era uma linda mulher alta, cabelo crespo bem cheio e um sorriso que iluminaria toda a cidade se houvesse um apagão. Ela sorriu ao me ver, estava atrás do balcão verificando as reservas.
— Boa noite, nome? — perguntou gentil.
— Clarissa Castanho. — Eu não sabia o sobrenome do tal Félix, Bren não me mostrou nem uma foto para ao menos localiza-lo pelo salão.
— Ah, o senhor Félix Silva fez a reserva mas infelizmente tem cinco minutos que ele ligou cancelando. Sinto muito, acredito que ele não teve tempo de avisa-la. — A hostess informou com pesar.
Ah, que bosta! Eu levei um bolo e sequer fui avisada. Vai se ferrar mundo e a necessidade de abrir as pernas para um estranho. Deveria ter ficado em casa e brincado com o meu monstrão, pelo menos ele não me daria um fora sem ao menos ter a decência de mandar uma mensagem desmarcando. Gastei dinheiro com 99 pra nada e nem vou comer de graça no Renoir’s, que ódio!
— Sinto muito pelo transtorno. — A mulher se desculpou.
— Tudo bem, eu já vou indo, obrigada. — O que posso fazer? Tentar uma mesa em um dos restaurantes mais caros da cidade? Com o dinheiro que ganho de royalties dos livros e como Freelancer? Ia ser um ano de dinheiro guardado e ainda teria que lavar a louça. Triste, mas é verdade.
Assentir mais uma vez para a moça e virei em direção a saída, e claro, com a sorte que tenho, dei de cara com um cliente bem mais alto que eu.
— Desculpa — pedi levando a mão ao nariz, o peito do homem é duro, meu nariz doeu com o esbarrão.
— Ah, sério? Porque você não olha por onde anda?
Ai, c****e! Ele de novo!!! Reconheci a voz daquele i****a arrogante que se acha o rei da cocada preta.
— E você? Porque não... — Isso só pode ser brincadeira, eu fiz uma coisa muito r**m na minha vida passada, não, não e não. Eu não aceito que ele me veja com os presentes que mandou e o pior é que não tem como fugir! Ele está bem atrás do Splinder, aquele maldito sorriso cativante, aquela boquinha rosada e muito macia e gostosa de se beijar.
— Deixa de ser rude, Spindler. A Ise é minha convidada. — Lee disse passando a frente do editor chefe da Star editorial. — Eu mandei o e-mail em cima da hora, não pensei que viria mas assim mesmo fiz a reserva para uma terceira pessoa. Fico feliz que aceitou o convite e usou meus presentes, ficaram muito bem em você. — Ele disse tudo isso sorrindo. — Vamos. — So Ho segurou minha mão e me guiou de volta a hostess que abriu um sorriso enorme ao nos ver. Digo, ao vê os dois homens pois quando me viu com eles, pareceu não entender o que eu ainda fazia ali.
— Boa noite, tenho uma reserva no nome de So Ho, Lee So Ho. Para três pessoas. — Enquanto ele falava com a hostess, puxava minha mão mas o indivíduo a manteve firme na sua. Não oscilou um segundo sequer, nem quando o belisquei.
— Claro, por aqui. — A moça disse com um sorriso meio sem graça. Ela olhava para mim como se pedisse desculpas pelo m*l entendido, infelizmente, não houver um m*l entendido. Minha mão estava presa aquele coreano gostoso. Não sei como ele consegue se manter calmo e educado quando estou enfiando minhas unhas na sua pele.
— Aqui está — A hostess disse ao chegarmos em uma mesa próximo a janela. — Espero que seu tempo aqui seja valioso. Deseja ver a carta de bebidas? — Ela perguntou a Lee que acabará de puxar uma cadeira e me fez sentar. Ele assentiu enquanto puxava outra e sentava, odeio o fato dele ter braços longos, faz tudo sem qualquer dificuldade.
— Sim, por favor — eu odeio o fato dele ter apenas um leve sotaque, depois de anos longe do país, seu sotaque deveria ser mais acentuado.
— Ele estará aqui em breve, com licença. — A moça nos deixou.
— Uma pergunta antes de fazermos o pedido. Porque ler o e-mail dele e não os meus? — Perguntou ofendido. Se ele soubesse que nem o de Lee eu li e que estou pensando em uma estratégia para sair sem parecer uma pobre barraqueira.
— Porque o e-mail que mandei não era sobre trabalho e me recuso falar sobre. — So Ho respondeu com sua educação impecável.
— Mas viemos justamente falar sobre trabalho. — Splinder retrucou com certa indignação.
— Isso foi antes da Clarisse se juntar a nós, se ela houvesse respondido ao meu e-mail, eu teria remarcado nossa reunião, mas como ela não respondeu porém está aqui, vamos ter um agradável jantar e falaremos sobre o porquê não importa o que você diga, o próximo livro lançado não será o seu, amanhã, na editora. — O tom frio que Lee usou para calar Splinder arrepios até meus cabelos do orifício que defeca. — Entendeu ou como Clarisse diz “vou ter que desenhar?” — Parei, So Ho apelou agora. Usando minhas frases de efeito que são de domínio público!
— Entendi — Splinder afirmou com dentes trincados.
O sommelier lindamente escolheu aquele momento para trazer a carta de bebidas.
Meu coreano, digo, o Coreano metido pegou a carta, agradeceu e levou uns segundos lendo. Até que, provavelmente em dúvida, olhou para mim com seu típico sorriso derrubador de muralhas levantadas no coração alheio, perguntou:
— Tem alguma preferência ou prefere escolher a bebida após pedir o jantar?
Odeio ele, odeio o que aquele pequeno gesto de saber o que quero antes de qualquer coisa faz comigo. Odeio o simples fato de ainda não ter conseguido levantar e ido embora, deixando-o para trás.
— Tanto faz, sendo álcool — disse tentando parecer indiferente, mas na verdade havia um vinho tinto suave que Lee sempre pedia quando vínhamos aqui na época do nosso namoro/noivado. Eu nunca pedia porque não sabia pronunciar o nome, mas ele sabia e como Lee prestava constantemente atenção em mim, como ele me enxergava de fato, na primeira vez percebeu o quanto gostei da bebida e passou a pedir sempre aquele vinho específico, só porque gostei e eu, uma boba apaixonada na época, nunca reclamei.
— Só não fica bêbada, pelo amor de Deus. — Splinder resmungou.
— Ela pode fazer o que quiser, é minha convidada e eu vou garantir que chegue em casa, segura. — Lee retrucou sério e em seguida, pediu a garrafa do vinho que não sei reproduzir, mas que reconheci sendo o meu favorito.
É Clarisse, deveria ter corrido quando teve a oportunidade, não permitido que esse homem gostoso e que aparentemente continua atencioso, te arrastasse de volta para o restaurante e te pagasse um vinho. Pelo menos eu vou sair de bichinho cheio, levemente alcoolizada e de carona para casa, infelizmente, depois da comida não serei comida, vou garantir de cumprir a parte do levemente alcoolizada porque se eu ficar bêbada, amanhã com certeza vou acordar na cama do indivíduo que está olhando para mim como se fosse uma preciosidade, igual fazia há quase 9 anos atrás.
Lembrar do passado, me arremeteu lembranças felizes e dolorosas, a mais dolorosa foi quando soube que Lee não retornaria da Coréia, porque decidiu honrar o acordo que tinha entre sua família e uma outra, se casando com uma coreana.
— E a sua esposa, porque não veio com você? — Perguntei para lembra-lo que aquilo ali não era uma trégua ou uma brecha para aproximação e que não importa o que ele faça, não voltarei a ser enganada. Só um louco recusaria comida de graça em um dos restaurantes mais caros do Pará.
— Você é casado? Não sabia. — Splinder perguntou exatamente quando o garçom chegou com um pedido que não fizemos.
— Não. — Foi a resposta de Lee que m*l tive tempo de processar porque o garçom começou a falar.
— Com os cumprimentos do chefe, o jantar de vocês hoje é por conta da casa. Ele mandou dizer que infelizmente esta atolado na cozinha mas que se sente muito feliz em receber o feliz casal e amigo, depois de anos de ausência. — O rapaz muito educado explicou.
Eu não sabia onde enfiar a cara Miguel Renoir ainda lembra de nós, Splinder nos olhava com certo espanto e Lee? O filho de uma corna sorria e agradecia.
— Agradeça Miguel e diga que minha Ise e eu estamos lisonjeados por lembrar de nós, porém, faço questão de pagar o jantar, mas agradeço muito pela cortesia.
— Minha Ise? — Splinder perguntou como se finalmente estivesse entendendo tudo. Ah, cachorro salafrário! Se ele tentar fazer qualquer insinuação, eu vou quebrar a garrafa de vinho que um segundo garçom trouxe, a pedido do sommelier, na cabeça grande dele.
Que ódio!!! Sem pensar duas vezes, emputecida, chutei a canela dele por debaixo da mesa.
Lee olhou para mim como se não entendesse porque levou um chute certeiro na canela fina.
O garçom começou a nos servir, depois de garantir que transmitiria nossa gratidão ao chefe. Eu já estava farta, completamente arrependida, sem esperar o rapaz terminar de servir o prato de entrada, levantei, decidida a sair sem olhar pra trás.
— Pra mim essa palhaçada já deu. — disse jogando o guardanapo em cima da mesa.
— Ise — Lee fez menção de levantar mas eu fiz sinal para que não fizesse.
— Adeus — arrastei a cadeira para trás no momento que o garçom abriu a bandeja e o cheiro delicioso atingiu meu nariz em cheio, reconheci na hora um dos principais pratos de entrada do restaurante, omelete de camarão com jambú, e aroma suave de tucupi e pimenta. Sentei de novo, o garçom que estava servindo Spindler pareceu não entender nada. — Vou depois que comer o prato de entrada. — Deus, minha cara nem tremeu ao dizer isso depois de fazer cena.