ENTRE NÓS

1493 Palavras
O dia na empresa passou mais rápido do que Gabriella imaginou. Entre salas de reunião, corredores envidraçados, apresentações rápidas e explicações pacientes de Magno, ela sentiu algo que não sentia desde antes do acidente: pertencimento. Não era só sobre dinheiro ou herança. Era sobre estar incluída em algo real, sólido, importante. Magno não a tratou como uma menina. Em nenhum momento. Explicava tudo com calma, mas sem simplificar demais. Falava de números, decisões difíceis, pessoas confiáveis e outras nem tanto. Às vezes perguntava o que ela achava — e quando ela respondia, ele realmente ouvia. Isso mexia com ela. Cada vez que ele se inclinava um pouco mais perto para mostrar algo na tela. Cada vez que a voz dele baixava de tom para explicar algo mais sério. Cada vez que o braço dele roçava no dela de leve, quase sem querer. Gabriella se sentia viva demais dentro do próprio corpo. Ao final do expediente, quando os corredores começaram a esvaziar e o clima ficou mais silencioso, ela percebeu o quanto tinha gostado daquele dia. Não só da empresa. Mas dele. Do tempo juntos. Da proximidade. — Foi muita informação pra um dia só — disse Magno, enquanto pegavam o elevador. — Foi… — ela sorriu. — Mas eu gostei. Ele a observou de lado. — Seu pai ficaria orgulhoso. Você aprende rápido. Aquelas palavras aqueceram algo dentro dela. No estacionamento, o carro parecia ainda mais silencioso do que de manhã. Magno dirigia com uma mão no volante, a outra relaxada, apoiada perto da marcha. A cidade passava pelas janelas, mas Gabriella m*l via. Estava cansada. Feliz. Confusa. E mais atraída por ele do que nunca. O silêncio entre eles não era desconfortável. Era carregado. Denso. Como se qualquer palavra errada pudesse quebrar algo invisível. Gabriella apoiou o cotovelo no apoio da porta, virou o rosto na direção dele. Observava em silêncio. O maxilar marcado. A concentração no olhar. A segurança natural nos movimentos. Ela pensou na empresa. Pensou na casa. Pensou na noite anterior. Tudo se misturava dentro dela. Sem pensar demais — talvez sem pensar nada —, Gabriella deixou a mão escorregar lentamente do próprio colo… até pousar sobre a coxa dele. Foi um toque simples. Leve. Quase inocente para quem visse de fora. Mas não era. Magno sentiu na hora. O corpo dele reagiu antes da mente, sentiu seu membr0 endurecer na hora. A respiração mudou quase imperceptivelmente, e por um segundo, a mão no volante apertou um pouco mais firme. — Gabi… — ele começou, a voz baixa. Ela não retirou a mão. Ficou ali. Quente. Presente. O coração dela batia tão forte que parecia impossível ele não ouvir. O toque não se movia, mas dizia tudo. Era um teste. Um limite sendo empurrado com cuidado. Magno engoliu em seco. — Você tá cansada — disse, tentando manter o tom neutro. — Foi um dia longo. — Foi… — ela respondeu, suave. — Mas foi bom. Ela sentiu a tensão percorrer o corpo dele, contida, controlada. Ele não afastou a mão dela. Também não correspondeu. Mas a vontade o enlouquecia por dentro. Era um silêncio perigoso. O carro seguiu pela estrada em direção à mansão, e aquele pequeno espaço parecia concentrar tudo o que não podia ser dito. Desejo. Controle. Proibição. Quando finalmente chegaram, Magno estacionou e desligou o carro. Por um segundo longo demais, nenhum dos dois se mexeu. Gabriella retirou a mão devagar, como se nada tivesse acontecido. — Obrigada pelo dia — disse ela, descendo do carro. — Descansa — respondeu ele. — Amanhã tem mais. Ela entrou na casa sentindo o corpo inteiro em alerta. E Magno ficou ali, sozinho no carro por alguns segundos, respirando fundo, consciente de uma verdade que ele ainda se recusava a admitir: A linha tinha sido tocada. E agora… Não seria tão fácil fingir que ela não existia. O jantar foi servido mais tarde do que o habitual. A casa estava silenciosa de um jeito diferente naquela noite — não o silêncio confortável dos primeiros dias, mas um silêncio atento, quase vigilante. As luzes estavam mais baixas, refletindo no vidro da sala de jantar, criando sombras longas sobre a mesa extensa demais para apenas duas pessoas. Gabriella desceu do quarto com passos lentos. Tinha escolhido a roupa com intenção dessa vez. Nada vulgar. Nada óbvio. Um vestido simples, de tecido leve, que marcava o corpo sem esforço. O decot3 discreto, mas o suficiente para chamar atenção se alguém olhasse com cuidado. O cabelo solto, ainda levemente úmido do banho, caindo pelos ombros. Ela não estava se exibindo. Estava se posicionando. Magno já estava à mesa quando ela entrou. Levantou os olhos assim que a viu. E, por um segundo mínimo — pequeno demais para qualquer outra pessoa notar —, perdeu o controle. O olhar dele percorreu Gabriella rápido demais para ser casual, principalmente pelo decot3. Depois voltou ao normal. Frio. Contido. Educado. — Boa noite — disse ele. — Boa noite — respondeu ela, sentando-se à frente dele. A chef não apareceu naquela noite. Nenhuma explicação foi dada. Apenas pratos impecavelmente preparados surgiram à mesa, servidos por funcionárias discretas que evitavam contato visual. Gabriella percebeu. E percebeu também que Magno estava diferente. Mais quieto. Mais rígido. Ele comia com atenção excessiva, como se cada movimento fosse calculado para manter distância. As mãos grandes seguravam os talheres com firmeza demais. O maxilar se movia tenso enquanto mastigava. Ela observava tudo. O silêncio entre eles não era vazio. Era cheio de coisas não ditas. Gabriella cortou um pedaço da comida, levou à boca devagar. Não estava com muita fome, mas fazia questão de parecer tranquila. Normal. — Hoje foi… importante pra mim — disse ela, quebrando o silêncio. Magno levantou os olhos. — Fico feliz — respondeu. — Você se saiu muito bem. — Eu me senti… parte de algo de novo. Ele assentiu, mas não sorriu. — Isso é bom. Ela inclinou um pouco a cabeça. — Você parece cansado. — Foi um dia longo. — Foi — concordou ela, sustentando o olhar por um segundo a mais do que o necessário. Magno desviou. Ele lutava contra algo que não queria admitir nem para si mesmo. Desde o carro, desde aquele toque leve demais para ser acidente, o corpo dele estava em alerta. Não era desejo puro — era conflito. Consciência. Responsabilidade esmagando qualquer impulso antes mesmo que ele se formasse por completo. Ela é jovem. Ela passou por um trauma. Ela confunde cuidado com outra coisa. Ele repetia isso como um mantra silencioso. Mas então ela cruzava as pernas devagar demais. Ou apoiava o cotovelo na mesa, aproximando-se. Ou o olhava como se estivesse tentando decifrá-lo. E o controle ficava mais difícil. — Você vai me ensinar tudo mesmo? — perguntou Gabriella, fingindo curiosidade casual. — Ou só as partes chatas? Ele quase sorriu. — Tudo. Inclusive as partes difíceis. — Gosto das coisas dur4s... e difíceis — respondeu ela, baixinho. Magno respirou fundo. — Gabriella… Ela levantou as sobrancelhas, como se não entendesse o peso daquele tom. — O quê? — Nada. — Ele voltou a comer. — Só… come. Ela obedeceu, mas sorriu de leve. Por dentro, algo nela se reorganizava. Gabriella não estava mais apenas sentindo. Estava observando. Testando. Percebia como ele reagia. O que evitava. O que o deixava tenso. Depois do jantar, eles foram para a sala. A televisão ligada em volume baixo, quase irrelevante. Magno sentou-se em uma poltrona. Gabriella escolheu o sofá, mas não o mais distante. Sentou-se de lado, as pernas dobradas sob o corpo, o vestido subindo um pouco mais — nada indecente, apenas natural. — Amanhã quero te mostrar os contratos antigos do seu pai — disse Magno. — Vai te ajudar a entender as decisões que ele tomava. — Quero ver — respondeu ela. — Quero entender ele… e você. Ele a olhou. — Eu? — Vocês trabalharam juntos por anos — disse ela, como se fosse só isso. — Quero saber como vocês pensavam. Magno assentiu. — Ele confiava muito em mim. — Eu sei — disse ela, suavemente. — Eu também confio. A frase ficou suspensa no ar. Magno sentiu o peso dela mais do que deveria. — Você devia descansar — disse ele, levantando-se. — Ainda está se recuperando. — Já vou subir — respondeu Gabriella. — Só… mais um pouco. Ela não se levantou. Ele também não insistiu. Ficaram ali, dividindo o mesmo espaço, o mesmo silêncio carregado, até que Gabriella finalmente se levantou. — Boa noite, Magno. — Boa noite, Gabi. Ela subiu as escadas devagar, sentindo o olhar dele nas costas — mesmo que ele negasse isso depois. E quando a porta do quarto dela se fechou, Magno ficou sozinho na sala por alguns minutos, os pensamentos em guerra dentro da própria cabeça. Ele sabia. Aquilo não era mais apenas cuidado. E ela… já tinha começado a perceber como provocar sem tocar. E isso era o mais perigoso de tudo.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR