Carlos Narrando
Acordei mais cedo do que o normal, como se algo dentro de mim tivesse me empurrado para fora da cama antes do horário. Fui direto para o banheiro, sem perder tempo, e tomei um banho quente, tentando clarear a mente, como sempre faço pela manhã. A rotina já estava mais mecanizada do que eu gostaria de admitir. Terminei o banho, vesti a farda e, sem muita conversa, saí de casa sem tomar café. Eu deixaria para comer no serviço mesmo, o que não era ideal, mas naquele momento não parecia me importar muito.
Cheguei à delegacia e cumprimentei os colegas de sempre, o ambiente carregado, como de costume. Entrei na sala de descanso e fui direto para a mesa onde sempre me sento para tomar meu café. O cheiro do café quente era reconfortante, e me obriguei a dar uma pausa. Estava cansado, e as últimas semanas tinham sido intensas. Tentei focar em algo simples, apenas me concentrando naquele momento, sem pensar no que estava acontecendo em casa.
Enquanto tomava o café, a porta da sala de descanso se abriu, e Lara, minha nova colega de trabalho, entrou. Ela olhou para as mesas vazias e, com um sorriso amigável, se aproximou.
— Posso me sentar aqui? — ela perguntou, com um tom leve e descontraído.
Eu olhei para ela por um momento, surpresa com a pergunta. Não esperava que ela se aproximasse, mas, por algum motivo, não me senti desconfortável. Acho que, no fundo, uma parte de mim estava apenas buscando um pouco de companhia, ou distração. Eu estava em um estado estranho, em que minha mente estava dividida entre o que estava acontecendo em casa e a nova dinâmica no trabalho.
— Claro, pode sentar — respondi, tentando manter a conversa casual, sem deixar transparecer a tensão que eu estava sentindo.
Ela sorriu e se acomodou na cadeira. Eu continuei a beber o café, mas algo dentro de mim me dizia que aquela interação ia ser o começo de algo novo. Algo que eu não sabia exatamente onde iria me levar.
Lara se sentou ao meu lado, pegando seu café. Eu continuei mexendo na xícara, sentindo o calor da bebida, mas minha mente estava longe. De repente, ela quebrou o silêncio.
— Então, Carlos, como está sendo seu dia até agora? — perguntou ela, com um sorriso leve. Eu poderia sentir que ela tentava ser amigável, talvez até um pouco curiosa sobre minha vida. Eu, por outro lado, estava tentando não ser distante demais, mas também não queria abrir muito jogo.
— Está tranquilo, até agora. Só a rotina de sempre, sabe? — respondi, tentando não me aprofundar na conversa. Mas, de alguma forma, ela parecia estar tirando de mim um lado mais descontraído que eu nem lembrava que ainda existia.
Ela deu uma risadinha e então, com um olhar mais curioso, perguntou:
— E você, Carlos, tem algum hobby fora do trabalho? Tipo, algo que te ajude a relaxar?
Eu me senti por um momento desconcertado. Não tinha muitos hobbies. Minha vida se resumia ao trabalho, à casa, à Franciele e à nossa filha. Eu não tinha tempo para mais nada. Mas, por alguma razão, aquela pergunta soou como um convite para algo mais, para eu pensar em algo que estivesse fora da minha rotina. Talvez fosse isso o que eu estivesse buscando: algo novo, algo que me tirasse do automático.
— Não muito, na verdade. Mas... acho que qualquer coisa diferente do que eu costumo fazer já seria um bom começo — falei, mais por impulsividade do que por uma real resposta.
Lara sorriu, um sorriso que, em algum momento, fez meu peito apertar. Eu não queria admitir, mas algo nela me atraía. Era a maneira com que ela falava, a energia dela, algo que eu sentia que estava faltando em casa, algo que eu não via mais na minha vida há algum tempo.
A conversa seguiu tranquila, mas a energia entre nós dois estava mudando. Cada palavra, cada olhar, parecia carregar um peso novo. Eu tentava não me deixar levar, mas algo me dizia que aquele momento era mais do que só uma simples interação entre colegas de trabalho. Eu não sabia onde isso poderia me levar, mas já sentia que, de alguma forma, não voltaria atrás.
Enquanto tomava o último gole do meu café, percebi que, naquele momento, não estava pensando em Franciele, nem na minha casa. Estava pensando em Lara, e essa sensação, essa mudança, me fez questionar tudo o que eu sabia sobre minha vida até ali.
A conversa com Lara estava ficando mais desconfortável do que eu gostaria de admitir. Não porque ela fosse desagradável, muito pelo contrário, mas eu sabia que precisava pôr um fim àquilo. O que estava acontecendo ali não deveria ir além, e eu não queria me arriscar em algo que fosse desviar minha atenção de casa, de minha esposa e da minha filha.
Respirei fundo e decidi encerrar a conversa.
— Bom, Lara, acho que já falei demais. Preciso voltar ao trabalho — disse, tentando soar firme, mas sem ser rude.
Ela sorriu, sem parecer incomodada, e me olhou com aquele brilho nos olhos que, sinceramente, me deixou um pouco perdido. Aquele sorriso, tão aberto, tão natural, me fez pensar em coisas que eu não deveria estar pensando. Mas antes que eu pudesse me perder ainda mais, ela falou:
— Não se esqueça, hein? A gente vai para algum bar hoje à noite. Não vou deixar você escapar dessa.
Eu a olhei por um momento, sentindo o peso daquilo que ela estava sugerindo, mas ao mesmo tempo, uma parte de mim queria simplesmente confirmar e seguir em frente. Eu sabia que deveria dar um passo atrás, mas a ideia de ir para aquele bar, de sair e descontrair, parecia algo tão distante da minha realidade diária que foi tentador.
Com um simples movimento de cabeça, confirmei.
— Pode deixar — respondi, tentando soar despreocupado, mesmo que a mente estivesse a mil por hora.
Levantei-me e, sem mais palavras, saí da sala de descanso. Fui em direção à viatura, o som dos meus passos ecoando no corredor vazio. Eu sabia que, ao menos naquele momento, meu trabalho me daria a distração de que eu precisava. Mas, no fundo, o que eu realmente estava buscando era algo mais. Algo que eu nem sabia como definir.
O que aconteceria mais tarde? O que essa saída com Lara realmente significava? Eu não sabia, mas a sensação de estar à beira de algo novo, algo proibido, estava me consumindo.
Na hora do almoço, decidi dar uma pausa no trampo e ir comer fora. Aquelas horas de rotina, no ambiente fechado da delegacia, estavam começando a me deixar maluco. Precisava de um respiro, de algo que me tirasse um pouco da cabeça o que tava rolando. Fui pra um restaurante ali perto, algo simples, mas o suficiente pra colocar a cabeça no lugar.
Me sentei numa mesa isolada, comi em silêncio, e tentei focar no meu prato. Mas, claro, minha mente não parava. Aquelas trocas com a Lara ainda estavam martelando. Não era só a interação no café, mas como ela me olhou, como fez questão de me lembrar do nosso rolê no bar. Isso mexia comigo de um jeito que eu não queria que mexesse. Eu sabia que era errado pensar em algo além do que já tinha em casa, mas era complicado controlar os pensamentos.
Foi aí que meu celular vibrou. Era a Fran, mandando mensagem.
— Tá tudo bem? Não vai almoçar em casa hoje?
Eu dei uma olhada rápida, tentando não parecer desconfortável. Respirei fundo e, sem pensar muito, respondi:
— Hoje não vai rolar, Fran. Tô cheio de coisa pra resolver na delegacia. Vou almoçar por aqui mesmo.
Simples, direto, sem muita conversa. Eu sabia que, por mais que ela sentisse falta da minha presença, era melhor não complicar as coisas. Não queria levantar suspeitas. O problema era que, no fundo, eu sentia que estava começando a complicar tudo pra mim mesmo.