Eu estava esperando.
Eu estava esperando que Nathan abrisse a boca e me falasse o real pretexto dele precisar m***r aquele homem, ou do motivo dele sempre parecer que estava me escondendo algo. Vi em seus olhos a sombra da preocupação e meu coração ficou apertado, mas era necessária aquela conversa. Eu já o tinha visto matando um homem a sangue frio e como o seu rosto ficou. O brilho nos olhos de Nathan, naquela noite, não era o mesmo que tinha quando me olhava, e não havia possibilidade de ele ser tão impetuoso, não o homem por quem eu tinha me apaixonado.
— Já está na hora de contar tudo a você, mesmo que vá contra o regulamento.
— Que regulamento? Do que você está falando? — o que será que Nathan escondia de tão grave?
— Vamos terminar de tomar o nosso banho... E com calma eu explico tudo — não que eu estivesse assustada, mas, a forma como ele me olhava já me dava uma ideia do que estaria por vir. E o meu pressentimento dizia que era algo além da minha compreensão.
Nathan subiu bem atrás de mim, sem falar ou esboçar qualquer palavra, totalmente diferente do homem de minutos atrás, antes de eu pedir para ele revelar o motivo de todo aquele segredo. Não me esperou para terminar o banho, pegou a toalha, enrolou na cintura e saiu, me deixando sozinha no banheiro. Eu queria falar, tentar lhe dizer que tudo ficaria bem. No entanto, como poderia assegurar isso se eu mesma não estava me sentindo bem, com receio do que poderia acontecer depois da revelação que ele queria me fazer?
Contudo, era eu quem queria saber, e mesmo que fosse algo pior do que vê-lo matando uma pessoa, não teria como fugir dele. Ele já estava no meu corpo, na minha mente e no meu coração. Agora era tarde demais para voltar atrás. Tarde demais para voltar no tempo e não me apaixonar perdidamente por ele, mesmo que custasse a minha sanidade.
Terminei de tomar banho sentindo um vazio por ele ter saído e me deixado sozinha. Era possível sentir o gosto do seu beijo na minha boca, a sua voz dentro da minha cabeça me chamando de gostosa, ele dentro de mim me preenchendo e me fazendo completa e irrevogavelmente dele. Pois era isso que eu era: só dele e de mais ninguém. Quando terminei de me enxugar, fui para o closet, peguei uma de suas camisetas brancas e largas, vestindo logo em seguida e absorvendo seu cheiro. Peguei a primeira calcinha que vi e coloquei.
Sorri ao lembrar quão possessa fiquei quando descobri que ele tinha ocupado uma parte do meu closet do tamanho de uma caixa de fósforos, e me lembrei de quão feliz eu fiquei por ele ser tão mandão e ter entrando na minha vida e tomando conta dela para si. Arrumei meus cabelos em uma trança e coloquei de lado, deixando-a cair sobre o ombro. Me olhei no espelho e procurei não enxergar os hematomas, forçando um sorriso no rosto, tentando amenizar toda tensão e aquele maldito frio na barriga que insistia em me deixar ainda mais nervosa do que já estava. Respirei fundo, tentando encontrar a coragem que precisava naquele momento. Inspirei, reforçando aquela busca por coragem.
— Vamos lá, Lizzie... — me encarei no espelho — o que pode ser pior do que vê-lo matando alguém? — seria loucura minha pensar que teria algo pior? Algo pior do que ver a raiva na sua pura e rica essência? Eu queria acreditar que nada poderia ser pior que isso.
Decidida, endireitei os ombros e ergui a cabeça, e já que eu não poderia viver sem ele, o que fizesse ou deixasse de fazer seria parte do pacote “Nathan G. Fox”, e eu teria que aceitar.
Quando desci, vi Nathan sentado no sofá, cabisbaixo e com as mãos apoiadas nos joelhos. Me apertou o coração vê-lo daquela forma, o que fez com que o medo que estava percorrendo o meu corpo se intensificasse ainda mais, junto com o medo de perdê-lo. Ao lado dele tinha uma pasta com o símbolo da segurança nacional dos Estados Unido. Quando ele sentiu a minha presença, levantou a cabeça para me olhar. Seu rosto não era mais daquele homem cheio de desejo por mim... Era um rosto triste e de olhar perdido.
— Nathan... — eu queria falar algo, porém seriam apenas palavras vagas e sem sentido algum diante aquela situação.
— Pegue — segurou a pasta e estendeu para que eu pegasse — esse sou eu. E se, depois de tudo que você ler, quiser ir embora... — uma dor fina dentro do meu peito surgiu quando ele falou — Eu vou ter que aceitar e deixar que você viva a sua vida em paz, sem qualquer interferência minha.
— Esse é um documento confidencial — então aquele era um documento oficial. Tudo que eu pressentia era que aquilo tinha se tornado algo além da minha compreensão. — Nathan, eu o amo. Não vou deixar você...
— Lizzie — suspirou levantando do sofá, vindo na minha direção — suas pesquisas estavam próximas de descobrir algo sobre minha missão, mas isso, isso vai além do que suas investigações apuraram. Isso... — apontou para pasta — é o que eu sou. Acho melhor você sentar, porque o conteúdo desse relatório pode mudar a forma como você vai me olhar.
— Seja lá o que for, eu amo você Nathan. Amo com todas as minhas forças.
— Você não sabe o que está falando... — Nathan precisava entender que eu não fugiria dele. Que eu o amava e que ele era o homem da minha vida.
— Eu vou ler, e depois de tudo que passamos juntos, se isso for insuportável de tragar, ainda assim daremos um jeito de ficarmos juntos. — eu não desistiria dele.
Não desistiria do homem que tinha tomado minha alma e o meu amor para ele. Nathan se afastou, seguindo para a janela enorme da sala, virando de costas e abaixando a cabeça, espalmando as mãos no vidro enquanto eu abria a pasta e começava a ler.
— Nathan — eu estava assustada. Muito assustada para ser mais sincera — você...
— Um agente infiltrado do governo... — disse se virando para me olhar. Um olhar frio e sem vida.
— Mas, por quê? Como? — eu já estava começando a ficar sem saber o que pensar.
— Essa é a minha última missão, Lizzie — falou dando um passo na minha direção, mas eu recuei — e é agora que você foge da minha vida...
— p***a! Nathan... — gritei furiosa. — eu não vou fugir, isto é, se esse for mesmo o seu nome... — levei as mãos até a cabeça, me sentindo tonta e um pouco desorientada.
— Esse é o meu nome. Isso eu não tinha como mudar. — a sua voz era distante, totalmente indiferente.
— Que tipo de agente secreto usa o próprio nome? — aquilo era ridículo, e completamente absurdo, que eu tive que me sentar na cadeira para não cair.
— Do tipo que teve sua identidade apagada de todos os sistemas de busca e que apenas a inteligência sabe. O Nathan Gregory Fox que foi criado pela inteligência, não tem pais. Eu não existo. — exatamente isso. Nathan Fox que eu conhecia não existia.
— Então, você precisou de seis anos para conseguir chegar até o Isaäk? — soltei, antes que eu pudesse controlar minha boca.
— Lizzie, não foram seis anos... foram dez anos — começou — você não sabe quem é o Isaäk Markov. — dez anos? p**a m***a! A coisa era muito séria mesmo.
— E nem ao menos sei quem é você, Nathan — suspirei antes de continuar a falar — quer dizer, agora sei.
Será que as coisas poderiam ficar piores? Ah! Sim. Podia! Meu namorado era apenas um agente da inteligência. Pisei na m***a quando nasci ou dancei pole dance na cruz.
— Agora você me conhece, Lizzie. — ele disse sem muito ânimo — eu poderia ser um terrorista... — ainda tentou brincar. Ah! Se ele fosse um terrorista, aí sim, as coisas não seriam boas. — e ainda dá tempo de desistir...
— Ah! vai tomar nesse... — calei, mas a última palavra ficou na ponta da língua — olha, eu vou repetir... Eu amo você. Sério. Amo muito mesmo, e acho que você é a melhor coisa que já me aconteceu...
— Pergunte o que são os civis, Lizzie... — senti algo estranho com o seu rompante.
— O quê? — do que ele estava falando?
— Você me ouviu. Pergunte o que são os civis para mim — m***a! Ele estava me olhando com o olhar na temperatura de um iceberg.
— Nathan... — choraminguei, pois eu já sabia que não seria uma coisa boa.
— Que m***a, Lizzie! — esbravejou, socando um dos vasos da mesinha que ficava perto do sofá — pergunta logo! — a forma como ele estava agindo não era nem um pouco parecida com aquele Nathan. Não o meu Nathan.
Os olhos dele ainda estavam sobre mim, me avaliando e ao mesmo tempo furiosos com algo. Comigo? A respiração dele estava acelerada e era visível a forma como ele estava alterado.
— O que são os civis, Nathan? — perguntei com a voz fraca e baixa, sentindo uma lágrima descer quente sobre o meu rosto.
Quando eu terminei de falar, pude ouvir um rugido abafado vindo de sua garganta. Nathan permaneceu parado perto do vaso estilhaçado. Ele fechou os olhos e respirou fundo.
— Quatrocentos e doze, Lizzie — permaneceu imóvel e de olhos fechados, enquanto falava — esse é o número de pessoas que tive que m***r. Esse é o número de pessoas, inocentes, que eu tive que m***r para poder chegar até Isaäk Markov. Você não faz ideia do que é ter que m***r quatrocentas e doze pessoas para poder chegar até ele...
— Você matou todas essas pessoas... — não era uma pergunta, era mais uma coisa que eu tinha que colocar na mente, e depois fingir que não escutei. Eu estava ainda mais chocada. Ainda mais tonta. Ainda mais sem chão — isso faz de você um...
— Assassino — terminou abrindo os olhos e a dor em sua voz chegou à minha alma.
— Espera... — falei sentindo o ar dos meus pulmões — então, naquela noite, você estava...
— Eliminando uma testemunha do grupo de Isaäk — ele parecia mais tranquilo, mas seus olhos tinham aquela irritação misturada com indiferença, que eu nunca conseguia diferenciar em qual momento se encontrava — quando você chegou, acho que o meu mundo parou — confessou — eu não tinha ideia que você seria capaz de passar tão fácil pela segurança...
— Sério? — perguntei incrédula — aquela mulher não sabia nem cuidar daquele bigode... — bufei sem paciência.
— Agora eu sei que ela não soube cuidar do meu bem mais precioso — m***a! Por que ele tinha que ser fofo em um momento que era para ser de pura tensão? — quando Gretha disse que deixasse você ir, achamos que estaria segura com ela. Eu sabia que não era para eu ter escutado e ido atrás de você. Mas, tínhamos um corpo para nos livrar, limpar o local e fingir que nada daquilo tinha acontecido...
— Não sei o que dizer Nathan, é muita informação para assimilar, e agora neste exato momento — tentei parecer calma — era para eu surtar, ou melhor, gritar, mas não consigo. Não consigo falar nada.
— Eu achei que seria pior — o vi esboçar um sorriso triste — achei que você sairia por aquela porta e nunca mais olharia na minha cara.
— Mesmo com o risco de que eu divulgasse tudo? — perguntei, olhando para ele — a missão da sua vida?
— Tudo isso perdeu a razão quando vi você naquela noite. Eu nunca tinha sentido nada parecido por alguém e quando beijei você... — aí ele abriu um sorriso, bonito... perfeito — soube que tinha que ser minha.
— Eu preciso de água — minha cabeça girava e eu não me sentia bem. Tudo estava ficando escuro e...
— Lizzie! — ploft! — d***a! — o som do meu corpo já batendo no chão e a voz de Nathan foram as últimas coisas que escutei antes de apagar.