Jeonghan desprendia seus cabelos longos e loiros, ainda meio bagunçados depois de horas trabalhando a fio com os mesmos presos. Era natural que muitos ômegas que passavam pelas ruas parassem para olha-lo enquanto o mesmo ajeitava seus fios, era muito bonito de se ver, por mais que o Kim não gostasse de toda essa adoração em qualquer um de seus atos, ele sabia muito bem que era belo, mas achava tudo aquilo um exagero, era conhecer de todos os seus defeitos e não via motivos para ser tão admirado pelos ômegas de sua alcateia.
Chegara até a carpintaria, vendo ao longe a imagem de Siwon trabalhando, sabia que Seungcheol estava mais adentro trabalhando em outra coisa. Eles pareciam ter muito serviço para que apenas duas únicas pessoas trabalhassem, ao seu ver, deveriam contratar mais alguém. Com o pouco que pode reparar em Seungcheol, ele parecia ser uma pessoa reclusa, do tipo que preferia ficar um pouco mais afastado das pessoas, por isso estava sempre mais para dentro do lugar, quase como se estivesse escondido.
Jeonghan queria perguntar o motivo de não ser muito sociável, não parecia ter nada de errado com ele, e além disso, Seungcheol era um rapaz jovem, não deveria se afastar do que os alfas julgavam como sendo as diversões da vida. Nunca o vira em bares ou festas, pra falar a verdade era como se até dias atrás, aquele rapaz sequer existisse.
— E então, eu posso ver agora? — o loiro perguntou assim que parou próximo de onde o outro estava.
Seungcheol ergueu seus olhos.
— Ah, pode sim.
O mais baixo se ergueu de onde estava sentado e o loiro o acompanhou até mais adentro, o baú em questão estava posto sobre um móvel de madeira bastante delicado, uma mesa bem detalhada em suas arestas e nas pernas principalmente, por alguns segundos Jeonghan ficou apenas a observar aquele móvel, certamente feito pelo Choi, ele era muito talentoso.
— Ainda não está terminada, mas já comecei com os detalhes, é provável que termine antes do combinado, talvez daqui a dois dias eu posso entregá-lo.
O baú médio estava para lá da metade, os detalhes da tampa quase acabados. Muito bonito.
— Está ficando perfeito. — o alfa pronunciou, enquanto deslizava seus dedos sobre os detalhes na madeira — Realmente um trabalhado incrível.
Seungcheol também deslizou seus dedos sobre o baú, raspando-os acidentalmente sobre os dedos do rapaz loiro. Afastou-os de súbito, sentia-se nervoso com qualquer toque que viesse do alfa, notou finalmente que Jeonghan o deixava afoito, ansioso e se sentiu estranho com aquela sensação.
De fato, não se sentia confortável perto de alfas que não fossem o seu pai, mas as sensações que tinha em relação a Jeonghan não eram desconfortáveis, pelo contrário, parecia bom.
— Estou tentando seguir à risca os desenhos que me deu. — o disse, retirando de dentro do baú o papel amarelado deixado pelo alfa — São muito bonitos, a pessoa que os fez é muito talentosa.
— Obrigado.
O ômega demorara alguns segundos pra entender.
— Ah, você que os fez.
— Sim, eu fiz há poucos dias, fiquei imaginando que ficariam bonitos em um entalhe.
— Esse baú parece ser importante pra você.
Viu quando o Kim meneou a cabeça, era como se ele estivesse pensando em alguma coisa. Não resistiu em olhar suas expressões por alguns instantes. Já ouvira os boatos sobre ele, do quanto era bonito e do quanto os ômegas queriam se casar com ele. Seungcheol achava que tudo aquilo era exagero, mas olhando bem de perto ele precisava admitir que, pelo menos, o boato de sua beleza era real.
— Quero guardar algumas coisas importantes dentro dele, uma espécie de tesouro que só teria valor para mim e pra alguém especial, isto é, quando eu tiver alguém especial.
Estranhamente Seungcheol se sentiu feliz ao saber que ele pensava assim.
— Tenho que ir, fugi do trabalho e ainda tenho muito o que fazer ainda hoje. — o alfa fez de ir embora, virando-se para a saída — Nos vemos por aí, Seungcheol.
O mais novo e mais baixo ficou vendo-o sair, talvez encarando demais as costas do mesmo. Sequer notou que seu pai o olhava e analisava o que estava acontecendo, Siwon sabia que coisas ruins poderiam acontecer ao seu filho se o mesmo viesse a se apaixonar por alguém como Jeonghan, ter esse tipo de sentimento por um alfa como o filho do líder não era algo bom. Não que Siwon acreditasse que seu filho não era suficiente para um alfa como o loiro, mas no fundo o Choi mais velho tinha medo de que o Kim fosse machucar seu menino.
Seungcheol já sofrera demais para que seu coração fosse despedaçado por um alfa.
Já Jeonghan seguiu seu caminho de volta para a oficina, voltando a prender seus cabelos, por mais que não gostasse, trabalhar com eles soltos o incomodava e atrapalhavam muito.
Como sempre seu irmão mais velho estava muito concentrado no trabalho, Mark e Christopher trabalhavam ao mesmo tempo em que conversavam, enquanto Baek Ho, que ainda estava aprendendo, limpava alguma coisa e resmungava. Hansol havia fugido como sempre, o beta m*l ficava alguns minutos e já estava arranjando um jeito de fugir do serviço e não adiantava o quanto seu pai o reclamasse.
— Por que sempre que você sai acaba voltando com cheiro de ômega? — seu irmão mais velho perguntou em um tom debochado, ainda concentrado no próprio serviço — Pensando melhor, não responde.
Jeonghan ainda se cheirou, notando que um pouco do cheiro que sentia em Seungcheol havia ficado preso na manga de sua camisa, provavelmente no momento em que havia encostado seu braço ao dele. Aquele cheiro era forte, ficava impregnado com muito facilidade, se sentia culpado por ter gostado disso.
— Como se você nunca estivesse cheirando a ômega, irmão. — o loiro passou por ele, indo buscar algo nos fundos do lugar.
Mingyu riu sozinho do comentário do irmão mais novo, ele e Jeonghan sempre se deram muito bem, mesmo depois do nascimento de seus outros irmãos, o alfa loiro sempre foi seu irmãozinho favorito e os dois estavam sempre juntos de um lado para o outro. Agora mais velhos, adultos, percebiam o quanto eram diferentes um do outro, mas compartilhando de algumas características suficientes para que o omma dos dois sempre dissesse que eles eram iguaizinhos.
Quando a noite veio, todos começaram a ir embora, mas naquela noite Mingyu não ficou até mais tarde, acompanhou seus irmãos até metade do caminho, seguindo seu rumo até sua cabana.
O cheiro de sua casa estava diferente e isso ele podia notar de longe, lampiões a iluminavam de dentro indicando que alguém estava ali dentro, mas não estranhou isso, ele sabia quem estava ali e o que estava fazendo. Só de entrar ele podia notar a diferença, a casa estava arrumada e não havia roupas espalhadas pelo chão, o cheiro de bebida derramada não estava mais ali, o cheiro de sabão se misturava ao seu próprio e a um terceiro cheiro.
Cheiro de ômega.
Encontrara Wonwoo sozinho na cozinha, sentado próximo à mesa com uma expressão ansiosa, o ômega ergueu os olhos assim que ouviu o barulho de seus sapatos.
— Boa noite, senhor Mingyu.
O alfa deu mais alguns passos, ao mesmo tempo que Wonwoo se levantava. Ele parecia apreensivo, como se esperasse alguma aprovação. Mas Mingyu não disse nada, ficou parado ao seu lado o encarando por alguns segundos, até que o Lee descesse os olhos meio nervoso.
— Preparei seu jantar.
— Não precisa agir como se estivesse com medo de mim, eu não sou uma pessoa má, Wonwoo. — o mais alto o segurou pelo queixo de um modo que não o machucasse — Vamos, me deixe ver o seu sorriso.
Demorou alguns segundos até que o Lee se sentisse confortável para sorrir. Seus dentes não eram tão brancos, mas também não era m*l cuidados, ele parecia se esforçar para manter uma boa higiene e aparência mesmo tendo pouco. Mas o sorriso de Wonwoo estava longe de ser um sorriso pleno de felicidade. Mingyu sabia que o irmão do ômega ainda estava doente.
O alfa beijou seus lábios rapidamente.
— Irei jantar, estou faminto.
Dito isto, o Kim ocupou lugar na mesa, se servindo de tudo o que o menor havia cozinhado, rasgando as carnes como se fossem feitas de papel.
— Você comeu? — em algum momento ele o perguntou, vendo o Lee balançar a cabeça afirmando — Seu irmão tem o que comer em casa?
— Sim, senhor.
— Está falando a verdade?
— Sim. — reafirmou — Com o dinheiro que me deu ontem eu comprei comida, Jihoon se alimentou muito bem hoje.
— E quanto ao médico?
— Eu o procurei, mas me ele não veio.
O cheiro de Wonwoo mudou ao falar, parecia ainda mais triste, chegava ao ponto de se sentir ofendido, como se o médico o houvesse ignorado como se seu dinheiro valesse menos do que o dos outros. Mingyu se sentia incomodado com isso, não gostava de pensar que sua alcateia dependia da assistência de um homem que discriminava as pessoas, ele precisava tirar isso a limpo.
— Ele irá amanhã bem cedo, garanto isso. — de certo modo, havia algo assustador em sua fala.
Depois que Mingyu terminou de comer, Wonwoo reunira as sobras, o alfa havia dito que ele poderia as levar se quisesse, o ômega juntou os pedaços maiores de carne em uma vasilha, prometendo trazê-la de volta no dia seguinte. Como havia combinado, o ômega viria por meados da tarde, limparia a casa e faria o jantar, o mais velho também deixara dinheiro para que comprasse o que faltava na dispensa.
No fim do dia Mingyu o pagava com o equivalente ao dobro da diária de um trabalhador comum. Wonwoo queria reclamar e dizer que sequer trabalhara um dia inteiro, não deveria receber nem metade do valor diário, o dobro disso parecia um exagero.
— Vem.
Mas quando Mingyu o chamou para o quarto, se recordara que seu trabalho ia além disso.
Não era r**m, pelo contrário, ele se sentia muito bem, mas quando acabava era inevitável que não se sentisse sujo, estava se vendendo de qualquer forma, mesmo que fosse para uma única pessoa. Todavia, o pior de tudo era não conseguir entender Mingyu, não saber como classifica-lo, ele não parecia mau, mas que homem de bem paga para ter o corpo de alguém e considera isso normal?
Sentou-se na beirada da cama e começou a se vestir, sentia os dedos de Mingyu percorrerem suas costas de uma extremidade a outra, lhe causando arrepios. Terminou de colocar suas roupas e se preparou para ir embora, já na porta olhou para o alfa mais uma vez, que ainda estava deitado sem roupas sobre a cama, os olhos fechados, relaxado.
Quem é você, Kim Mingyu?
Ao chegar em casa, Wonwoo foi até seu irmão, sentando-se perto dele na cama, Jihoon estava tão fraco que sequer abriu a boca para perguntar alguma coisa. Wonwoo se sentia péssimo, como se estivesse nadando e nadando, mas condenado a morrer antes de chegar à terra firme.
— Não se preocupe, irmão, o médico virá amanhã.
[... Aroma de Ômega ...]
— Você come feito um alfa.
Chittaphon reclamou por meados do almoço, Hansol havia ficado para comer e agora devorava tudo como se já não comesse há dias. Seungkwan achava engraçado o jeito que o beta comia, ele usava as mãos, assim como os alfas, mas não comia a mesma quantidade que eles, na verdade, Hansol parecia derrubar de propósito, como se estivesse se forçando a comer daquela maneira estando na frente do ômega.
Seungkwan sabia que Hansol queria aparentar ser mais dominante, mas do jeito que ele fazia não estava dando nada certo, pelo contrário, ele parecia meio desajeitado, mas não era o desajeitado dos alfas, era um desajeitado, desajeitado mesmo.
— Você não come assim na frente do meu marido. — o matriarca da família comentou, meio desconfiado.
— Se seu... — ele tentou falar, engoliu tudo com força, quase chorando — Marido descobre que eu sou um beta dominante ele não me deixa mais visitar o Seungkwan.
— Você não é dominante, Hansol. — Felix, o segundo mais velho dos irmãos, comentou, rindo das reações do beta mais novo.
— Eu sou sim, está com inveja porque nunca conseguiu ser.
— Eu nunca quis ser.
Hansol empinou o nariz.
— Sabe, Hansol, você se diz dominante, mas que eu saiba você não sabe fazer nada, como vai ser um dominante se não pode sustentar seu ômega?
Aquilo parecer desconcertar o Kim, mas não o suficiente para fazê-lo desistir de sua ideia de se tornar o marido de Seungkwan. Ele sabia que Young Ho nunca o deixaria se casar com Seungkwan enquanto não trabalhasse, mas Hansol iria arrumar um emprego, era tudo questão de tempo.
E de milagres.
— Eu sou um ferreiro.
— Você nem chega perto do fogo porque tem medo.
— Como é que você sabe dessas coisas?
Felix lhe mostrou uma careta. A verdade era que o beta mais velho não tinha tantas ocupações depois que deixou o navio para viver em casa com seus irmãos ômegas e seu omma, seu passatempo era ficar entre uma conversa e outra com outros ômegas e betas por aí, sempre de olho nos boatos que circulavam pela alcateia, e se tinha uma informação em presente na vida dos betas, era a de que Kim Hansol fingia ser dominante, mas em casa era o bebezinho da mamãe.
— Obrigado pela refeição, Sr. Zhang, sua comida é maravilhosa.
Na hora de ir embora, Seungkwan o acompanhou até a porta. Era meio difícil arrancar o beta de sua casa, se fosse apenas pela vontade do Kim, ele ficaria o dia inteiro, se mudaria de mala e cuia. Mas como as coisas não eram de seu querer, ele precisava ir embora, ainda teria que se explicar por ter faltado serviço a manhã toda.
Hansol ainda não havia aprendido nem o básico, Mark, seu pai, já não sabia mais o que fazer com o filho.
— Vou ficar morrendo de saudades. — o Kim dramatizou assim que os dois pararam na porta.
Ele sempre fazia isso, nunca queria ir embora.
— Não comece, Sol.
Hansol adorava quando Seungkwan o chamava de Sol, se sentia especial, pois mais ninguém o chamava assim. O beta quase se agarrou a ele para poder ficar mais alguns segundinhos. Era maldade, ele não queria ir pra casa, certamente seria castigado com uma pilha de panelas para lavar por ter fugido sem avisar para onde iria. Teria que fazer muito dengo para que seu omma o liberasse.
E dengo era a melhor coisa que Hansol sabia fazer, muito provavelmente a única.
— Eu não mereço nem um beijinho? — o beta fez um bico exagerado na direção do mais baixo.
Mas eles eram quase do mesmo tamanho, Hansol era um beta baixinho.
— Já disse, emprego primeiro.
O mais velho fechou a cara.
— Um dia eu vou ter muito dinheiro, vou sair pra caçar e vou trazer um animal enorme e vou pedir permissão pra te cortejar, você vai ver.
Seungkwan parecia estranho com aquilo e Hansol viu isso, ele parecia incomodado em relação a cortejo, era como se estivesse escondendo algo dele. Viu quando o ômega mordeu um dos lábios antes de dizer:
— Desculpe, mas ontem à noite um alfa pediu permissão para me cortejar, Hansol.