Capítulo 14 - Padre Daniel

2384 Palavras
" A noite se infiltrou em meu terrível cansaço.  Tanto lutei para não fechar meus olhos.  Mas nada foi o suficiente.  No fundo, no fundo todos nós estamos condenados.  Basta só o tempo ir ditando.  E nos guiando para onde quer que vaiamos.  Não adianta lutar contra as trevas.  Porque um dia elas nos consomem a tal ponto.  Que nenhuma luz mais é capaz de absorver. " . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  06 de Janeiro de 1986. - Padre, eu vim me confessar. - disse uma jovem mulher que raras vezes vinha à missa.        - Deus está lhe ouvindo, minha cara.  15 de Janeiro de 1986.  - Padre, eu pequei. - disse um menino que vivia v******o aos arredores da igreja.  - Deus está lhe ouvindo, rapaz.  04 de Agosto de 1990.   - Padre...   Depois disso eu nunca mais vi ou ouvi nenhum dos três. Até quando em novembro de 1994, recebemos Megan Smith. Inconsciente, convulsionando e falando em vocês. Quando eu ouvi o nome Dalila, eu entendi tudo. Ela estava presa.    Enquanto a menina dormia, em seu profundo sono, eu me sentei ao seu lado, sussurrando em seu ouvido:   - Dalila, é o Padre Daniel. Você se lembra de mim?    Não imediatamente, mas aos poucos, eu senti a sua presença no quarto.    - Sim, dos domingos chatos.    - Sua mãe costumava traze-la sempre para as missas.   - Minha mãe está morta.   - Assim como você. Por que está tão presa à esta garotinha?   - Por que ela e eu temos uma conexão.    Ela sabia no fim das contas.    Eu passei longas tarde conversando com ela, tentando a convencer a se desprender de Megan, mas nada a persuadia, porém, um belo dia, Megan acordou e nenhum traço de Dalila se podia sentir. Era como se ela tivesse decidido a libertar, mas eu sabia no fundo de meu coração que não havia sido deste jeito.    Passei uma semana tentando entender o que poderia ter acontecido, ou o que a fez recuar, mas a pequena Megan simplesmente não sabia de nada.    - Qual o meu nome? - perguntou a pequena, inocentemente. Eu olhei para Mary, com medo de suas memórias voltarem como um peso em suas costas e nós concordamos, apenas com um olhar, de que o melhor seria mentir.   - Seu nome é Esmeralda, pequena.   - Ah. - disse, parecendo surpresa.   - Por que eu tenho que ficar aqui? Onde está a minha família?   - Eles estão viajando. - disse Mary.    Nós sabíamos que mentir era um pecado do qual nós preferimos assumir à ter de lhe contar a verdade e lhe permitir ser exposta à Dalila novamente. Eu sabia, no fundo de meu coração que aquilo estava errado. Mas não havia nada mais que se pudesse ser feito.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        Quando eu consegui uma família solidária que se propôs a adotar Megan, as semanas que se seguiram em sua ausência foram catastróficas. Era como se Dalila estivesse dormente e finalmente tivesse despertado, mas sua ira era tanta que ela conseguia facilmente destruiu muitos itens valiosos de dentro da igreja. Nem benções e orações funcionaram com eficácia para expulsá-la, ela sempre voltava, cada vez mais enfurecida.  Eu não conseguia ver sua manifestação corporal, mas seu espírito atordoado batia nas paredes, derruba prateleiras e quebrava com facilidade algumas lamparinas à gás, nos deixando, às vezes, no completo escuro. Ela nos culpava por ter perdido a pobre Megan de vista. Ela estava obcecada com aquilo.   Depois de um mês, tudo se acalmou.   Eu sentei em meu quarto e soltei um longo suspiro quando se completava cinco dias sem nenhuma manifestação espiritual da parte da menina. Mary tirou uns dias para visitar o convento de onde veio e me deixou descansar um pouco mais. Eu sentia como se tivesse envelhecido uns vinte anos, apenas em poucos dias. Meu coração ainda se inquietava, já que eu sentia que a culpa era minha. Eu sabia de tudo que estava acontecendo, mas permanecia em silêncio. Aquele silêncio que me atormentava e me tirava o sono à noite. Eu só lhes dei simples repreensões e rezas repetitivas, no intuito de que ficaria tudo bem, mas não ficou. Nada ficou. Se Dalila soubesse que eu sabia, com certeza eu entraria em sua lista sombria de acerto de contas. Afinal, ela era apenas uma menina. Uma criança inocente. E eu deixei tudo acontecer. Será que Deus me perdoaria?  Eu duvidava. Já que nem mesmo eu conseguia perdoar a mim mesmo.   Morrer seria, simplesmente, fácil demais. Mas eu persisti.    Até que... Dalila voltou para me visitar.    Nas costas de Esmeralda Santiago.    Seu sorriso macabro de quem havia ganhado um pote de ouro, era assustador. Ela tinha seus braços franzinos e esbranquiçados ao redor do pescoço da menina, que tranquilamente, sem saber de nada, andava curiosa. Dalila tinha seus pés apoiados nas costas da menina e eu simplesmente não aguentei ver aquilo tudo. Era perturbador.    Eu observei enquanto eles adentravam a igreja. Um grupo de três adolescentes. Não tinha como não notar. Aquilo era inevitável, o reencontro eu quero dizer. Eu me sentei no banco da primeira fileira e fechei meus olhos para meditar. Eu precisava parecer calmo diante daquela situação. Eu não a queria assustar. Talvez ela não soubesse de nada ainda.   - Oh, se não é a irmã Mary. - disse ela ao se aproximar. Ela parecia ao menos se lembrar de nós.  Mary sorriu.  - Você demorou bastante para voltar.   - Me desculpe.    - Eu acho que você não devia cobrar tanto da menina. Afinal, ela viveu uma vida sem memórias. - disse ao me levantar. Quando vi que a menina parecia envergonhada, eu entendi que as memórias perdida já haviam retornado. - Olá, Megan. Como têm passado?    - Estou bem, mas...    - Sim, eu sei. Não é mais a Megan que eu conheci. Agora se chama Santiago, não é mesmo? Esmeralda Santiago.   - Sim, isto está certo.   - E vejo que fez alguns bons amigos também.   A menina sorriu, mas parecia impaciente. Eu observava alguns detalhes que não pude deixar de notar. Olheiras fundas. Roupas amassadas. Olhar ansioso que rondava todo o lugar em si. Eles estavam nervosos. E o fato de terem como acompanhante Dalila, me deixava ainda mais desconfortável.    - Vocês jovens têm festejado de mais, vejo eu. - desconversei ao notar que Megan me observava, ansiosa.    - Antes fossem festas, padre. - disse o menino mais alto, arregalando seus olhos.    - O que faz aqui afinal, Esmeralda? - perguntou Mary, impaciente. - Depois de todo este tempo não acho que tenha vindo m***r saudade. O que está escurecendo os seus olhos?    A menina mudou o peso de seus pés e sorriu nervosamente antes de pronunciar a frase que me apunhalou o coração.    - O nome Dalila diz algo à vocês?   Eu não pude deixar de arregalar os meus olhos e acabei cambaleando uns dois passos para trás antes de colocar a mão sobre o meu peito que se apertava e me desequilibrar, caindo de traseiro no chão.    - Padre?! O que há de errado.    Todos se movimentaram ao meu redor, tentando me ajudar, mas Mary deu um gritinho baixo para que todos se afastassem e me deixassem respirar.   - Eu... não ouvia este nome há muito... muito tempo. - disse num suspiro. Antes de fechar meus olhos... eu a vi sussurrando.   - Nos vemos em breve, Padre.    Ela viria me buscar também.  - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -   - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -  - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 
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