LIMITES CRUZADOS

926 Palavras
Aquela noite passou como se tivesse sido emprestada de outra vida. Nada aconteceu. Nenhuma porta aberta fora de hora. Nenhum encontro inesperado nos corredores. Nenhuma frase m*l colocada. Gabriella dormiu. Magno também. E justamente por isso, o silêncio da madrugada pesou mais do que qualquer acontecimento. Ela acordou cedo no dia seguinte, o corpo descansado, a mente inquieta. O sol ainda nascia por trás das montanhas quando ela abriu os olhos, sentindo o lençol fresco contra a pele e uma estranha sensação de controle. Não ansiedade. Não culpa. Antecipação. Levantou-se sem pressa, tomou banho, escolheu a roupa com um cuidado que já não era apenas estético — era estratégico. Nada chamativo demais. Nada tímido demais. Um vestido ajustado na medida certa, tecido leve, comprimento elegante. Sapatos confortáveis, mas femininos. Cabelo solto dessa vez. Ela queria ser vista. Mas queria parecer que não tentava. Na cozinha, encontrou Magno lendo algo no tablet enquanto tomava café. Ele estava impecável, como sempre. Camisa clara, blazer escuro, relógio no pulso. O mesmo homem de sempre… e, ainda assim, outro. — Bom dia — ela disse. — Bom dia — ele respondeu, erguendo os olhos por um instante. O olhar demorou um segundo a mais do que devia. Nada que qualquer pessoa perceberia. Mas Gabriella percebeu. Sentou-se à mesa, pegou uma xícara, mexeu o café lentamente. — Dormiu bem? — ele perguntou. — Dormi — respondeu. — E você? Magno assentiu. — Também. Mentira educada. Os dois sabiam. No caminho até a empresa, o clima foi semelhante ao do dia anterior, mas mais carregado. Não havia estranheza — havia consciência. Cada movimento era medido, cada silêncio tinha peso. Ao chegarem, a rotina engoliu os dois. Reuniões, corredores, cumprimentos, decisões. Gabriella começava a entender a dimensão do império que um dia seria seu. E, mais do que isso, entendia o lugar que Magno ocupava ali: absoluto. Ela o observava enquanto ele falava com diretores, enquanto assinava documentos, enquanto dava ordens curtas e precisas. Não havia hesitação nele. Não havia brechas. Exceto quando estava com ela. No meio da manhã, Magno a chamou. — Vem comigo. Quero te mostrar uma coisa. Eles seguiram para a sala dele. Era ampla, moderna, paredes de vidro com persianas automatizadas, uma mesa grande de madeira escura, duas telas enormes no computador. A vista da cidade se estendia ao fundo como um quadro vivo. — Senta aqui — ele disse, puxando uma cadeira e posicionando ao lado da dele, bem próxima ao computador. Gabriella se aproximou, olhou a tela. — Daqui não dá pra ver direito — comentou, inclinando-se um pouco. — Dá sim — ele respondeu, ajustando algo no monitor. Ela tentou mais uma vez, fingindo dificuldade. — Magno… sério. Eu não tô conseguindo enxergar. Ele suspirou, paciente. — Então puxa a cadeira um pouco mais pra frente. Ela sorriu de canto. — Não vai adiantar. Antes que ele pudesse reagir, Gabriella fez o movimento. Simples. Rápido. Calculado. Sentou-se no colo dele. Não foi brusco. Não foi exagerado. Foi como se fosse a coisa mais natural do mundo. Como se estivesse apenas tentando aprender. Como se não houvesse nada de errado em estar ali. O corpo dela encaixou no dele com uma precisão perigosa. Magno congelou. O primeiro contato foi suficiente para bagunçar tudo. O peso dela. O calor. O perfume. Gabriella apoiou uma das mãos na mesa, a outra no braço da cadeira, inclinando-se levemente para frente, como quem realmente tentava ver a tela. O quadril dela se moveu um pouco — só o suficiente para se ajustar. Roçou. Ela sentiu. Ele sentiu. — Assim eu consigo — ela disse, inocente demais. O corpo de Magno reagiu antes da mente. A respiração mudou. Os músculos se tensionaram. O sangue respondeu. Ele não a afastou de imediato. Por alguns segundos — poucos, mas intensos — ele apenas ficou ali, sentindo. A proximidade. O peso dela contra ele. A linha invisível sendo atravessada com naturalidade absurda. Era errado. Ele sabia. Mas o corpo não discutia com a razão. Gabriella permaneceu ali, fingindo concentração, completamente consciente do efeito que causava. Não se mexia demais. Não precisava. O simples fato de estar ali já era provocação suficiente. — Tô vendo agora — ela perguntou, virando levemente o rosto na direção dele. Os rostos ficaram perigosamente próximos. Magno engoliu em seco. — Tá — respondeu, a voz mais grave. Ele fechou os olhos por um instante. Foi o suficiente. Afastou-a com cuidado, firme, colocando-a de pé. — Gabriella — disse, levantando-se logo em seguida. — Isso… não foi apropriado. Ela piscou, surpresa ensaiada. — Ah… desculpa. Eu só queria ver melhor. Não pensei… Ele não respondeu. Pegou o paletó com rapidez, ajeitou-se, evitando olhar diretamente para ela. — Preciso resolver uma coisa urgente agora — disse. — Fica aqui. Continua vendo esses relatórios. Daqui a pouco eu volto. Ele saiu rápido demais. Apresado demais. Gabriella ficou parada por um segundo, observando a porta se fechar. Então viu. O volum3 evidente na calça dele. A rigid3z contida. O jeito como ele saiu quase fugindo. Um sorriso lento surgiu nos lábios dela. Funcionou. Sem pensar duas vezes, Gabriella saiu da sala minutos depois. Andou pelos corredores com calma, mantendo distância, até vê-lo dobrar o corredor que levava às salas da diretoria. Ele entrou na sala de Bruna. A ruiva. Sócia. Confiante. Sempre próxima demais. Magno fechou a porta. Depois, fechou as persianas. O coração de Gabriella acelerou — não de surpresa, mas de reconhecimento. Aquela sensação ela já conhecia. Ela voltou rapidamente para a sala dele. Fechou a porta. Sentou-se na cadeira dele.
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