DEPOIS DAQUELA NOITE

1231 Palavras
O dia amanheceu claro demais para uma noite como aquela. A luz invadiu o quarto de Gabriella antes mesmo que o despertador tocasse, atravessando as cortinas de linho bege e desenhando faixas douradas sobre o tapete claro. Por alguns segundos, ela permaneceu imóvel, deitada de lado, encarando o vazio à sua frente, o corpo ainda pesado de sono… e de lembranças. Ela piscou devagar. A imagem veio inteira, cruelmente nítida. Magno na sala. O silêncio da mansão. A tensão densa no ar. Seu estômago se contraiu — não de culpa, mas de uma excitaçã0 contida, perigosa, que ela já reconhecia bem demais. Gabriella fechou os olhos por um instante, respirou fundo e se obrigou a voltar ao presente. Era manhã. Um novo dia. E nada — absolutamente nada — havia sido dito. Ela se levantou com calma, como se não tivesse atravessado um limite invisível na noite anterior. Caminhou até o banheiro, tomou um banho longo, deixou a água quente escorrer pelas costas, como se pudesse lavar qualquer vestígio de nervosismo. Mas não havia arrependimento ali. Apenas… estratégia. Ela não era mais a mesma garota assustada que chegara à mansão semanas antes. Vestiu-se com cuidado. Nada vulgar. Nada óbvio. Escolheu uma calça de alfaiataria clara, cintura alta, que marcava bem o quadril sem esforço, e uma blusa de seda bege, de mangas longas, com decote discreto demais para ser inocente. Prendeu os cabelos em um r**o de cavalo baixo, deixando alguns fios soltos emoldurando o rosto. Perfume suave. Maquiagem mínima. Ela queria parecer normal. E, ao mesmo tempo, impossível de ignorar. Quando desceu as escadas, o som de passos ecoou pela casa silenciosa. A mansão acordava devagar. O cheiro de café recém-passado vinha da cozinha, misturado ao aroma de pão aquecido. Magno já estava acordado. Ela percebeu antes mesmo de vê-lo. Havia algo no ar — uma tensão contida, uma energia diferente — como se o espaço reagisse à presença dele. Ele estava de pé, de costas, encostado na bancada de mármore da cozinha, vestindo uma camisa social azul-escura com as mangas dobradas até o antebraço. Os ombros largos estavam tensos demais para alguém que só tomava café da manhã. Quando ouviu os passos, ele se virou. O olhar encontrou o dela. E, por uma fração de segundo — curta demais para qualquer outra pessoa perceber — algo vacilou. Não foi culpa. Não foi desejo explícito. Foi reconhecimento. Gabriella sentiu isso como um arrepio interno. — Bom dia — ela disse, primeiro. A voz firme. Natural. Magno demorou um segundo a mais do que o normal para responder. — Bom dia — devolveu, num tom controlado demais. Silêncio. Eles ficaram ali, frente a frente, separados por poucos passos e por um abismo inteiro de coisas não ditas. O relógio na parede marcou os segundos com um tique-taque quase irritante. Gabriella foi até a cafeteira, como se tudo estivesse exatamente no lugar. Pegou uma xícara, serviu-se, apoiou o quadril na bancada ao lado da dele — perto demais para ser coincidência, longe demais para ser confronto. — Dormiu bem? — perguntou, casual. Era uma pergunta simples. Mas carregada. Magno sentiu o golpe. Claro que sentiu. — Dormi — respondeu, após um breve pigarro. — E você? Ela levou a xícara aos lábios, deu um gole lento, deliberado, antes de responder. — Melhor do que eu esperava. Nada mais. Mas foi o suficiente. Ele desviou o olhar por um instante, cerrando o maxilar. O controle dele não estava nos gestos grandes — estava justamente em não reagir. — Temos um dia cheio — disse ele, mudando o foco. — Quero te mostrar algumas áreas da empresa que não vimos ontem. — Claro — Gabriella sorriu de leve. — Estou ansiosa. E ela estava. Mas não pelo trabalho. O trajeto até a empresa foi silencioso demais para ser confortável. Magno dirigia com as duas mãos firmes no volante, postura impecável, olhos atentos à estrada. Gabriella observava tudo de lado: o perfil sério, a linha do maxilar, a forma como ele respirava mais fundo do que o normal. Ela cruzou as pernas devagar. Não por necessidade. Por intenção. — Você parece tenso hoje — comentou, num tom quase inocente. — Assuntos demais na cabeça — ele respondeu. — Imagino. Ela apoiou o cotovelo no apoio da porta, inclinando-se levemente na direção dele. — Mas você sempre dá conta, não dá? Ele não respondeu de imediato. — Tento — disse por fim. Gabriella sorriu para o vidro, satisfeita. Ela não precisava pressionar. Precisava apenas existir perto dele. Na empresa, o clima mudou — mas não aliviou. Magno era outro ali. Seguro. Dominante. Dono do espaço. Funcionários o cumprimentavam com respeito, alguns com certo receio. Gabriella caminhava ao lado dele, observando tudo com atenção genuína… e uma curiosidade nova. Ela gostava daquele Magno. O homem que mandava. Que decidia. Que era obedecido. — Essa ala é administrativa — ele explicou, apontando enquanto caminhavam. — Aqui você vai passar bastante tempo comigo. Ela ergueu uma sobrancelha, divertida. — Com você? — Comigo — confirmou. — Quero que aprenda tudo de perto. Ela assentiu, os olhos brilhando. — Fico honrada. Durante a manhã, Gabriella foi apresentada a setores, pessoas, rotinas. Em cada sala, Magno mantinha uma distância segura — profissional demais para quem, horas antes, carregava um peso invisível no olhar. Mas havia falhas. Pequenas. Um toque rápido demais ao guiá-la por um corredor. Um olhar que se prolongava um segundo além do necessário. Uma pausa no meio da frase quando ela se inclinava sobre a mesa para observar um documento. Ela percebia tudo. E usava. Ao se aproximar dele para ver algo na tela do computador, deixava o braço roçar no dele. Ao perguntar algo, falava mais baixo do que precisava. Ao ouvir, inclinava o rosto, como quem confia. Nada explícito. Tudo calculado. Magno sentia. E lutava. No fim da tarde, quando finalmente saíram da última reunião, ele parecia exausto — não pelo trabalho, mas pelo esforço constante de se manter inteiro. — Você se saiu muito bem hoje — disse ele, enquanto caminhavam em direção ao elevador. — Mérito do professor — ela respondeu, com um sorriso tranquilo. As portas se fecharam. O elevador desceu em silêncio. Por alguns segundos, eles ficaram sozinhos naquele espaço estreito, próximos demais, o ar denso demais. Gabriella quebrou o silêncio. — Magno? — Sim? Ela ergueu o olhar devagar. — Obrigada… por tudo. Ele a encarou. — Não precisa agradecer. — Precisa sim — ela insistiu. — Nem todo mundo faria o que você fez por mim. Ele respirou fundo. — Eu prometi aos seus pais. — E a você mesmo? — ela perguntou, suave. O elevador parou. As portas se abriram. O momento se quebrou — mas não desapareceu. No caminho de volta para casa, Gabriella apoiou a mão no console entre os bancos, os dedos a poucos centímetros da perna dele. Não tocou. Ainda não. Magno percebeu. O corpo reagiu. A mente resistiu. Ela observava tudo em silêncio, satisfeita. Ela não queria pressa. Queria controle. E, naquela noite, enquanto a mansão voltava a se encher de silêncio, Gabriella subiu para o quarto com um pensamento claro, firme, quase perigoso: Ela não precisava seduzir Magno. Ela só precisava deixar que ele percebesse que já estava perdido. E Magno, sozinho em seu escritório, encarando documentos que não lia, sabia de uma coisa com absoluta certeza: Aquele jogo não tinha mais volta.
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