O tempo passou quase sem Gabriella perceber.
A TV ligada na sala já nem chamava mais sua atenção. As imagens passavam, as vozes se misturavam, mas a mente dela estava longe demais para acompanhar qualquer trama que estivesse sendo exibida. Sentada no sofá grande demais para alguém que agora se sentia tão pequena, ela se mantinha encolhida, abraçando uma almofada contra o corpo, como se aquilo fosse algum tipo de proteção.
Magno estava sentado do outro lado da sala. Não tão perto, não tão longe. Presença constante. Sólida. Silenciosa.
Ele mexia no celular de vez em quando, assistia à TV sem muito interesse, trocava poucas palavras com alguém da casa quando era necessário. Estava relaxado, confortável no próprio espaço. Camisa de algodão clara, mangas dobradas até o antebraço, revelando aqueles braços que Gabriella insistia em notar mais do que deveria.
Ela tentou não olhar. Tentou mesmo.
Mas era impossível.
Os braços dele descansavam abertos sobre o sofá, as mãos grandes, veias discretamente saltadas quando ele se movia. O jeito como cruzava os tornozelos, como apoiava o cotovelo, como respirava com calma… tudo nela parecia hiperatento àquele homem.
E isso a incomodava.
Muito.
Desde o jantar, aquela sensação estranha não tinha ido embora. Pelo contrário — tinha se intensificado.
A imagem da chef loira voltava à mente de Gabriella como um incômodo persistente. O sorriso fácil demais, o jeito como se inclinava ao falar com Magno, o toque que parecia sempre acontecer “sem querer”. O olhar que demorava além do necessário.
Ela não tinha dito nada. Não tinha reagido. Não tinha feito absolutamente nada além de observar… e sentir.
Sentia um aperto estranho no peito.
Ciúmes?
Não.
Claro que não.
Ela não tinha direito algum a isso.
Ainda assim, o pensamento insistia: ela quer ele.
E mais incômodo ainda era perceber o quanto aquilo a afetava.
Gabriella mudou de posição no sofá, respirou fundo, tentou focar na televisão outra vez. Nada adiantava. Seu corpo parecia inquieto, a mente cheia demais. Havia um cansaço físico — ainda se recuperando do hospital — mas o sono simplesmente não vinha.
Quando percebeu que já estava ficando tarde e que continuar ali só a deixaria mais confusa, decidiu subir.
— Vou deitar — disse, quebrando o silêncio.
Magno desviou o olhar do celular e olhou para ela imediatamente, atento como sempre.
— Quer que eu chame alguém? Quer alguma coisa antes?
Ela balançou a cabeça, forçando um sorriso pequeno.
— Não… só estou cansada.
Ele assentiu.
— Qualquer coisa, me chama. Mesmo de madrugada.
Aquela frase simples atravessou Gabriella de um jeito estranho. Ela assentiu de novo, levantando-se devagar do sofá.
Subir a escada pareceu mais longo do que o normal.
O corredor do andar de cima estava em penumbra, iluminado apenas por algumas luzes indiretas nas paredes. A mansão, que durante o dia parecia viva, agora parecia maior, mais silenciosa… quase solene.
O quarto de Gabriella ficava mais para o meio do corredor. O de Magno, no final.
Ela entrou no próprio quarto, fechou a porta com cuidado e se encostou nela por alguns segundos, respirando fundo.
O quarto era lindo. Amplo, confortável, organizado com um cuidado que claramente não tinha sido feito por ela. Alguém pensou naquele espaço para acolhê-la. Alguém quis que ela se sentisse segura ali.
E ainda assim… ela não se sentia em paz.
Gabriella trocou de roupa lentamente, vestindo um pijama simples. Deitou-se na cama grande demais para uma pessoa só e apagou a luz. O teto escuro a encarava enquanto seus pensamentos voltavam a correr soltos.
A chef.
Magno.
O jantar.
O jeito como ele mastigava com calma, como segurava os talheres com firmeza, como apoiava o antebraço na mesa. As mãos. Sempre as mãos.
Ela fechou os olhos com força.
Você está confundindo tudo, tentou dizer a si mesma.
Era luto. Trauma. Mudança brusca demais. Dependência emocional. Precisava ser isso.
Mas o corpo não concordava.
Havia um calor estranho, baixo, silencioso, que surgia sempre que ela pensava nele não como padrinho… mas como homem. Um desejo que ela não sabia nomear direito, que não entendia, mas que existia.
E isso a assustava.
Muito.
Depois de um tempo indeterminado — minutos ou horas — o cansaço finalmente venceu. O corpo relaxou aos poucos, a respiração ficou mais lenta, e o sono veio, pesado, confuso, cheio de imagens soltas.
Até que…
Toc. Toc.
O som não era altíssimo. Mas no silêncio absoluto da madrugada, pareceu ecoar pelo quarto inteiro.
Gabriella abriu os olhos de imediato.
O coração acelerou no mesmo instante.
Ela ficou parada por alguns segundos, tentando entender se tinha sido sonho. Prendeu a respiração, ouvindo.
Silêncio.
Talvez tivesse imaginado.
Virou de lado, puxou o cobertor um pouco mais para cima… quando ouviu de novo.
Toc. Toc.
Dessa vez, mais nítido. Mais real.
Ela sentou-se na cama, sentindo o coração bater forte demais para alguém que ainda estava se recuperando fisicamente. O quarto estava completamente escuro. Apenas um fio de luz do corredor entrava pela fresta da porta.
— Alô? — chamou, baixinho, sem abrir a porta.
Nenhuma resposta.
O silêncio voltou, pesado, estranho.
Gabriella engoliu em seco. A mansão parecia diferente à noite. Sons ganhavam outro peso. Sombras pareciam maiores. O corredor parecia longo demais.
Mesmo assim, ela se levantou.
Abriu a porta com cuidado, deixando-a apenas entreaberta, e colocou a cabeça para fora. O corredor estava vazio. As luzes continuavam baixas, criando aquele clima quase irreal.
Ela deu um passo para fora do quarto.
Outro.
O chão frio sob os pés descalços a deixou mais desperta. O som vinha de algum lugar… mas não do próprio quarto.
Ela caminhou devagar, com cautela, seguindo a intuição. Cada passo parecia ecoar alto demais em seus ouvidos.
Foi então que percebeu.
O barulho vinha do final do corredor.
Do quarto de Magno.
O coração de Gabriella acelerou ainda mais. Um misto de receio e curiosidade tomou conta dela. Por um segundo, pensou em voltar. Dizer a si mesma que não era da sua conta. Que não tinha direito nenhum de estar ali.
Mas o corpo não obedeceu.
Ela continuou andando.
À medida que se aproximava, o som ficava mais claro. Eram batidas. Não eram passos.
E então ela ouviu.
Um gemido.
Baixo. Arrastado. Feminino.
Gabriella parou bruscamente.
O ar pareceu faltar nos pulmões.
Ela ficou ali, parada no meio do corredor, sentindo o coração martelar no peito. O som vinha de trás da porta de Magno. Não havia dúvida agora.
Outro gemido.
Mais abafado. Mais íntimo.
Ela se aproximou mais um pouco, quase sem perceber que estava se movendo. Parou a poucos passos da porta. Não encostou nela. Não precisava.
O som atravessava a madeira.
Uma mulher.
No quarto dele.
Naquela casa.
Naquela madrugada.
O estômago de Gabriella revirou. Um misto confuso de choque, curiosidade, frustração e algo que doeu mais do que ela esperava.
Ela ficou ali, imóvel, ouvindo… sem coragem de bater, sem coragem de sair, sem saber exatamente o que estava sentindo.
E foi ali, naquele corredor silencioso, com a mão trêmula ao lado do corpo e o coração acelerado, que Gabriella percebeu que nada dentro dela estava mais sob controle.
E que, a partir daquele momento, nada seria simples outra vez.