4. O assassino

1486 Palavras
Raisa É óbvio que nem todos podemos entrar no escritório. Killian acharia estranho entrar sozinho na sala, então minha mãe faz o trabalho. — Vou trazer a papelada para você — diz minha mãe, com o rosto vermelho. Ela se apressa para juntar tudo, deixando cair os Lenços no chão, ajoelhando-se para pega-los novamente. Sua ansiedade está deixando meus nervos à flor da pele. Killian cruza os braços sobre o peito largo. As abotoaduras douradas do paletó brilham sob as luzes. De repente, lembro-me da arma. — Você parece pálida — diz ele. — Eu te assusto, passarinha? — Não. E pare de me chamar assim. Eu tenho um nome. — Perdoe-me — ele ri secamente. — Esqueço os nomes das pessoas que não preciso lembrar. Furiosa com seu comentário descarado, mordo a língua. — Aqui está! — Mamãe deixa escapar. Entregando a pilha para Killian, ela entrelaça os dedos na cintura como se estivesse esperando um elogio. Eu odeio toda essa situação. Mas acima de tudo, odeio a quantidade de esperança que o olhar da mamãe revela quando ela olha para Killian. Quero sacudi-la, gritar com ela e perguntar se este lugar não significa nada para ela. Se as memórias do papai não significam nada para ela. Mas não posso. Porque pela primeira vez em muito tempo, vejo algo em seus olhos – uma emoção que ela pode ter esquecido ao longo dos anos. A esperança. Resmungando para si mesmo, Killian folheia os papéis. Ele os examina um por um, examinando-os de perto. — Não é surpreendente— ele suspira. — O que? — Eu pergunto. — Este lugar está queimando dinheiro como uma fornalha. Não admira que você precise de mim. — Não precisamos de você. — Não importa — ele me interrompe. — Não preciso disso como uma galeria de arte. Estou comprando a localização. — O que você está dizendo? — Pergunto com cautela, com o coração preso na garganta, com medo de qual será a resposta dele. Entregando os papéis para minha mãe, Killian me examina da cabeça aos pés. — Vou transformar isso em um clube. E assim, meu coração despenca. — Você não pode estar falando sério! — Eu estou falando bem sério. — Mas você disse que era muito pequeno! Um clube, aqui? Impossível. — Vou destruir tudo.— Ele dá de ombros. — E quando tudo acabar, eu reconstruirei. Você pode até ficar com aquelas coisas velhas. — Isso é arte. — eu soo ríspida. Destruir tudo. Meu peito dói dolorosamente. Não há espaço suficiente em minhas costelas para a rapidez com que meus pulmões estão se expandindo. Meus joelhos de repente ficam moles e minha mão se contorce para pegar algo para me firmar, para não correr o risco de cair no chão com o quão fácil e despreocupado ele parece em destruir minha infância. — Eu não vou vender.— As palavras escapam dos meus lábios antes que eu possa me conter. Seus olhos escurecem com a minha insolência, e a boca da minha mãe cai aberta. — Raisa!— ela exclama. Mas eu não estou pensando em tentar ser educada com esse i****a. Alguém tem que se preocupar com esse lugar! — Não vou deixar ele, nem ninguém, estragar o que construímos! Pelo que você e papai trabalharam tanto! Balançar a cabeça violentamente afrouxa meu coque. Eu enfrento Killian. Ele é muito maior que eu, mas me recuso a deixar seu tamanho me intimidar. — Não venderemos para você. Ele está me julgando com uma curiosidade renovada. Não posso deixar de imaginá-lo como um tubarão me circulando em mar aberto. A mão da mamãe toca meu cotovelo levemente. — Nós vamos vender — diz ela categoricamente, fazendo o possível para manter a voz calma. — Mãe! Não! — Sr. Killian… Se a sua oferta for séria, o contrato pode ser assinado agora mesmo. Desanimando com sua declaração inabalável, recuo lentamente, afastando-me dos dois. O rosto de Killian brilha de alegria enquanto um sorriso surge no rosto bonito que passei a detestar em tão pouco tempo. — É lamentável que sua filha tenha tantas dúvidas sobre meus planos. — Porque você está destruindo minha infância!— Eu grito. Minha mãe se encolhe. Mas Killian apenas deixa seu sorriso se transformar em um sorriso de escárnio. — Estou transformando algo quebrado em algo novo. Renascido, reaproveitado, como você quiser chamar. Eu enrolo meu lábio em desgosto. — Eu chamo isso de ganância. — Você acha que estou me aproveitando de vocês duas?— ele pergunta, levantando a mão para acariciar seu cabelo escuro. É quando eu vejo. Os pequenas bolinhas dançam sob meus olhos. Não há dúvida em minha mente. Eu sei exatamente o que estou olhando. São contas de oração. As mesmos que vi ontem à noite! Quem mais teria isso além do... O sangue de repente ressoa em meus ouvidos; isso abafa Killian enquanto ele continua a falar. — É horrível que você tenha uma opinião tão negativa sobre mim. Permita-me mudar isso. Afinal, nos veremos muito à medida que os detalhes do contrato forem acertados. É ele! O assassino! Ele matou aquele homem! Tropeço um pouco – esqueci de respirar. Killian estreita os olhos e tenho um medo terrível e irracional de que ele esteja lendo minha mente. Deixando cair a mão no quadril, meus olhos seguem seu pulso para baixo. Ele me observa fazer isso. Merda... Ele me reconhece da noite passada? Eu fugi o mais rápido que pude… Ele não viu meu rosto... viu? — O senhor Ivanov está certo, Raisa — diz minha mãe. — Vamos manter a paz. Isso funcionará para todos nós, mesmo que não pareça agora. É uma chance de começar de novo na vida. Por favor, pequena. — Ouça sua mãe, passarinha — ele concorda com um sorriso malicioso. — Não deixe que seus próprios desejos egoístas a impeçam de dar à sua mãe a chance que ela merece. — Não importa o que eu quero — eu sussurro. — A mamãe já concordou com o acordo. — Estou ciente, — observa ele. — mas prefiro que todos saiam satisfeitos com o acordo. Não gosto de dúvidas; elas complicam as coisas. E prefiro que, ao final de cada acordo, saia com a parte contrária como amiga. E, pela minha experiência, o caminho para uma amizade íntima começa com uma bebida. Ele está me convidando para sair? O d***o que vai! Mas, ao mesmo tempo, suas palavras me intrigam. Ele quer me convencer de que o negócio é bom. O que significa que ainda há uma chance de convencê-lo de que isso é r**m. Mas posso aceitar isso? Tenho certeza que ele é o cara que vi matar um homem ontem à noite. Viro-me para olhar para minha mãe e ela me implora silenciosamente com os olhos. Ela não tem ideia de quem é esse homem... ou quão perigoso ele pode ser. Estou sendo paranóica. Ele não sabe que eu estive lá ontem à noite. Ele não pode saber; ele já teria dito alguma coisa. No mínimo, talvez uma bebida pelo menos me aproxime da verdade sobre quem ele é. E se eu conseguir convencê-lo a desistir do acordo, será melhor. Então, dou um breve aceno de cabeça. — Está nem. Bebidas para falar de negócios, só isso. — Eu não sabia que isso era outra coisa senão negócios — ele brinca. — Ou há mais alguma coisa que você acha que eu quero de você, passarinha? Seu sorriso o torna mais bonito, e vê-lo faz com que meu corpo me traia. Uma nova faísca de calor escorre da minha barriga e se instala na parte interna das coxas. É injusto que um homem tão horrível seja tão bonito. É uma piada c***l; tem que ser. — Onde você quer se encontrar? Killian gentilmente passa os dentes contra o lábio inferior, quase como se estivesse insinuando como usaria aqueles dentes em mim. Mas qualquer excitação que ele esteja crescendo em meu âmago evapora quando ele fala. — Salão do Tiger. — Seu sorriso muda e o brilho brincalhão em seus olhos é substituído por outra coisa. — Mas devemos ir antes que fique muito escuro. Sabe-se que coisas terríveis acontecem por lá depois da meia-noite, perto das docas, especialmente com pessoas que ficam bisbilhotando onde não deveriam. Ele estende a mão para mim. Percebendo que não tenho outra escolha, eu aceito. E com o calor chocante de seu aperto, uma onda de eletricidade dança ao longo do meu braço e direto para o meu coração. Seu sorriso me prende no lugar, mas não há calor em seus olhos. Em vez disso, existe apenas algo predatório e perigoso. Suas pupilas se alargam ligeiramente enquanto nossas mãos permanecem entrelaçadas, e eu me vejo refletido em suas infinitas profundezas escuras – como uma gazela presa no olhar de um leão faminto. E é aí que eu sei que estou ferrada.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR