Franciele Narrando
Quando acordei no outro dia, percebi que o Carlos não estava mais na cama. Normalmente, ele estava ali ao meu lado, até aquele momento da manhã, mas dessa vez ele havia saído mais cedo que o normal. Fiquei com aquela sensação estranha no peito, como se alguma coisa estivesse fora de lugar. Eu sabia que ele tinha dito que era só o cansaço do trabalho, mas algo na maneira como ele agiu me fez duvidar. A intuição da mulher é algo que não engana, e a minha estava me dizendo que algo não estava certo.
Levantei da cama, sentindo um peso nas costas, e fui para o banheiro fazer minhas higienes matinais, tentando afastar aquele desconforto que me acompanhava. Me arrumei com a mente distante, mas mesmo enquanto me olhava no espelho, não conseguia ignorar a sensação de que algo havia mudado.
Desci para preparar o café da manhã da nossa filha. Ela estuda em um colégio militar, e eu sabia que precisava garantir que ela estivesse bem alimentada e pronta para enfrentar o dia. Ela tem que estar lanchada antes de sair para lá, e eu não queria que nada interferisse na rotina dela, apesar da tempestade silenciosa que estava se formando dentro de mim.
Enquanto preparava o café, minha mente estava agitada. O Carlos nunca tinha saído tão cedo sem dizer nada, sem sequer me dar um beijo de bom dia. Ele sempre foi carinhoso, e eu sentia falta disso. Talvez fosse o cansaço, como ele disse. Mas eu não conseguia ignorar o pressentimento de que havia algo mais, algo que ele não estava me contando. Eu precisava descobrir o que estava acontecendo.
Não demorou muito para minha filha descer, ainda com os olhos meio sonolentos, mas com aquele jeitinho leve que só ela tem. Ela me deu bom dia, com um sorriso preguiçoso no rosto, e eu retribuí, dando um beijo na bochecha dela, como sempre faço, antes de servi-la. Era uma rotina que eu não queria mudar, não importava o que estivesse acontecendo ao meu redor.
Ela sentou à mesa e, enquanto comia, me olhou com aquele olhar curioso que só as crianças têm, como se estivesse esperando algo. Não demorou muito para ela perguntar, com a voz suave, mas cheia de preocupação:
— Mãe, e o pai? Ele não está aqui hoje...
Eu hesitei por um momento, tentando não parecer nervosa. Ela sabia que o Carlos sempre estava ali, e a ausência dele parecia mais estranha do que eu gostaria de admitir. Mas eu não queria que ela percebesse que algo estava errado.
— Ah, hoje ele teve que sair mais cedo, filha. Problemas de trabalho — respondi, tentando disfarçar qualquer traço de preocupação na minha voz. Eu sabia que ela não precisava saber de nada disso ainda, então mantive a resposta simples.
Ela assentiu, parecendo satisfeita com a explicação. Mas eu não conseguia me livrar da sensação de que havia algo de errado. Eu sabia que estava mentindo, mas o que mais eu poderia fazer? Ela merecia um dia tranquilo, sem as minhas incertezas sobre o Carlos.
Enquanto ela continuava a comer, minha mente estava em outro lugar. Eu me perguntava o que poderia estar acontecendo com ele, e se, de alguma forma, ele já estivesse começando a se distanciar. O que me deixava ainda mais inquieta era o fato de não saber se eu estava apenas exagerando ou se minha intuição realmente tinha razão.
A manhã seguiu sem grandes acontecimentos, e, embora minha filha parecesse tranquila, eu não conseguia me livrar daquela sensação estranha. Ela terminou o café da manhã e se arrumou rapidamente para sair. Eu a ajudei a pegar a mochila, organizei os últimos detalhes e a acompanhei até a porta.
Quando ela saiu, acenei para ela e, mesmo sabendo que ela estava bem, algo dentro de mim ainda estava agitado. Fiquei ali por um momento, observando-a seguir para a van que a levaria ao colégio, e, assim que ela desapareceu de vista, a casa ficou silenciosa. E foi nesse silêncio que tudo o que estava me incomodando veio à tona com mais força.
Voltei para dentro de casa, tentando afastar o que estava sentindo, mas não consegui. O Carlos não estava ali, e esse vazio só parecia crescer. Eu sabia que ele tinha saído mais cedo, mas o que me deixava desconfortável era a sensação de que ele estava se afastando. Algo estava diferente, e eu não sabia como lidar com isso.
Passei o resto da manhã tentando focar nas tarefas da casa, mas a mente não parava. Pensei em ligar para ele, perguntar como estava, mas algo me dizia que ele não responderia do jeito que eu esperava. Eu não queria parecer desesperada, mas também não queria ignorar o que estava acontecendo. O que mais me incomodava era saber que ele estava escondendo algo, e o simples fato de não saber o que era estava me corroendo por dentro.
Eu precisava conversar com ele, mas ao mesmo tempo, algo me dizia que, se o fizesse, as respostas não seriam as que eu esperava.
Passei a manhã me ocupando com as tarefas da casa, mas minha mente não parava de voltar para o Carlos. Aquela sensação de que algo estava fora de lugar parecia não me deixar em paz. Preparei o almoço como sempre, pensando na rotina que tínhamos, nas pequenas coisas que nos uniam. A mesa estava posta, o cheiro da comida começava a invadir a casa, mas ele ainda não tinha chegado.
Fiquei esperando, olhando para o relógio e me perguntando onde ele estaria. Normalmente, ele chegaria a essa hora, mas o tempo foi passando e, quando percebi, já estava quase na hora de eu sentar para almoçar sozinha. Senti um desconforto crescer dentro de mim, e resolvi mandar uma mensagem para ele.
— Oi, Carlos. Está tudo bem? Não vai almoçar em casa hoje?
Demorou alguns minutos para ele responder, e quando a resposta finalmente apareceu na tela, meu coração apertou um pouco.
— Hoje o dia está cheio de coisas para resolver na delegacia. Não vou conseguir almoçar em casa.
Eu li a mensagem, tentando não mostrar o quanto aquilo me afetou. Ele sempre vinha almoçar em casa, mesmo que fosse corrido. Essa resposta, tão breve, sem a mínima explicação, me deixou ainda mais inquieta. Ele estava sempre tão presente, mesmo nos dias mais complicados. Mas agora, parecia que ele estava se afastando, e não fazia questão de me dar detalhes.
Eu não queria forçar nada, mas aquela resposta me fez sentir um vazio ainda maior. Sentei na mesa, olhando para o prato que eu havia preparado com tanto cuidado, e um nó se formou na minha garganta. Eu não sabia o que fazer, mas sabia que algo estava acontecendo, e, mesmo que tentasse me convencer do contrário, minha intuição estava me dizendo que eu não podia ignorar mais.