Nariz narrando — Faz teu papel, Nariz. Porque agora quem tá no comando sou eu. Tu gostando ou não, tu aceitando ou não, tu botando fé ou não. Eu tô no lugar dele até o Felipe chegar. E se tu quiser calma na favela, vai ter que aceitar isso. Foi a primeira vez que eu senti, de verdade, que ele estava saboreando a dor da favela, se alimentando do caos, crescendo em cima da desgraça dos outros, e essa consciência acendeu em mim um ódio tão vivo que parecia um animal preso dentro do meu peito, arranhando as costelas pra sair. Mas mesmo com todo esse fogo por dentro, eu mantive meu rosto firme, minha postura reta, meu silêncio calculado, porque eu sabia que duas coisas estavam a meu favor: o morro estava de luto e isso freava a violência, e o Felipe estava a dois dias de voltar. Só dois. Do

