ALICE

450 Palavras
ALICE narrando Meu nome é Alice. Tenho dezoito anos. Nunca tive apelido. Nunca tive amigos. Nunca fui amada. Sou moradora da Rocinha e meu pai é um drogado. Desde que minha mãe morreu, nunca mais eu tive paz. Cresci no barraco fedendo a mofo, com comida vencida e tapa na cara como boa noite. Minha mãe morreu quando eu tinha dez. Foi atropelada voltando de uma faxina no asfalto. Nunca mais voltou. Desde então, fiquei sozinha com aquele dësgraçado. Apanhei com fio, com päu, com cinto. Já dormi com fome. Já lavei roupa na mão pra ganhar um resto de arroz com ovo. Nunca fui pra baile, nunca usei short curto, nunca dei beijo. Meu primeiro sutiã foi doado pela ONG que a gente recebia cesta. Minha primeira calça decente veio quando a professora fez vaquinha com as outras tias da escola. Essa era minha vida. Até ontem. Até a hora que ele chegou perto e mandou: — Tô com uma dívida aí e tu vai ser meu pagamento, se ligou? E reza pro PH te aceitar, senão te vendo pra outro morro e com o dinheiro eu quito a minha dívida com ele. Como se eu fosse pacote. Como se eu fosse mercadoria. Como se eu fosse... nada. Hoje, tô subindo o morro com o coração na mão. Depois daquele dësgraçado soltar: — Bora, até que enfim tu vai servir pra alguma coisa. Cata tuas coisas e mete o pé, que tu agora pertence ao PH. E acho bom ser obediente, senão ele te devolve. E aí eu te vendo pro pior dono de morro que eu encontrar, só pra ter o prazer de saber que tu vai sofrer. Bora, anda, inútil! Arrumei minha mochila e subi pra boca como um porco pro abate, sem saber o que me esperava. Um homem de cara fechada me parou na porta da boca. Arma na cintura, fuzil nas costas, olhar que gelou minha espinha. — Nome. — Alice. — Tá fazendo o que aqui? — PH... ele disse que era pra eu subir. Ele pegou o radinho. Falou baixo. Ouvi só meu nome. Minuto depois, ele se virou: — Bora. O patrão tá te esperando. Minhas pernas tremem. Eu não sei se vou viver. Se vou ser äbusada. Se vou virar escrava, empregada, märmita, püta. Só sei que... se ele mandar me mätar, eu morro calada. Já morri tantas vezes por dentro que, dessa vez, se for pra morrer mesmo... pelo menos vai ser rápido. Tô chegando na boca. Vejo três homens sentados. Um deles levanta. Loirão. Olho azul. Olhar frio. O ar ao redor dele pesa. Esse é o tal do PH. E agora... meu destino tá na mão dele.
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