VISÃO - PH
Voltei pra boca, sentei na minha cadeira, estiquei o braço, puxei o fininho que o Imperador largou no cinzeiro e botei o balão pra subir. Ele nem reclamou. Já sabia que eu tava com coisa na cabeça. Precisando relaxar a mente.
Sombra tava na contenção da porta, só observando.
— Que cara de cü é essa aí? — Imperador soltou, jogando o corpo pra trás na cadeira.
— Mais bonita que a tua — respondi seco.
Ele riu de canto.
— Ela é estranha, né não?
Sombra se encostou mais perto, fuzil no colo, voz baixa.
— Nunca vi essa mina em baile, nem nos pagode. Nem no bar do Naldo ela cola. Nada. Invisível.
— Nem eu. — completei. — Parece que saiu do meio da sombra. Ninguém fala nada dela. Nem história r**m, nem fofoca. Tentei puxar alguma coisa e ninguém sabia dela.
— Eu vi ela uma vez só — Imperador disse. — Lá na porta do mercado. Sacola na mão, cabeça baixa, roxo no braço. Mas passou tão batido que ninguém reparou.
Fiquei em silêncio.
— O pai dela é aquele noia da rua 5, né? — Sombra perguntou.
Assenti.
— Tava devendo e me disse que se eu não pegasse como pagamento ia vender a menina pra morrer na mão de qualquer dono de morro pra conseguir o dinheiro pra me pagar.
Imperador mexeu a cabeça, indignado.
— Que tipo de dësgraçado faz isso com a própria filha? E se ela cai na mão de um filho da püta äbusador. Todo mundo sabe que tem dono de morro que trata mulher que nem lixo.
— Se eu pegar esse mërda na rua de novo vai de tobogã direto pro ïnferno. Perto dela ele não chega mais. Tá proibido de subir aqui, já pode avisar pros cria. Se aparecer é bala — respondi firme.
Ficamos uns segundos em silêncio. Só o barulho do radinho rolando nas caixas.
— Tu vai fazer o que com ela? Vai dizer que não vai meter ali? — Sombra soltou, direto e reto.
Dei mais uma tragada. Soltei devagar.
— Não sei ainda. A mina é gostosa mas por enquanto, tô de boa e ela fica na minha goma. Tá sob minha proteção. Até eu decidir ninguém toca.
Mas não é minha märmita. Nem minha mulher. Nem minha funcionária.
É só… uma dívida viva.
— E se ela se acostumar? — Imperador perguntou. — Tipo, se começar a achar que tem espaço?
— Aí eu vejo. — rebati. — Mas até agora, a mina nem olhou nos meus olhos. Tá mais assustada que bandido novo na frente do caveirão.
Sombra riu baixo.
— Fez certo em trazer. Se tu não pega, o TCP pegava. E aí só o dïabo sabe o que seria da novinha.
— É. — Imperador completou. — Pior que... tem algo nela. Jeito calado. Parecia quebrada, mas não era qualquer uma. Quando ela entrou… a tropa ficou na dúvida.
— Ficaram na dúvida por quê? — Perguntei logo querendo saber qual é.
— Porque ela não tem cara de märmita. Mas também não tem pose de mulher de bandido.
É tipo... mina que ninguém sabe de nada e até agora deve tá tentando entender se é sorte ou castigo o que aconteceu.
Fiquei quieto.
A verdade é que nem eu sei se fiz certo.
Mas fiz.
E agora… é ver no que vai dar essa pörra.
— Bora meter marcha no Naldo, tomar uma gelada e rir da nossa desgraça. — Imperador chamou.
— Bora. — eu respondi. E partimos.