3- Carlos

1011 Palavras
Carlos Narrando Continuação: O expediente finalmente terminou, e, como de costume, me despedi dos colegas antes de sair. Foi um dia normal, até que, antes de eu ir embora, Lara se aproximou de mim. Ela estava sorrindo de um jeito meio misterioso, como se tivesse algo em mente. — Ei, Carlos, posso pegar seu número? — ela perguntou de uma forma descontraída, quase como se fosse algo natural, algo simples. Eu hesitei por um instante, mas a ideia de continuar aquela conversa fora do ambiente de trabalho me atraiu. Então, sem pensar muito, dei o meu número a ela. Ela me agradeceu, e, com um olhar que parecia prometer algo, me disse que logo entraria em contato. Saí do escritório e fui para casa. Quando cheguei, a casa estava silenciosa. Tirei as botinas e deixei meu corpo relaxar no sofá, sentindo o peso do dia se dissipando lentamente. Eu estava cansado, mas a mente ainda estava agitada, como se uma parte de mim estivesse esperando por algo. Não demorou muito para a Franciele aparecer, trazendo o prato de comida que ela havia preparado. Eu a vi se aproximando e, como sempre, tentei sorrir para ela. Ela me deu um beijo na testa e colocou a comida na mesa. Depois, se aproximou mais um pouco, me deu um beijo na boca, como costumava fazer. Mas algo estava diferente. Eu não senti o mesmo frio na barriga que costumava sentir antes, aquele sentimento quente que vinha sempre que ela se aproximava. Não foi como antes, quando seus beijos me faziam esquecer o mundo por um momento. Dessa vez, parecia apenas... vazio. Eu fiquei ali, com a sensação de que havia algo estranho no ar. Ela não percebeu, mas eu senti. Havia uma distância que eu não sabia explicar. Meu corpo estava com ela, mas a mente... a mente estava longe. Depois de comer, a Franciele ficou me olhando por um tempo, como se estivesse tentando entender se havia algo errado, mas ela não disse nada. Só fez umas perguntas sobre o trabalho, sobre o que aconteceu durante o dia, e eu respondi, tentando não dar muitos detalhes. Ela parecia preocupada, mas eu sabia que ela estava apenas tentando manter a conversa. No fundo, eu não queria contar nada, não queria dividir nada sobre o que estava se passando dentro de mim. Quando terminei de jantar, subi as escadas e passei pelo quarto da nossa filha. Ela estava dormindo profundamente, como sempre, com aquele rosto sereno que me fazia lembrar do quanto eu amava minha família. Me aproximei dela, dei um beijo suave na testa e fiquei ali por alguns segundos, observando, sentindo aquela paz que, por um momento, me fazia questionar o que estava fazendo. Depois, fui para o meu quarto tomar um banho. A água quente relaxou meu corpo, mas não minha mente. Me senti dividido, como se tudo o que estava acontecendo fosse algo fora do meu controle, algo que eu não soubesse como administrar. Pouco depois, a Franciele subiu, e eu a ouvi bater na porta do quarto. Ela entrou devagar, me olhando com aquela expressão preocupada que eu conhecia tão bem. — Carlos, tá tudo bem? — ela perguntou, a preocupação evidente na voz. — Você parece... diferente. Eu suspirei, cansado de tanto peso nas costas, e me virei para ela, tentando disfarçar o que estava sentindo. — Sim, Fran, tá tudo bem — respondi rápido, tentando evitar um longo papo. — Não precisa se preocupar, é só o cansaço do trabalho mesmo. Ela me olhou por um momento, como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas então apenas assentiu, aparentemente aliviada. Eu sabia que ela queria mais, mas eu também sabia que, se continuássemos, ela iria perceber que algo estava errado. Não queria isso. Não agora. Então, evitei prolongar a conversa e fui direto para a cama, tentando convencer a mim mesmo de que estava tudo certo. Ela ainda me observou por um instante, e a sensação de estar escondendo algo me fez sentir uma pontada de culpa, mas eu sabia que, se eu deixasse as coisas se arrastarem, isso só pioraria. Ela acabou aceitando minha resposta, e foi para a cama também, mas a noite foi silenciosa. Não aquela calma aconchegante que costumava nos envolver, mas um silêncio pesado, cheio de perguntas não ditas e uma distância que parecia aumentar a cada minuto. Deitei de costas, olhando para o teto, sem conseguir pegar no sono. O som da respiração de Franciele do meu lado parecia mais distante do que nunca. Eu sabia que ela estava ali, mas, ao mesmo tempo, me sentia tão desconectado dela. Me perguntava o que havia acontecido, por que as coisas estavam se esfriando. Mas, ao mesmo tempo, a ideia de Lara, da nova colega de trabalho, estava sempre rondando minha mente, como uma sombra que não me deixava em paz. Eu me virei de lado, tentando não fazer barulho, para não acordar Franciele. Senti um nó na garganta. Eu ainda amava a minha esposa, ainda queria uma vida ao lado dela, mas algo em mim estava mudando. Algo que eu não sabia como lidar. Olhei para o celular, e o número de Lara estava lá. Não sei o que me fez pegar o celular, mas era como se fosse inevitável. Encontrei seu nome na lista de contatos e, antes de pensar muito, mandei uma mensagem curta, só para dar um sinal de que eu estava disposto a seguir adiante, para ver o que aconteceria. — Oi, Lara. Vamos marcar aquele dia que a gente conversou? Após apertar "enviar", senti um arrepio. Era como se tivesse dado um passo sem volta. O que eu estava fazendo? Por que eu estava tão insatisfeito com o que tinha em casa? Mas, ao mesmo tempo, uma parte de mim estava ansiosa pela resposta dela. Deitei novamente, agora com o celular na mão, esperando que algo mudasse. Mas a única coisa que eu sabia com certeza era que a minha vida estava em um ponto de virada, e eu não sabia para onde ela iria me levar.
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