Carlos Narrando
Continuação:
Depois que o expediente bateu, fui direto pro armário guardar minhas armas e pegar minha mochila. O dia tinha sido arrastado, minha mente dividida entre o trabalho, a mensagem da Fran e aquela conversa com a Lara. Eu sabia que tava pisando em terreno perigoso, mas, naquele momento, nem queria pensar muito nisso. Só queria sair um pouco, esquecer das preocupações, da rotina cansativa de sempre.
Saí da delegacia sem muita pressa, joguei a mochila no banco do passageiro e liguei o carro. Não pensei muito no destino, só dirigi. No primeiro bar que vi, parei. Era um lugar simples, nada sofisticado, mas servia pra tomar uma, relaxar e ver no que dava.
Peguei o celular do bolso e, sem enrolação, abri a conversa com a Lara. Digitei rápido:
— Cheguei. Tô aqui.
Mandei junto a localização e larguei o celular na mesa. Agora era só esperar.
Pedi uma cerveja enquanto esperava. O bar tava meio movimentado, mas nada demais, só o pessoal que saía do trampo e vinha tomar uma antes de voltar pra casa. O tipo de ambiente que eu curtia quando queria ficar de boa, sem pensar muito nas coisas.
Dei um gole na cerveja e olhei pro celular. Nenhuma resposta ainda. Será que ela ia mesmo aparecer?
A verdade é que, se fosse há um tempo atrás, eu nem teria cogitado esse tipo de coisa. Eu era um cara certo, certinho até demais, mas ultimamente… Sei lá. Alguma coisa dentro de mim queria algo diferente, uma mudança, uma fuga da rotina.
Peguei o celular de novo e conferi a mensagem. Nada. Suspirei, tentando não parecer ansioso. Era melhor relaxar e esperar.
E então, alguns minutos depois, o celular vibrou na mesa.
"Tô chegando. Espero que tenha uma cerveja me esperando."
Sorri de canto, sem nem perceber. Sinalizei pro garçom e pedi mais uma. Se era isso que ia acontecer, então que acontecesse.
Fiquei ali, girando o copo de cerveja na mesa, enquanto olhava o movimento do bar. Tava uma mistura de gente chegando do trampo e outros que pareciam já estar ali há horas, afundados na bebida. Eu só queria relaxar, mas minha mente não parava.
Minutos depois, senti um perfume conhecido se misturar com o cheiro de álcool e comida do lugar. Olhei pro lado e lá estava Lara, entrando com aquele jeito despreocupado, a farda já trocada por uma roupa mais casual, mas ainda assim chamando atenção.
— E aí, sargento, cheguei — ela brincou, puxando a cadeira e se sentando na minha frente.
Levantei o copo, meio em cumprimento, meio em provocação.
— Pensei que ia dar pra trás — falei, um meio sorriso no rosto.
Ela riu, pegando a cerveja que pedi pra ela e dando um gole.
— Eu não sou dessas, Carlos. Se eu digo que vou, eu vou.
O jeito que ela falou, olhando nos meus olhos, me fez entender que a conversa não era só sobre o bar.
Por um instante, senti um peso no peito. Eu sabia onde isso podia dar. Sabia que tava jogando um jogo perigoso. Mas, ao mesmo tempo, fazia tempo que eu não sentia essa adrenalina. Esse frio na barriga que, com o tempo, tinha desaparecido em casa.
— Então, me conta — ela continuou, apoiando o cotovelo na mesa e me olhando com curiosidade — por que um cara casado como você tá aqui, tomando uma comigo, em vez de estar em casa com a esposa?
Engoli seco, mas mantive a expressão relaxada. Dei mais um gole na cerveja antes de responder.
— Às vezes, a gente só precisa de um tempo, sabe? Um respiro.
Lara arqueou a sobrancelha, um sorriso de canto nos lábios.
— E eu sou esse respiro?
Eu devia dizer que não. Devia cortar isso por aqui. Mas, em vez disso, sorri de volta e apenas dei de ombros. A noite ainda tava só começando.
Lara me olhava daquele jeito, como se soubesse exatamente o que tava fazendo. Como se estivesse testando até onde eu iria. E o pior? Eu não sabia a resposta. Dei mais um gole na cerveja, sentindo o álcool começar a fazer efeito, relaxando os músculos e, talvez, deixando minha mente um pouco mais solta do que deveria.
— Depende — soltei, cruzando os braços e olhando diretamente pra ela. — Quer ser?
Ela riu baixo, balançando a cabeça devagar, como se já esperasse essa resposta.
— Eu acho que você já decidiu isso, Carlos. Só não quer admitir.
Aquela frase ficou no ar por alguns segundos. Eu podia levantar, pagar a conta e ir pra casa. Fingir que nada disso tava acontecendo. Mas a verdade? Eu não queria.
— Então me conta — mudei de assunto, tentando disfarçar um pouco — por que aceitou sair comigo?
Lara apoiou o queixo na mão, brincando com o copo na mesa.
— Curiosidade — disse, dando de ombros. — Você sempre foi o certinho da delegacia, o cara que faz tudo certo, que todo mundo respeita… Mas aí, de repente, começa a olhar pra mim diferente, começa a responder minhas brincadeiras. Fiquei curiosa pra ver até onde isso ia.
Ela me desafiava, e eu sentia isso a cada palavra.
— E até onde você quer que vá?
Lara sorriu de canto e se inclinou um pouco pra frente.
— Isso depende de você.
O jeito que ela falou fez um arrepio subir pela minha espinha. Minha mente gritava que aquilo era errado, mas meu corpo parecia estar ignorando qualquer aviso.
A verdade era que eu já tinha cruzado um limite ali. Só restava saber o que eu faria a partir de agora.
Eu tava curtindo a conversa, deixando a vibe levar, quando ouvi meu celular apitar na mesa. Peguei o aparelho sem pressa, mas assim que vi o nome da Fran na tela, alguma coisa dentro de mim gelou.
— Carlos, nossa filha tá m*l. Tô levando ela pro hospital.
Na hora, um peso bateu no meu peito. Nem pensei duas vezes, levantei rápido da cadeira, fazendo a cerveja na mesa balançar. Lara me olhou, surpresa.
— Que foi? — ela perguntou, franzindo a testa.
— Minha filha, mano… tá passando m*l, Fran tá levando ela pro hospital — falei já puxando a carteira do bolso.
Joguei minha parte do dinheiro na mesa e olhei pra Lara.
— Valeu pela companhia, mas tenho que ir.
Ela acenou com a cabeça, sem insistir, e eu saí do bar com o coração acelerado. Entrei no carro quase correndo, liguei o motor e arranquei, indo direto pro hospital. A única coisa que passava na minha cabeça agora era minha filha. Se tinha algo errado com ela, então todo o resto podia esperar.
O caminho até o hospital pareceu uma eternidade. Meu pé tava pesado no acelerador, mas minha cabeça tava ainda mais acelerada. Cada farol fechado era uma agonia, cada minuto parecia uma eternidade.
Quando finalmente cheguei, estacionei de qualquer jeito e saí do carro às pressas. Entrei no hospital varrendo o lugar com os olhos até encontrar Franciele sentada numa cadeira, com nossa filha deitada no colo dela.
Ela tava pálida, os olhos fechados, e aquilo me fez gelar por dentro.
— Fran! O que aconteceu? — perguntei, já me aproximando.
Ela levantou o olhar pra mim, preocupada.
— Ela começou a passar m*l do nada, reclamando de dor na barriga, dizendo que tava tonta… Eu não quis arriscar, trouxe logo.
Olhei pra nossa filha, passando a mão na testa dela. Ela tava quente.
— Já chamaram um médico?
— Já, mas ainda não atenderam.
Minha paciência já não existia. Eu levantei a cabeça e olhei pro balcão, onde umas enfermeiras estavam mexendo nos papéis. Me aproximei no impulso.
— Oi, minha filha tá passando m*l, a gente tá esperando atendimento, mas não dá pra esperar muito, não! — falei, tentando manter a calma, mas minha voz saiu firme.
A enfermeira levantou o olhar e suspirou.
— Senhor, temos outros pacientes na frente, mas vamos ver o que podemos fazer.
— "Ver o que podem fazer" não adianta, moça, eu quero um médico agora!
Franciele apareceu do meu lado e segurou meu braço.
— Carlos, calma… eles vão chamar…
Mas como eu ia ficar calmo? Minha filha tava ali, apagada no colo da mãe, e eu me sentia impotente. Respirei fundo, tentando me controlar, e voltei pra perto delas.
Minutos depois, chamaram o nome da nossa filha. Peguei ela no colo sem pensar duas vezes e segui a enfermeira, com Franciele logo atrás. Agora, nada mais importava. Eu só queria ter certeza de que minha menina ia ficar bem.