À MESA

1081 Palavras
Gabriella demorou mais do que o necessário para descer. Não porque estivesse cansada — o corpo já começava a responder melhor, os movimentos menos lentos —, mas porque algo dentro dela estava inquieto demais para simplesmente atravessar aquela escada como se fosse apenas mais uma noite comum. Ela tinha acabado de sair do banho. Vestia um vestido simples, leve, que abraçava o corpo sem intenção aparente. Os cabelos ainda um pouco úmid0s caíam soltos pelos ombros. No espelho, ela se observou por alguns segundos a mais do que o habitual, como se tentasse reconhecer a própria imagem. Não era vaidade. Era estranhamento. Havia algo diferente nela. Um brilho inquieto no olhar, um calor que não vinha do banho. Uma consciência nova do próprio corpo, da própria presença. Respirou fundo. Desceu. A casa estava viva de um jeito que ela ainda não tinha visto. Havia vozes na cozinha, passos discretos pelo corredor, o som metálico suave de talheres sendo organizados. O cheiro da comida se espalhava pelo ambiente — algo sofisticado, quente, envolvente. Quando entrou na sala de jantar, Gabriella parou por um instante. A mesa era grande, impecavelmente posta. As luzes indiretas deixavam o ambiente aconchegante, quase íntimo demais para uma casa tão grande. Duas funcionárias se moviam em silêncio, ajustando detalhes, colocando taças, alinhando pratos. E então ela viu. A chef. Era impossível não notar. Alta, loira, corpo desenhado com precisão demais para alguém que passava o dia inteiro numa cozinha. Usava o uniforme branco aberto um pouco mais do que o necessário, mangas dobradas, colo à mostra sem qualquer pudor. O cabelo preso de forma relaxada, alguns fios soltos emoldurando o rosto bonito demais para ser ignorado. Gabriella sentiu algo estranho no estômago. Não era exatamente inveja. Nem antipatia. Era… atenção. — Boa noite, Gabriella — disse a mulher, com um sorriso aberto, avaliador demais. — Sou a Helena, a chef da casa. — Boa noite — respondeu, educada, mas observando cada detalhe. Helena sustentou o olhar por um segundo a mais do que o normal. Depois sorriu de novo e voltou-se para o fogão, com um balanço de quadril que parecia quase calculado. Gabriella engoliu em seco. Ela mora aqui? Ou só trabalha aqui? A resposta veio sem que ela perguntasse. — A Helena fica aqui quase todos os dias — explicou uma das funcionárias, como se fosse a coisa mais normal do mundo. — O doutor Magno gosta de jantar cedo. O doutor Magno. O nome dele soou diferente nos ouvidos de Gabriella. Magno apareceu segundos depois, vindo do corredor. Vestia uma camisa escura, mangas dobradas até o antebraço, revelando braços fortes, veias discretamente saltadas sob a pele. A calça social marcava a postura firme, segura. Ele parou ao vê-la. — Como você tá? — perguntou, com aquele tom baixo que sempre a fazia prestar mais atenção do que deveria. — Bem — respondeu. — Melhor. — Ótimo. — sorriu de leve. — Senta. Você precisa se alimentar direito. Ele puxou a cadeira para ela. O gesto era simples. Cuidadoso. Familiar. Mas o toque rápido da mão dele no encosto da cadeira fez algo percorrer a espinha dela. Sentaram-se. Helena trouxe o primeiro prato pessoalmente. Inclinou-se levemente ao colocar a louça à frente de Magno, perto demais. O perfume dela se espalhou no ar. — Fiz do jeito que você gosta — disse, num tom quase íntimo. — Se quiser repetir, é só falar. Gabriella observava tudo em silêncio. O sorriso discreto de Magno. O jeito como ele agradeceu, educado, distante. Mas Helena não parecia satisfeita com distância. — Você cortou o cabelo — comentou ela, inclinando-se mais um pouco. — Ficou ainda melhor assim. Magno apenas assentiu. — Obrigado. Gabriella apertou levemente os dedos sobre o colo. Ela não sabia por quê… mas aquilo incomodou. O jantar começou. E Gabriella percebeu que não estava com tanta fome quanto imaginava. Porque tudo nela estava concentrado em outra coisa. Em alguém. Ela observava Magno sem perceber. O jeito como ele segurava os talheres, firme, preciso. As mãos grandes envolvendo o garfo com naturalidade. Os antebraços tensionando levemente a cada movimento. O jeito como ele mastigava devagar, atento, sem pressa. Como bebia um gole de vinho com tranquilidade, como se estivesse sempre no controle até dos gestos mais simples. Ela desviava o olhar às vezes, assustada consigo mesma. Para com isso, pensava. Mas segundos depois, voltava a olhar. Havia algo hipnotizante nele agora que ela não conseguia mais ignorar. Talvez porque, pela primeira vez, ela não o via apenas como padrinho. Via como homem. Helena surgia o tempo todo. Perguntava se estava bom, se queria mais, se precisava de algo. Sempre olhando para Magno. Sempre se aproximando demais. — Gabriella, você quase não comeu — comentou Magno, notando o prato ainda cheio. — Eu… já vou — respondeu, sem convicção. Ela não queria comer. Queria observar. E odiava perceber isso. — A recuperação exige energia — continuou ele. — Não pode pular refeições. — Eu sei — disse, abaixando o olhar. Helena voltou com a sobremesa. Colocou o prato primeiro na frente de Magno. — Essa é especial — disse, sorrindo. — Fiz pensando em você. O silêncio que se seguiu foi estranho. Magno agradeceu novamente, educado, mas sem corresponder ao tom. Gabriella sentiu algo se formar no peito. Uma pontada pequena. Irracional. Ela não disse nada. Não tinha direito algum de dizer. Mas pensou. Pensou em como Helena se movia à vontade naquela casa. Em como parecia conhecer Magno intimamente. Em como o corpo dela se inclinava sempre em direção a ele. Pensou em como ele já tinha uma vida ali… antes dela. Ele não é meu, lembrou a si mesma. E ainda assim, o incômodo crescia. Quando o jantar terminou, Magno se levantou. — Vou para o escritório resolver algumas coisas — avisou. — Se ficar cansada, sobe e descansa. — Tá — respondeu ela. Helena acompanhou-o até a porta da sala. — Se precisar de algo mais tarde… — disse, com um sorriso carregado de intenção. — Eu fico acordada. Magno assentiu, educado como sempre, e saiu. Gabriella ficou sentada por alguns segundos, sentindo o silêncio voltar a ocupar o espaço. O desejo ainda estava ali. Quieto. Guardado. Mas cada vez mais consciente. Ela subiu para o quarto com a mente cheia demais para uma noite tranquila. E, sem saber ainda, começava a entender que aquele desejo secreto não era passageiro. Era o começo de algo que ela ainda não tinha coragem de nomear.
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