SEIS: O Ódio Que Habita Teus Olhos

2579 Palavras
Quando o aniversário de Jun Hui chegou, MingHao não amanheceu bem. Por insistência do próprio ômega, não ocorreu nenhuma cerimônia de casamento, e por já ser marcado, a família não achou que realmente fosse necessário, por mais que soubessem que o motivo real era outro, MingHao não tinha nenhum motivo para comemorar aquela união. Lucas tivera uma longa conversa com o filho naquela manhã, o fazendo jurar que jamais tocaria em MingHao se não fosse da vontade dele, também afirmando com todas as letras que não o perdoaria se fizesse m*l ao próprio primo. Mas a festa de aniversário de Jun Hui aconteceu, com muita bebida e muita comida, onde os ômegas e betas podiam ver bem de perto como os alfas tinham pouco amor às suas vidas, sempre com brincadeiras muito perigosas, onde qualquer deslize lhes daria uma cicatriz para a vida toda. Alfas brincavam com fogo, com álcool e com objetos afiados como se fosse algo inofensivo, e justamente devido a isso que a maioria dos betas costumava julga-los como imbecis perigosos, enquanto os ômegas preferiam dizer que isso era parte da natureza agitada que os alfas tinham. A festa ocorreu na casa onde Jun Hui viveria com MingHao, que era uma casa grande, com quatro quartos. Quando alfas solteiros partiam para a vida adulta, em geral construíam casas pequenas, com apenas um quarto, pois elas lhe serviriam enquanto ainda não tivessem uma família, só construíam casas maiores quando se casavam e seus companheiros engravidavam do primeiro filho. Quando Jun Hui era pequeno, chegou a se mudar duas vezes, pois lhe nasceram muitos irmãos, mais do que Lucas esperava. O alfa bebeu e festejou a noite toda, até cair bêbado no meio da sala, junto a toda a bagunça que seus convidados fizeram. A festa durou até o dia raiar, sobrando apenas os destroços das brigas e das brincadeiras perigosas. MingHao ainda pudera ver um beta arrastando seu marido alfa pelos ombros naquela manhã, o mesmo estava tão embriagado que o chamava de mãe. Alfas eram deploráveis. — Tão deplorável quanto os outros. — o ômega lúpus dizia enquanto olhava para seu, agora, marido. O rapaz de cabelos ergueu o balde que segurava, despejando a água sobre o rosto do alfa, que tossiu e ergueu parte do corpo atordoado — Levante-se, já passa de meio-dia. O Wu sentou seu corpo, sacudindo a água de seus cabelos e tentando enxugar o rosto. — Perdeu o juízo? — ele esbravejou, mas a altura da voz fez sua cabeça doer. Levou as mãos à cabeça. MingHao apenas o observava com uma expressão nada boa, o balde ainda tinha um pouco de água, não hesitaria em jogar de novo. — Saia desse chão, esse lugar está um chiqueiro, quase o confundi com o lixo. Jun Hui sabia que o intuito de MingHao era de ofendê-lo, mas se conteve e não disse nada. Cambaleou um pouco quando ficou de pé, seguindo pela casa para poder tomar um banho. Se demorou muito neste banho, fedia a álcool. Não saberia dizer quanto tempo ficou ali, pensando em um milhão de coisas, sendo que nenhuma delas parecia resolver seus problemas com o ômega. Vestiu uma roupa mais fina, era um dia quente, principalmente para os alfas, que sentiam mais calor. Ficou alguns minutos no quarto, pelo cheiro sabia que MingHao havia deitado na cama, mas por pouco tempo. As coisas do então esposo estavam lá, ainda separadas das dele, como se MingHao não quisesse se misturar. E ele sabia que realmente era isso, o mais novo queria distância dele. Encontrou MingHao na cozinha, o ômega estava sentado à mesa, comendo em uma vasilha que ele consideraria pequena. Nem se deu ao trabalho de olhar para o alfa, ignorando sua presença como se ele não fosse ninguém. — O que fez para comermos? — ele o indagou, sua barriga roncava. — Para mim eu fiz um cozido com babatas. — ele disse, finalmente erguendo os olhos para ele — Já você, — o ômega se ergueu, pegando uma panela vazia e um pedaço grande de carne crua — Cozinhe se quiser comer, não sou seu empregado. — Você é meu ômega, é sua obrigação cozinhar para mim. — Você é meu alfa, era seu dever ser fiel a mim. — o respondeu, tão frio quanto em qualquer palavra que tenha dito antes — E você foi, Jun Hui? Vencido e sem nenhum argumento, o Wu deixou a panela sobre a mesa, saindo pela porta dos fundos. Pulou a cerca no quintal e sumiu pela rua. Não podia comer em casa a não ser que ele próprio cozinhasse, já havia entendido. Caminhou até a zona comercial da vila, onde ficavam os bares, que também serviam refeições. Sempre comia ali, onde a comida era servida em qualquer horário, não era a mais saborosa, mas ficava mais fácil de engolir com a ajuda da água ardente. Pediu sua refeição e ocupou uma mesa para espera-la, uma beta lhe serviu uma caneca de cerveja bem grande. — Vejam se não é o noivo. — ouviu a voz de seu irmão enquanto o mesmo ocupava uma cadeira em sua frente — Não deveria estar em casa com seu esposo? — Ouvindo ele dizer que me odeia, essa eu passo. — Ele não cozinhou pra você? — A única coisa que MingHao cozinharia para mim seriam os meus olhos, que ele próprio tivesse arrancado. — não estava querendo ser exagerado, não seria a primeira vez que um ômega faria isso naquela alcateia. Havia uma lenda que perturbava os alfas casados, que há alguns anos, um ômega cansado de sofrer nas mãos do marido, o esperou dormir e arrancou seus olhos de surpresa. Mas ninguém nunca confirmou essa história, diziam ser apenas para assustar. — Não o imagino fazendo qualquer maldade. — Seokmin o dissera — MingHao é adorável. — Seu primo adorável derramou um balde com água na minha cabeça para me acordar. — o mais novo dera um gole farto na bebida, sentia-se enfadado — Ele me odeia. — As coisas vão se resolver, irmãozinho. — o mais velho ficou de pé, empurrando a cadeira para debaixo da mesa — Só vim falar com você, já estou saindo. — Para onde vai? — Tenho um encontro com o meu adorável futuro marido. Seokmin deixou o bar e o irmão para trás, saindo do local. Seguiu para a própria casa para tomar um banho. Alfas não tomavam banho o tempo todo, isso era algo natural na vida todos, pois gostavam de deixar seus cheiros mais fortes, mas isso não significava que eram sujos. Jungwoo sempre insistia para que seus filhos se banhassem, sempre dizendo que o tal cheiro forte só atraía outros alfas, e afastava os ômegas, que só achavam aquele cheiro vulgar. Ainda se demorou mais um tempo em casa, ainda estava com um arranhão na altura das coxas, que fora feito pelo animal que caçou por Seungkwan. Quando chegou à casa do ômega, não entrou, pois sabia que seu pai alfa não estava em casa, e era considerado falta de respeito alfas entrarem na casa quando o chefe da família não estava presente, especialmente por Chittaphon, omma de Seungkwan, não ter lhe dado essa permissão ainda. Seungkwan viera atender prontamente, já estava arrumado e seu cheiro era exalado pela casa. Seungkwan tinha cheiro das margaridas que nasciam no alto das montanhas, muito agradável ao olfato do alfa. — Seokmin. — o menor sorriu assim que o viu do outro lado da porta — Achei que não iria vir mais. — Como eu poderia perder a chance de te ver? — o alfa lúpus mostrou um meio sorriso, que aos olhos do ômega era encantador — Meu dia não estaria completo sem teu sorriso. Ouviu um barulho que mais se parecia com alguém fingindo vomitar, e em seguida um beta surgiu pelo corredor. Ele era baixinho, arriscaria dizer que era até menor que Seungkwan, ou até mesmo do exato tamanho, só percebera se tratar de um beta pela falta de cheiro. O rapaz, que tinha uma estranha coloração de cabelo, que não chegava a ser nem ruivo e nem castanho, parou bem atrás de Seungkwan, não parecia nada feliz, e ainda o olhava com uma expressão de desconfiança e desgosto, mais pendida para o desgosto. — Não é isso tudo que você falou. — ele se resumiu a dizer apenas isto, os olhos ainda fixos no alfa. Seokmin estreitou os olhos, mas não buscou sanar nenhuma dúvida, estava curioso para saber quem aquele beta era e o que ele estava fazendo ali. Sabia que Seungkwan tinha um irmão beta, mas não era ele, já o havia visto, aquele rapaz não era da família. Um amigo? — Hansol, por favor. — o ômega pareceu ter ficado constrangido — O que a gente conversou? Pedi para que ficasse no quarto com o Felix. — Eu só queria ver se não tinha cara de mau caráter perigoso. Seokmin ergueu as sobrancelhas, o beta falava como se ele não estivesse ali. — Vá para o quarto, por favor! O beta voltou pelo mesmo caminho que veio, ainda olhando por cima do ombro mais uma vez, fez uma careta para o lúpus, não fazia questão de esconder que não gostava dele. Seokmin nada disse, o rapaz não parecia ser uma ameaça para o relacionamento que estava construindo com Seungkwan. — Vamos? — ele perguntou. — Uhum. — e logo o ômega já estava saindo de casa.     [... Aroma de Ômega ...]     — Não, não, não pode ficar de pé! — Wonwoo correu rapidamente até o irmão assim que chegou em casa, o encontrou na cozinha, de pé ao lado do fogão à lenha, tentando o acender — Jihoon, eu confiei que ficaria deitado, você prometeu que não faria nenhum esforço. O mais velho, que era menor, foi calado em uma cadeira, que não poderia com alguém que fosse mais pesado, aquelas cadeiras só os serviam porque eram pequenos e magros. O loiro tremia, sua pele estava muito gelada, o que deixava Wonwoo extremamente assustado. Chorava quando Jihoon estava dormindo, mas se fazia de forte quando o mesmo estava acordado. Era sua vez de ser forte. — Não aguento mais não fazer nada. — a voz baixinha disse. — Eu sei, mas precisa descansar. — Não está adiantando de nada, continuo doente. — estava amargo, triste e sem esperanças, Jihoon sentia que já lutara demais, e que os deuses estavam prontos para lhe darem o merecido descanso, pois somente a morte faria todas as preocupações irem embora. O mais novo não gostava quando ele falava aquilo, era como se dissesse adeus. — Veja! — o ômega de cabelos escuros usou um tom animado para tentar alegrar o irmão — Mais uma cesta com comida e leite foi deixada em nossa porta. Jihoon se forçou a sorrir, para ele, aquela comida só adiava sua morte iminente, que não podia ser parada. — Vou preparar algo delicioso para você, espere um pouco. Wonwoo foi animado buscar uma panela, deixando Jihoon sozinho na mesa. Entediado e sem coragem para mexer os pés, o loiro puxou a cesta para perto de si, olhando o que havia ali dentro. Seja lá quem estivesse os ajudando, parecia ter ouvidos ali dentro, pois trazia aquilo que ele havia dito que queria comer. Sorriu imaginando que a própria Freyja viesse em sua porta, mas não passava de um pensamento l**o. Sentiu um cheiro leve e acabou aproximando o nariz da alça da cesta, onde a pessoa provavelmente havia segurado, um cheiro estava presente ali, e era cheiro de alfa. Ele conhecia esse cheiro, mas não lembrava-se de onde, mas com certeza já o havia sentido de perto.       [... Aroma de Ômega ...]     Seungcheol estava na sala, olhava pela janela para a rua meio vazia, sendo ocupada apenas um casal que parecia apaixonado, observava o jeito com que o alfa segurava a mão do ômega, olhava o jeito com que o ômega sorria bobo e feliz. Se perguntava se um dia seria como aquele ômega, se algum dia um alfa andaria de mãos dadas com ele pelas ruas, e se o olharia com os mesmos olhos apaixonados. Mas não tinha muitas esperanças, quem amaria um ômega como ele? Seungcheol não era bonito como os outros ômegas eram, suas mãos eram ásperas pelo trabalho manual, e não sabia se vestir como ômegas se vestiam em seu dia a dia. Tinha vergonha de seu corpo, mas não saberia dizer se ele era como o corpo dos outros ômegas, afinal, nunca vira outro ômega sem roupa. Gostava de esconder sua pele, sempre vestia camisas de mangas longas, suas roupas sempre se misturavam com as de seu pai, pois nunca fizera questão de separá-las, até mesmo vestia algumas camisas do mais velho, fazendo assim com que o cheiro do alfa se prendesse em si. — Então é por isso... — sussurrou sozinho. Jeonghan estava sentindo o cheiro de Siwon nele. Riu sozinho se sentindo um i****a, mas não adiantaria nada agora, já não via mais o alfa bonito, não havia motivos para se verem. Pensara até mesmo em fazer alguma encomenda na oficina do loiro, mas não precisava nem de uma âncora ou uma espada, nem qualquer outro objeto forjado a ferro. Jeonghan acharia estranho se lhe pedisse para fazer uma roda de ferro para a velha carroça? — Não vai dormir, filho? — Siwon o perguntou, o alfa também estava na sala, terminando de concertar a perna da mesa, que havia quebrado hoje mais cedo — Já é tarde. — Estou sem sono. — o respondeu — Appa? — Sim? — Quando ela vem? Siwon sabia bem a quem o filho se referia. — Em dois ou três dias, está resolvendo algumas coisas em casa. — Como ela é? Siwon sabia que o filho estava inseguro quanto a nova esposa de seu pai, o alfa ficara sozinho por cerca de 20 anos até amar novamente. Lee SunMi era mais jovem que o Choi, ela tinha 39 anos, enquanto Siwon já passara dos 50. A moça ficara viúva seis anos depois de se casar, após o marido, que era beta, ser morto durante uma briga de bar. Seungcheol não sabia quase nada sobre a madrasta, e era justamente isso que o deixava angustiado, não sabia se ela iria gostar dele ou não, se iriam se dar bem ou viver em pé de guerra. — O que te aflige, meu filho? — E se ela não gostar de mim? O alfa suspirou, e em seguida sorriu. — Não há motivos para ela não gostar de você. — ele disse — És uma criatura adorável, tenho certeza que ela te amará e vocês viverão bem sob o mesmo teto. Creio até mesmo que a presença dela nesta casa possa ser bom para você, afinal, é uma ômega como tu. Seungcheol balançou a cabeça afirmando. Ele sabia que havia algo nas entrelinhas quando seu pai lhe disse que ela o faria bem. Siwon sempre lutara para dar uma boa criação para o filho, mas sentia que havia falhado em alguns pontos. Amava Seungcheol do jeito que ele era, mas sabia que o filho sofria por não ser como os outros, por não ser cortejado pelos alfas ou betas e por não conseguir ter amizade com os outros ômegas, ele sabia que o mais novo se sentia diferente, como se jamais pudesse se misturar aos demais. Talvez SunMi pudesse ensinar Seungcheol a se amar.
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