VIDRO E SILÊNCIO

703 Palavras
O coração de Gabriella quase saiu pela boca. O som que vinha de dentro da sala cessou de repente, e foi isso que a fez despertar do transe. O mundo pareceu voltar de uma vez só: o ar-condicionado gelado do corredor, o salto distante de alguém passando, o peso absurdo do que ela tinha acabado de ver. Ela recuou um passo. Depois outro. O vidro refletia parte do rosto dela — pálido demais, olhos arregalados, respiração curta. Por um segundo inteiro, teve certeza de que Magno tinha visto. Que ele tinha percebido a presença dela ali, imóvel, escondida, testemunha muda de algo que nunca deveria ter presenciado. O medo veio antes da vergonha. Gabriella se virou rápido, o coração batendo tão forte que parecia ecoar pelo corredor inteiro. Andou depressa, depois mais devagar, tentando controlar a respiração, tentando parecer… normal. Não pensa. Não pensa. Não pensa. Entrou novamente na área comum, onde os executivos conversavam em pequenos grupos, rindo, comentando números, projetos, metas. Tudo parecia absurdamente normal demais para alguém que sentia o mundo inteiro girar por dentro. Ela parou perto de uma mesa alta, fingiu observar um quadro na parede, fingiu ler algo no celular que nem estava ali. As mãos tremiam levemente, e ela precisou cruzar os braços para disfarçar. Ele viu? Não… não viu. Viu sim. Ele virou. A imagem insistia em voltar, mesmo quando ela tentava empurrar para longe. Magno ajeitando a roupa. O silêncio repentino. O jeito como ele se virou. Gabriella engoliu em seco. Sentia algo estranho se misturar dentro dela: medo, excitação m*l resolvida, confusão, e uma pontada de algo que se parecia perigosamente com ciúme — embora ela se recusasse a admitir isso nem para si mesma. Ela não tinha direito nenhum. Não era nada dela. Nunca foi. Minutos se passaram. Ou talvez segundos. O tempo parecia ter perdido o sentido. Até que Magno reapareceu. Como se nada tivesse acontecido. Caminhava pelo corredor com a mesma postura de sempre, paletó alinhado, expressão neutra, controle absoluto estampado no rosto. Parou perto do grupo, cumprimentou duas pessoas, fez um comentário casual sobre uma reunião. E então olhou para Gabriella. — Estava te procurando — disse, com naturalidade. Ela quase não conseguiu responder. — Eu… eu fiquei por aqui — disse, forçando a voz a sair firme. — Tava olhando tudo. — Ótimo — respondeu ele. — Vamos continuar o tour. Nenhum sinal. Nenhuma hesitação. Nenhuma culpa aparente. Se ele tinha visto… não demonstrava. Ela pensou... Enquanto caminhavam juntos pelos corredores, Magno explicava cada setor, cada departamento, como se estivesse dando uma aula. Falava de números, de estratégias, de pessoas-chave. Às vezes colocava a mão nas costas dela para guiá-la — um toque breve, quase profissional. Mas agora, para Gabriella, tudo era diferente. Cada gesto dele parecia carregado de significado. Cada palavra parecia dupla. Ela se perguntava como ele conseguia ser assim. Como conseguia separar tudo com tanta facilidade. Como podia ter passado da i********e escondida para a postura impecável em questão de minutos. Ele é assim com todas? É assim que funciona no mundo dele? Quando passaram novamente perto da sala de vidro, Gabriella sentiu o estômago revirar. As persianas estavam agora completamente abertas. Nada ali denunciava o que havia acontecido. Era como se o espaço tivesse sido apagado. — Aqui é onde passo a maior parte do tempo — disse Magno, apontando. — Em breve, você vai se acostumar a ficar por aqui também. Ela assentiu. — Vou te colocar numa mesa próxima à minha sala — continuou ele. — Quero que acompanhe tudo. Reuniões, decisões, contratos. Nada de tratamento infantil. A palavra “infantil” bateu estranho. Gabriella sentiu algo se firmar dentro dela. Ela não era mais uma criança. Não depois do que tinha visto. Não depois do que sentia, mesmo sendo virgem. — Eu dou conta — disse, com mais firmeza do que esperava. Magno a olhou por um segundo a mais do que o necessário. — Eu sei. Eles seguiram. Ninguém ali sabia. Ninguém desconfiava. Mas Gabriella carregava agora um segredo pesado demais para o próprio corpo. E enquanto caminhava ao lado dele, fingindo normalidade, uma certeza incômoda crescia dentro dela, silenciosa e perigosa: Aquilo não ia parar ali, ela queria mais.
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