Ethan acordou se sentindo pesado e pouco dolorido, esperava não ter apanhado um resfriado na noite passada. Um focinho molhado roçava seu rosto, olhos pretos parecidos com duas pequenas azeitonas lhe encaravam com curiosidade, antes de mirarem para sua mão que lhe apoiava a se sentar. Antes que a pequena bola de pelos tivesse a chance de cravar seus pequeninos e afiados dentes, na carne macia de suas mãos Ethan se levanta rapidamente do sofá, quase tropeçando na mesa que tinha ao lado.
Olhando para a mesa no qual tinha tropeçado, viu um grupo de caixas, devidamente etiquetados com coisas como “manhã”, “tarde”, “noite”. Eram caixas de remédios, alguns ele já havia visto antes. Se lembrou da noite em seu apartamento e no qual ela o tinha confessado que fazia tratamento para a depressão. Vendo os remédios em cima da mesa, com várias notas escritas com “você tem que tomá-los”, presumiu que o que ela lhe tinha dito era verdade.
Falando em Alyssa, Ethan viu uma das portas na sala se abrindo e um cheiro tentador de ovos, bacon e bolo invadiu seu olfato. Vendo a menina vestida simplesmente com um vestido rosa florido e os cabelos vermelhos presos em uma trança lateral, levando as coisas que carregava para a mesa de jantar. Ela lhe encarou.
- Venha! Espero que você não seja vegano – Aquilo parecia ter sido uma piada.
Inconscientemente Ethan seguiu na direção da mesa e se sentou na ponta oposta. Perdido em seus pensamentos ele notou que a mesa estava posta com queijo, leite, pães, bolos e outras coisas. Parecia um banquete.
- Que horas você acordou? – Se viu perguntando.
- Eu tenho insônia, então normalmente não consigo dormir muito – Ela explicou descuidadamente – Então, agora podemos conversar sobre o motivo que te trouxe aqui ontem?
Ethan encarou a menina, sabia que mais cedo ou mais tarde seria abordado com a questão, no entanto esperava que fosse mais tarde. Queria desviar do assunto para a saúde dela, mas imaginou que talvez fosse algo do qual ela não gostasse de falar, resignado, ele deu um profundo suspiro e se preparou para responder à pergunta.
- Por que você tem tantos lembretes nos remédios? – Ethan tentou desviar da pergunta.
- Eu perguntei primeiro – Alyssa respondeu.
- Então responda primeiro – Ethan devolveu, se servindo um copo de suco.
-Eu não gosto de tomar os remédios – Ela respondeu dando um suspiro e fazendo uma careta de desgosto – E agora, me responda você!
- Ontem me encontrei com a minha antiga noiva – Ele começou a falar, soltando um suspiro com o olhar distante preso em um ponto qualquer da parede – Terminamos faz dois meses, mas ela ainda pensa que estamos juntos e que vamos nos casar.
- Oh – Alyssa o observou por um tempo antes de falar – Por que terminaram?
- ...O meu noivado com ela foi um acordo estipulado entre nossos pais, eu nunca quis me casar com ela – Ele respondeu se servindo uma xícara de café – Quando meus pais morreram, há dois anos, eu resolvi que não continuaria com aquilo. De alguma forma as coisas se arrastaram e os meus planos de terminar as coisas em termos amigáveis caíram por terra. Atualmente eu vivo em uma guerra fria comercial com o pai dela e ela não parece aceitar o término, já que fala para todo o nosso círculo social que ainda estamos juntos.
- Uau – Foi tudo que a garota conseguiu dizer –Bastava responder que não gostava dela. Mas não acho que foi apenas isso que te fez sair seja lá de onde você estava, para me visitar em meu humilde e distante lar. O que aconteceu nesse encontro de tão fatídico que te fez atravessar uma tempestade até aqui?
- Eu, na verdade, não queria voltar para o meu apartamento – Ethan respondeu abaixando a cabeça e encarando os ovos como uma criança que acabara de admitir que fizera algo errado.
O silêncio reinou entre eles até ser quebrado pelo barulho de cápsulas de remédio sendo abertas. Ethan olhou na direção da garota que parecia indiferente até franzir o cenho tomando os remédios.
-Fique o tempo que quiser – Ela falou se levantando – Vou ver se tem alguma roupa que sirva em você para que possa tomar um banho. Meu cachorro está adorando seu cheiro podre. Nem acredito que dormiu no meu sofá! Minha mãe vai me m***r.
- Posso te comprar um novo sofá se quiser e ... – Ethan não terminou de falar quando ouviu uma risada que parecia o tilintar de um pequeno sino. Ele olhou para a garota e ela estava sorrindo para si como se debochando dele. Ele engoliu as palavras na hora e abaixou a cabeça.
- Deve falar isso para minha mãe, o sofá é dela – Alyssa saiu da sala rindo. Ethan não suportou e riu também, mas ai se lembrou da noite passada, em que a jovem o deixou entrar sem receio algum e ficou carrancudo e se ele fosse algum tipo de a******r? Eles m*l se conheciam.
Assim que Alyssa voltou para sala segurando toalhas e um conjunto de roupas novas, Ethan abriu a boca, ao mesmo tempo que se dava conta que fora tapeado quanto as perguntas sobre os remédios.
- Você não deveria deixar um estranho entrar na sua casa no meio da noite! – Ethan começou a dar sermões e vendo isso Alyssa o interrompeu.
- Quem te deixou subir foi o porteiro não eu – A jovem se defendeu – E antes de qualquer coisa vá tomar um banho, que eu quero reviver o sofá da minha mãe.
Com isso dito Alyssa empurrou Ethan para o banheiro e bateu a porta na cara dele. Como o mais velho da relação Ethan se sentiu profundamente ferido e com o orgulho em cacos. Estava perdendo para uma garota que ainda não saíra de seus vinte anos.
Ele ainda estava cansado e confuso da noite passada, seria melhor tomar um banho e quando cheirou suas axilas ai que resolveu tomar banho mesmo.
Assim que Ethan abriu o chuveiro e teve o jato de água banhando suas costas ele embarcou em pensamentos profundos. Como o motivo de ele ter começado essa relação tão estranha com uma menina dez anos mais nova que ele.
Ele se lembra que só queria esquecer seus problemas e que estava deprimido no dia e bêbado, dizem que as piores coisas se faz quando se estar bêbado, seu amigo tinha estalado aquele maldito aplicativo de relacionamentos no seu celular e apenas por curiosidade ele entrou. Por sorte ou azar Alyssa foi a primeira pessoa que ele clicou e deu match. Ele não se arrepende de fazer o contrato com ela, só se pergunta o motivo de ter feito.
Ele demorou mais no banho do que o esperado, vestiu as roupas limpas dadas para si e quando saiu sem querer analisou a casa de Alyssa. Era um típico apartamento de classe média. Um corredor curto, três quartos de portas fechadas, uma sala e uma cozinha. Da qual ele viu a garota saindo com alguns bolinhos. A mesa de jantar no meio da sala ainda estava cheia de remédios.
Ele percebeu que ainda não sabia para que serviam os remédios, mas se lembrando da irritação da garota quando perguntou presumiu que não fosse algo do qual ela quisesse falar, o que o fez se sentir meio injusto pois ele abriu sua vida para ela.
Enquanto Ethan se perdia em pensamentos ele não notou a aproximação da garota que pegou a toalha de sua mão assim como suas roupas sujas.
- Meus pais voltam em três dias, você tem esse tempo se quiser ficar aqui e conversar mais. Vou colocar suas roupas para lavar. Tem bolinhos caso ainda esteja com fome.
Alyssa apontou para a mesa.
- Posso te fazer uma pergunta incomoda? – Ethan perguntou.
- Se você sabe que vai me incomodar por que ainda se preocupar em perguntar?
A resposta foi um pouco, na verdade bem rude, mas do pouco que conheceu de Alyssa já esperava.
- Pelo que lembro, no nosso acordo, estavam carro, casa e uma mesada para você, por que ainda não se mudou?
Alyssa olhou para Ethan como se ele fosse um i****a que fizesse perguntas obvias e tolas.
- Porque eu não quero – Ela respondeu.
Ethan ficou sem ter o que dizer e isso parecia acontecer com bastante freqüência perto de Alyssa que parecia não se importar e até se divertir com isso. Normalmente Ethan tinha uma fachada de arrogância e altivez, como se o mundo fosse uma mosca morta ao seus pés, hoje foi a primeira vez que demonstrou debilidade desde a morte de seus pais e para uma conhecida.
Bem, ele e Alyssa não poderiam se considerar mais completos estranhos.
- Como vamos levar nossa relação de agora em diante? – Ethan perguntou, ele abriu seus segredos mais íntimos para ela e disse um seu para ele. O que eles deveriam ser agora?
- Vamos seguir o contrato – Alyssa falou – E se alguém perguntar você é meu namorado.
Ela sorriu arteira como se fosse uma criança brincando com um carrinho novo.
- Então você é minha namorada? – Ethan perguntou incerto.
- Você é estranho.
Ethan encarou a garotinha ruiva a sua frente, talvez ele fosse estranho, mas ela era mais.
Os dois ficaram em silêncio até o celular de Ethan começar a tocar era seu secretário lhe perguntando aonde ele estava e se iria trabalhar naquele dia. Ele estava prestes a responder quando viu a imagem Alyssa brincando com o cachorro, os remédios na mesa, a casa visivelmente bagunçada, mas por algum motivo aquele ambiente lhe trouxe uma paz a muito tempo esquecida.
“- Vou tirar o dia de folga” – Respondeu e desligou o celular. A resposta chamou a atenção de Alyssa que lhe olhou com seus grandes olhos castanhos avermelhados com curiosidade.
- Esse lugar está uma bagunça, duvido que sua mãe tenha deixado a casa assim, dessa forma para compensar o sofá vou te ajudar a limpar a casa.
- Não é necessário – Alyssa negou de imediato – Eu só limpo a casa quando meus pais estão prestes a voltar e...
- Você não pode viver nesse chiqueiro por três dias! – Ethan bloqueou suas palavras antes que terminasse. – Venha! Vamos limpar essa bagunça.