No carro o silêncio reinava absoluto até que o som de um telefone começou a soar. Era o de Ethan, provavelmente seu secretário que estava chamando. Ele colocou no viva-voz do carro.
Secretário – “Senhor, eu já providenciei o que pediu, deixei as coisas em seu apartamento”
Foi mais rápido do que ele imaginou, devia jogar a toalha para seu secretário. As coisas que ele falava provavelmente eram a respeito do contrato.
- Muito bem! Boa noite – Com isso ele desligou a ligação, se virando para a garota sentada ao lado dele falou –O nome dele é Urick. Ele é meu secretário, no futuro se precisar de alguma coisa peça a ele. As coisas que acordamos mais cedo devem estar prontas. Vamos à minha casa para que eu possa lhe passar o cartão com as chaves do carro e do apartamento, ou você tem que voltar para casa?
- Tudo bem, vamos logo resolver isso – Alyssa pensou em sua casa que apenas teria seu cachorro a esperando, talvez não devesse demorar.
Girando o volante Ethan fez o retorno e se dirigiu ao seu apartamento que ficava no outro lado da cidade. Chegaram ao local em poucos minutos, e desceram do carro no subsolo.
Ethan como o cavalheiro que era abriu a porta do carro para a jovem dama que lhe acompanhava. Tendo recebido educação aristocrática desde que era criança Alyssa não estranhou a mão que era estendida para ela, sua mãe até aplaudiria se visse essa cena.
Do caminho do carro até o elevador e deste até a porta do apartamento, a garota notou que o homem ao seu lado em momento algum deixou de sorrir; era assustador. Uma pessoa que era capaz de sorrir o tempo todo, ou era louco ou era um psicopata, a maior parte das vezes as duas coisas, o coringa era a comprovação disso.
Alyssa sentiu repentinamente o impulso de sair correndo dali. Ela era uma garota e mais importante que isso ela era uma fracote, se sentia como se estivesse entrando no covil de uma b***a, o sorriso constante do homem ao seu lado não ajudava a acalmar seus nervos.
Um click e a porta do apartamento se abriram. Ethan fez um sinal, esperando que a garota entrasse primeiro; vendo como ela estava nervosa ele sorriu levemente para acalmá-la, mas parece que gesto surtiu o efeito oposto.
Alyssa teve o ímpeto de correr, mas quando se virou acabou tropeçando-nos próprios pés e caindo. Por pura sorte caiu nos braços de Ethan, que não sabia se ria ou chorava com a falta de desenvoltura da garota.
- Você está bem? – Ele a viu assentindo com a cabeça, ajudando-a a se firmar a empurrou levemente para dentro do apartamento – Vamos entrar!
Tendo perdido a oportunidade de fugir Alyssa apenas pode se contentar em tentar esconder sua vergonha e se amaldiçoar por recuperar a noção de mundo em um momento totalmente inoportuno. Ethan indicou para ela o sofá da sala.
Era um apartamento bem bonito e grande. Do local em que estava Alyssa pode ver a escada que levava para o segundo andar, várias estantes de livros, um bar e notou que a cozinha era separada por um balcão de mármore e uma mesa de jantar. O sofá cinza no qual estava era muito confortável por sinal.
- Eu vou tomar um banho, fique à vontade! Tem suco na geladeira – Ethan falou enquanto ligava a televisão e colocava no canal de desenhos animados.
Alyssa observou enquanto Ethan saia da sala e tornou seu olhar para a televisão. Estava passando Scooby doo, seu desenho favorito. Ele colocou direto no canal de desenho, deve achar que ela é uma criança, mas não importa Alyssa nunca tentou manter uma imagem de adulta com ninguém e Ethan não seria a primeira pessoa.
A garota não se atreveu a andar pela casa, de modo que ficou obedientemente sentada no sofá vendo desenho. No quarto, Ethan se preparava para entrar no banho com vários pensamentos confusos rondando sua mente, entre eles a cena engraçada da menina tentando fugir, os olhos curiosos explorando o novo ambiente, a guarda alta para qualquer eventualidade. Ele não entendia bem, mas tudo naquela jovem lhe chamava atenção desde o momento em que viu o perfil dela naquele site.
Ethan já fora noivo, um relacionamento que não acabou muito bem, mas nem mesmo nessa época ele sentia um interesse tão grande na outra parte quanto o interesse que Alyssa despertava em sim. Ela parecia uma criança, às vezes ele via um filhote de gato, mas certamente era uma menina fofa. Ele pensava que como nunca teve família, talvez o desejo de ter alguém a quem proteger estivesse começando a aflorar. É isso a curiosidade dele vem do desejo de proteger, como um bichinho de estimação ou uma irmãzinha.
Debaixo do chuveiro Ethan sentiu seus músculos tensos finalmente relaxarem. Ele mesmo não sabia o quanto seu súbito interesse na garota estava lhe preocupando. Havia contratado Alyssa para ser sua confidente, uma amiga contratual pode-se assim dizer, mas não seria de todo r**m intitulá-la irmã de aluguel.
Saindo do banheiro com as roupas já postas e o cabelos loiros levemente úmidos, Ethan levou um tempo mexendo celular. Estava respondendo algumas mensagens de seu secretário e encaminhando alguns documentos. Quando finalmente se lembrara de sua pequena visitante na sala de estar, saiu do quarto rapidamente.
Para a sua surpresa quando chegou ao andar de baixo, não encontrou a menina. Ficou um pouco desesperado. Esquecera que estava lidando com uma garota de vinte anos, se sentia como se tivesse perdido uma criança. Sentimento meio estranho considerando que se conheceram apenas a algumas horas.
Andando de um lado para o outro na casa, só parou quando foi desligar a televisão e viu uma almofada se mexer. Se aproximando da montanha de almofadas do sofá e tirando uma por uma, encontrou um pequeno gato ruivo, dormindo tranquilamente. Quando tentou se aproximar para acordar a menina, acabou por sem querer chutar sua mochila.
Olhando para baixo viu duas caixas de remédios jogadas no chão ao lado de uma garrafa de água vazia. Essas coisas estavam dentro da mochila.
Examinando atentamente os remédios, notou que os dois eram tarja preta e as cápsulas estavam vazias. Com um pressentimento assustador, Ethan correu para pegar as chaves do carro, quando voltou para perto da garota e estava prestes a pegá-la no colo, viu dois pares de rubis lhe encarando.
- Desculpe por dormir – Alyssa falou se sentando no sofá e olhando para o homem meio pálido na sua frente – Eu peço que se possível, evite me tocar.
- Está tudo bem com você? – Ethan perguntou ignorando o que a garota havia dito.
- Sim, apenas um pouco de sono – Alyssa respondeu – Por que não estaria?
- Está falando mais que o normal – Ethan falou tentando se acalmar contando uma piada, por um momento ele acreditou... – O que são esses remédios?
Vendo as caixas nas mãos dele, a garota calmamente olhou para o chão e viu sua mochila chutada, pegou a garrafa jogada e os remédios que estavam com ele e os guardou. Não queria ter que se explicar, mas ao ver o olhar interrogativo nos olhos azuis soltou um pesado suspiro.
- Eu tenho que tomá-los todos os dias na hora certa – Falou um pouco esperando que aquela explicação bastasse. Na verdade, não bastava.
- Olho, eu não quero uma viciada! – Ethan falou encarando seriamente a menina que lhe encarou surpresa – Esses remédios são prejudiciais à saúde, você não deveria tomá-los! Venha, pegue suas coisas vou leve-la para casa.
- Espera! – Vendo que ele tinha entendido tudo errado Alyssa ficou exasperada. Não gostava de se explicar, no entanto teve medo de que essa pessoa, que claramente tinha um buraco no lugar de um cérebro acabasse lhe causando problemas – Tenho problemas com ansiedade e depressão. Não sou uma viciada. Estou em tratamento.
Ethan se virou e encarou a menina. Ela estava claramente desconfortável, como se tivesse acabado de lhe contar sobre algo bastante delicado, ele se sentiu um pouco culpado, mas quem poderia lhe criticar? Sua mãe cometeu suicídio quando ele era pequeno ao ficar viciada naqueles remédios!
- Você realmente não é viciada neles? – Perguntou ainda incerto.
- Eu tenho um horário rígido para tomá-los, além do mais eu odeio tomar remédio, ir ao hospital e coisas do gênero – Respondeu seriamente. Se não fosse por sua última tentativa de suicídio não estaria tomando aqueles remédios.
- Entendo – Parando para pensar um pouco, Ethan analisou a menina de cima a baixo atentamente. Mesmo com um segundo olhar ela não parecia uma pessoa que sofresse de depressão. Seu rosto era corado, sua pele bronzeada e seus olhos vividos e curiosos. Na visão dele ela não parecia alguém prestes a desistir da própria vida – Você faz acompanhamento? Tenho um amigo que é um excelente psicólogo!
Alyssa encarou aquele homem. Já contara mais do que deveria sobre a sua vida para ele. Esse homem lhe fez uma proposta absurda que aceitara, mas desde o começo parecia que ele queria uma boneca para brincar de casinha. Ele era muito estranho.
- Olha, eu faço acompanhamento psicólogo terapêutico e tudo isso – A garota falou suspirando – Eu não sei o motivo pelo qual você faz aquela proposta absurda, mas eu concordei com ela. Meu trabalho aqui é te ouvir e considerando que eu odeio falar mais do que três palavras em uma única frase, esse é meu emprego ideal. Então podemos mudar o foco de volta para você?
Ethan encarava a menina. O rosto infantil coberto de seriedade, agora lhe lembrava o rosto de uma mulher adulta. Ela lhe intrigava, embora não parecesse alguém que guardasse grandes segredos. Seu olhar se desviou para a mesa da sala de jantar. Os papeis que havia pedido ao seu secretário para preparar estavam lá. Se lembrou o motivo de ter começado tudo aquilo e não foi para conhecer a outra parte.
- Entendo tudo o que você diz – Falou caminhando até a mesa e pegando os papeis – Vamos por favor começar de novo!
- Você é o chefe – Ela respondeu dando de ombros – Vou te ouvir!
- Nesse caso....... sente-se por favor – Sentando-se no sofá ele indicou um local para a garota – Meu nome é Ethan Helder, espero que a partir de hoje possamos ter uma agradável relação contratual.
Colocou os papeis na frente da garota e sorriu para ela, indicando os locais no qual deveria assinar. Já haviam assinado um acordo de trabalho naquela manhã, agora ele passava para ela o que havia prometido. Um salário, um carro, uma casa. A vida de uma amante, mas sem s**o.