Letícia
Passei a toalha no espelho do banheiro para desembaça-lo. Dei uma boa olhada em minha aparência. Soltei o meu cabelo escuro que tinha prendido para tomar banho. A janela aberta trazia o som rouco da voz do meu inquilino, e a risada infantil da minha pequena filhinha.
Quando vi aquele monte de mensagens e telefonemas, temi o pior. A voz em pânico da babá me deixou desesperada. Nunca imaginei encontrar aquele grande homem sentado na sala montando não sei o quê com a minha filha. Já ficava surpresa por ele dar atenção a ela, ter paciência com suas perguntas ou não achar r**m uma menina de quatro anos saber mais que ele sobre algum assunto. Só isso já mexia comigo, e claro que o fato de ele ter um carinho especial pela minha pequena o deixava mil vezes mais bonito do que era.
Um dia desses, eu o flagrei fazendo abdominal no quintalzinho em frente à casa dele. Fiquei uns bons minutos admirando todos aqueles músculos trabalhando. Senti-me quente, meus p****s pesados, como se estivesse amamentando, mas não era a boca da minha filha que imaginava nos b***s duros que roçavam contra o tecido do sutiã, muito longe disso, imaginava os lábios rosados daquele gigante loiro.
Corri para o banheiro, arranquei a minha roupa e admirei meu corpo. Fechei os olhos e imaginei meu inquilino me acariciando, tocando em meu corpo febril, em minhas partes secretas e latejantes… E pela primeira vez me masturbei. Demorou um pouquinho para aliviar o incômodo no meio das minhas pernas. Mas quando cheguei lá, senti-me aliviada e culpada ao mesmo tempo. Agora não conseguia olhar para o loiro sem lembrar o que fizera sem ele saber.
E não estava ajudando em nada aqueles olhares que ele me lançava. Vamos lá, olhe para mim. Totalmente comum. O cabelo já viu dias melhores. Peguei uma mecha e o olhei com desgosto. A pele pálida precisava de uma corzinha. Meus olhos tinham aquelas marcas pretas embaixo, as malditas olheiras. Entre a firma e cuidar de Carina, estava tudo uma correria. Marcel tinha razão, precisava de uns quilos a mais.
Abri a gaveta da pia do banheiro e tirei alguns produtos de beleza que tinha ganhado de uma amiga. Eu não sabia usar nada daquilo. Tinha medo de virar uma palhaça, ou algo do tipo. Com o meu ex-marido eu não precisava me preocupar com essas coisas, ele nunca reparava. Mas o homem lá fora possivelmente estivesse acostumado com lindas mulheres e não com alguém comum e sem graça como eu.
Suspirei resignada. Eu não tinha muito o que fazer. Mexendo na bolsa, encontrei um lápis de olho, sombras, pós, batons. O que uma mulher faz em uma hora dessas? Pesquisa no Google, claro. Achei um vídeo no YouTube que ensinava a fazer maquiagem básica. Era bem facilzinho.
Vinte minutos depois, olhei no espelho e gostei do que vi. Usei lápis, uma sombra bem clarinha e finalizei com um gloss que deixou meus lábios brilhantes. Coloquei um conjunto de lingerie rendado e sexy. A probabilidade de ir para a cama com aquele lindo homem era totalmente nula, mas, por algum motivo, queria me sentir bonita e desejável. Nada como uma roupa para isso. Coloquei um vestido florido para complementar, já que a noite estava fresca e agradável. Nos pés, uma rasteirinha.
Desci as escadas da minha casa já sentindo o cheirinho de carvão. Não podia deixar o vizinho com tudo. Abri a geladeira para ver o que tinha como contribuição. Tinha arroz, uma salada de legumes e pudim.
— Espero que ele goste de pudim — falei alto enquanto enchia os braços com as tigelas e fechava a geladeira com o quadril.
Ao sair no quintal, encontrei Carina sentada no murinho que separava a casa dos fundos e o quintal, com um Marcel passando um creme nela. Ao passar por eles, para deixar as coisas na mesa do jardim, senti o cheiro de repelente.
— Mamãe!
Aproximei-me dela pelo lado de dentro do quintal.
— Oi, pequena. — Dei um beijo em sua bochecha rosada.
— Senta aqui, para que o Marcel passe repelente em você e os mosquitinhos não piquem suas pernas. — Olhei para o loiro e senti minhas bochechas esquentarem.
Ter aquelas grandes mãos em meu corpo, mesmo que em minha mente, garantiram-me um belo o*****o. Tê-las de verdade me faria entrar em combustão espontânea. Será que isso seria possível? Talvez devesse perguntar para Carina qual a probabilidade de isso acontecer.
Meu Deus, Letícia, você só pode estar louca!
— Sim, mamãe. — O olhar predatório dele não ajudou em nada. Eu estava quase em chamas. — Não podemos deixar que os mosquitos malvados lhe piquem. — O grande sorriso de lobo mau fez minhas entranhas derreterem.
A combinação de um homem lindo e uma criança anjinho me pedindo algo foi demais. Sentei na mureta igual à minha menina. Marcel colocou uma porção generosa do creme em suas mãos e começou a passar em minhas pernas. Nada na vida me preparou para a sensação maravilhosa. O homem não tirou os olhos dos meus enquanto trabalhava em meu corpo.
Remexi-me incomodada e meus m*****s rasparam no tecido do sutiã. Mordi os lábios para não gemer. As mãos do Marcel subiam mais, e eu desejei que elas fossem para o lugar que mais uma vez pulsava vivo.
— Mamãe. — Com muito custo desviei os olhos daquele mar azul, para focar na diabinha que tinha me colocado naquela situação. Carina levantou e se equilibrou em meu ombro, colocando as mãozinhas nas minhas bochechas. — Você está bem?
— Estou sim, querida.
Como explicar para uma garotinha de quatro anos que a mãe dela estava se derretendo pelo vizinho?
— Terminei. — Marcel levantou e tive que erguer a cabeça para ver seu rosto. — Vamos colocar os bifes para assar.
Era impressão minha ou a voz dele tinha ficado ainda mais rouca?
A campainha da casa tocou. Pulei do murinho e quase corri até o portão. Precisava de um pouco de ar longe de toda aquela testosterona. Dei graças a Deus de não ter caído de cara, pois minhas pernas estavam bambas. Se eu estava assim só de ter suas mãos em minhas pernas, imagine quando o tiver na cama?
— Meu Deus, eu já estou pensando com a certeza de que isso vai acontecer. — Balancei a cabeça enquanto abria o portão. Um homem da FedEx, com uma caixa nas mãos, estava do outro lado.
— Carina Rodrigues de Souza?
— É minha filha — respondi espantada, sem saber do que se tratava.
— Por favor. — Ofereceu um aparelho. — Poderia assinar o recebimento?
—Ah! Claro! — Quase deixei o aparelho do moço cair no chão. Dei a minha assinatura digital, peguei a caixa e agradeci ao homem. Retornei para os fundos do quintal carregando o pacote.
— Que isso, mamãe? — Carina veio ao meu encontro. Marcel olhou intrigado para o pacote.
— Algo que chegou para você. — Coloquei o pacote na mureta e olhei por todos os lados até achar o remetente. Bem, se a noite estava estranha, agora havia ido para níveis astronômicos de estranheza. O nome do Marco estava escrito ali. — Parece que seu pai mandou algo, minha querida.
Carina olhou a caixa por alguns segundos e deu as costas voltando para o lado de Marcel. Aquilo me doeu. Minha menina tinha medo do pai. Ele era um inútil, ordinário, mas pai dela. Ela nunca deveria ter medo de nada. Peguei uma faca na mesa. Cortei a fita adesiva e abri o embrulho. Dentro da caixa havia um urso de pelúcia com um cartão escrito numa língua estranha.
— Carina, olha. — Mostrei os dois objetos. A pequena veio até mim, ignorou o bichinho e pegou o cartão. Sua expressão era de pura concentração. Ela analisou o papel, sentou na cadeira e o colocou sobre a mesa, colocou as mãozinhas na cabeça e encarou o papel.
— Agora você acaba de perder a ajudante. — Abracei o ursinho e olhei para Marcel.
— Aceito uma substituta. — O sorriso de canto de lábios era de m***r. Respirei fundo, pedi licença e entrei na casa com a desculpa de lavar as mãos. A sala era uma confusão de peças e o que parecia um avião estava meio montado no chão. Seja o que for, tinha certeza que Carina iria me contar tudo depois.
Passamos a meia hora seguinte preparando o jantar. Marcel operando a churrasqueira e eu auxiliando em tudo que podia. Estava com um prato esperando a carne. Ele chegou bem perto, causando um arrepio por todo o meu corpo, e disse que eu estava cheirosa. Retruquei dizendo que não usava perfume, e ele só riu.
Quando tudo ficou pronto, sentamos à mesa. Por um momento, olhei para aquela situação: éramos uma perfeita família, só que não. Mais uma vez fiquei triste por Carina não ter aquilo, não ter um pai presente. E uma estrutura familiar decente. Eu tentava duro suprir todas as necessidades dela, mas nunca conseguiria ser um pai, esperava do fundo do coração que ela me perdoasse por essa falha no futuro.
— É uma Cifra de Vigenère[1]. — Carina falou enquanto eu colocava o prato com comida na frente dela.
— Mas você tem a chave? — Marcel perguntou enquanto cortava a carne para a minha filha em pequenas tirinhas. Dirigi um olhar de “Do que você está falando?”, e ele sorriu. — Uma criptografia utilizada para codificar mensagens que foi inventada muito tempo atrás. Estudei isso na faculdade. — Deu de ombros.
— Não tenho. — Carina fez biquinho, conhecia aquela carinha. Ela estava ao mesmo tempo chateada e animada com uma coisa que não sabia. — Me ajuda, Marcel?
— Ajudo, mas a mocinha tem que comer toda a comida. — Empurrou o prato para ela. — Depois temos que terminar o aeromodelo, e aí poderemos nos concentrar nisso.
— Certo, Marcel.
Tive que me certificar que o meu queixo não estava caído. Carina simplesmente havia aceitado sem questionar. Deixou o cartão de lado e começou a comer balançando as perninhas embaixo da mesa.
— O que você fez com a minha filha? — indaguei, enquanto colocava comida em meu prato. Quando a menina se deparava com um enigma ou algo que não entendia, ficava obcecada até decifrar ou aprender. E aceitar assim numa boa era estranho.
— Ela é minha recruta…
— É, mamãe, sou uma recruta, tenho que obedecer ao meu comandante.
Marcel bagunçou o cabelo dela e sentou ao seu lado.
A camaradagem dos dois era impressionante. Meu peito se apertou. Era para o Marco estar aqui se divertindo com a filha, ajudando a criá-la, passando por todos os desafios que minha menina apresentava. Mas não, ele achava que míseros reais seriam o suficiente para cuidar dela. Mas quer saber, f**a-se! Azar o dele. Eu iria ficar feliz e orgulhosa por cada conquista da minha pequena menina.
Olhei para Carina espetando uma cenoura do prato de Marcel, e ele empurrando o prato para mais perto dela. Uma atitude tão banal que naquele momento deixei de lamentar que Marco não estivesse com a gente e passei a lamentar que o gigante loiro não fosse o pai da minha pequena. Marcel era tudo que eu sonhei para minha menina.
[1] técnica de criptografia por substituição polialfabética que utiliza uma série de cifras de César diferentes, baseadas nas letras de uma palavra-chave.