Os dias passaram mais rápido do que eu imaginava. Quando a gente para de fugir, o tempo muda de ritmo. Não corre mais por medo; corre porque tá cheio de coisa pra fazer. E eu estou. Todos os dias. A Rocinha, que antes parecia um labirinto apertado e hostil, agora começa a se mostrar viva; cheia de cor e gente com o coração aberto. Tudo tem barulho: o rádio tocando no boteco às oito da manhã, a criançada gritando na viela, a vizinha de cima brigando com o cachorro que late pra tudo. E eu, ali no meio, tentando encontrar meu lugar. Começou com um favor. Nanda me chamou num domingo pra ajudar a Dona Soraia, aquela costureira da casa florida, a lavar roupa. Ela não aguentava mais carregar o balde pro quintal e me ofereceu vinte reais pela ajuda. Aceitei sem pensar. Naquele mesmo dia, lavei,

