Após uma breve caminhada, os lufanos entraram no castelo e dispersaram-se entre os corredores do castelo. Cedrico continuou seu caminho enquanto Catarine o seguia.
— Vai querer ficar com o pombo?
— Não mesmo, é nojento. — Diggory riu fraco.
— É sério isso?
— O que?
— A destemida Catarine Peterson tem medo de pássaros.
— Eu não tenho medo.
— Certo, então acaricia ele. — Levantou a gaiola.
— Ta. — Catarine aproximou sua mão da gaiola e respirou fundo — Ah, não dá!
— Eu disse. — O lufano gargalhou entrando na comunal da lufa-lufa.
— Isso não tem graça alguma, sabia?
— Para você! — Sorriu colocando a ave em cima de uma mesa e escrevendo seu nome na gaiola.
— Podemos treinar a transfiguração amanhã?
— Ah, claro... depois do café?
— Sim. — Ane fitou o rapaz por um breve momento, adorava como ele sempre parecia estar de bom humor.
— O que está olhando?
— Nada. — Encarou o pergaminho que estava na gaiola.
— Você mente muito m*l, senhorita Peterson.
— Como é?
— Se quer admirar minha beleza eu posso te dar uma foto, o que me diz? — Sorriu sarcástico a encarando.
— Você está muito convencido, Diggory. Acha mesmo que perco meu tempo te olhando?
— É o que está fazendo, não?
— Argh! O tio Amos te deixou muito mimado, sabia?
— Mimado? — Riu fraco — Papai só gosta de se exibir, sabe disso.
— Papai? — Ane riu — Não posso te levar a sério.
— Ao menos não tenho medo de pássaros. — Sentou-se no sofá.
— E do que você tem medo? — A garota jogou-se ao seu lado.
— Hum... altura.
— O que? Você jogava quadribol até o ano passado.
— Isso não significa que eu não tenho medo.
— Então por que participou mesmo assim?
— Meu pai sempre quis que eu participasse do time.
— Você deveria começar a tomar as suas próprias decisões, Diggory.
— Tipo?
— Não sei, o que você tem vontade de fazer?
— Não sei agora que me perguntou. — Encarou o teto pensativo — Subir no telhado do castelo.
— Algo que não te mate. — O rapaz riu fraco.
— É apenas uma vontade, não significa que eu vá fazer.
— Mas por que o telhado?
— A visão deve ser linda, Peterson. Imagina só o pôr do sol lá de cima.
— Tem razão.
Os lufanos ficaram em silêncio apenas encarando as chamas da lareira em sua frente, o inverno estava chegando, o vento frio fazia as árvores balançarem incansavelmente.
— Gostou da cerveja amanteigada?
— É bem mais doce do que eu pensava que seria e tem bem menos álcool.
— Acha mesmo que vão vender bebidas alcoólicas para adolescentes?
— Tenho que concordar, era mais legal quando éramos crianças e você não usava esse topete ridículo. — Sorriu maliciosa tentando irritar o colega.
— O que? As garotas gostam dele.
— Com certeza elas têm um péssimo gosto.
— Ah você não disse isso. — A encarou com uma expressão brincalhona.
— Claro que disse, e tenho razão.
— Retire o que disse!
— Nunca.
— Vamos, Ane! Não me faça te torturar.
— E o que vai fazer? Cortar meu cabelo?
— É uma ótima ideia, mas eu me lembro de nossas guerras. — Antes que Ane pudesse reagir, o rapaz a atacou fazendo cócegas.
— Cedrico, para. — A garota gargalhou.
— Retire o que disse.
— Não.
— Vamos, Ane. — O lufano não exitou até a garota estapear seu tórax.
— Diggory, está me machucando.
— Sério? Desculpa. — Afastou-se a encarando.
— Precisa ver a sua cara. — Gargalhou.
— Isso é trapaça.
— Mas funcionou.
— Você me bateu.
— Apenas me defendi. — Sorriu encarando o rapaz.
— Gostei do colar. — Sorriu analisando a pedra que parecia brilhar.
— Era da minha mãe.
— Era? Aconteceu algo com a tia Rose? — Catarine o encarou confusa, mas ignorou a situação.
— Não, ela está bem.
— Sempre gostei dessa pedra.
— E você sabe qual é? — O desafiou.
— Olho de tigre — respondeu convencido.
— É. — Encarou o rapaz que estava inclinado em cima de seu corpo encarando o colar — Diggory?
— O que?
— Afaste-se. — O empurrou com calma para longe de si.
— Te incomoda?
— O que?
— Ficar tão próximo assim? — Ajeitou-se ao seu lado.
— Não, só não gosto.
— Por que? — A encarou.
— Preciso de motivos? — Revirou os olhos — Só não quero ninguém em cima de mim.
— Não estou em cima.
— Estava sim.
— Não, eu só...
Os jovens foram interrompidos por outra lufana que descia as escadas com certa pressa. Cedrico encarou cada passo da loira que rapidamente saiu da comunal ignorando totalmente os colegas.
— Fecha a boca Romeu.
— Ah? — Diggory agitou a cabeça saindo de sua hipnose pela garota.
— Eu não sei nadar, se continuar babando assim vou acabar me afogando.
— Boba.
— É sério que ainda gosta da Violet?
— O que? Claro que não.
— Não é o que essa cara de bobo diz.
— Está ficando maluca, Peterson.
— Nenhum pouco, por que não fala com ela?
— E dizer o que?
— Querida Violet, estou desde o primeiro ano querendo saber o gosto dos teus lábios. Se o interesse for recíproco por favor me procure, Cedrico. — O rapaz a encarou e gargalhou.
— Não estou querendo um emprego, Ane.
— Então está realmente interessado?
— Sim. — Suspirou.
— Eu posso te ajudar com isso.
— E como você ajudaria?
— Com certeza eu sei mais sobre garotas e relacionamentos do que você.
— Por que acha isso?
— Eu já tive relacionamentos e nunca te vi com garotas.
— Porque não gosto de me expor.
— Vamos fingir que eu acredito.
— O que pode me ensinar que eu já não saiba? — Sorriu debochando e analisando a garota que logo levantou-se.
— Primeiro não sorria dessa maneira, é muito chato. — Cedrico ficou sério prestando atenção — Deve tratar ela com gentileza, ouvir o que tem a dizer sabe?
— Henry fazia isso?
— Não estamos falando sobre Henry. — Revirou os olhos — Não seja agressivo quando for tocá-la.
— Com tocar, você quer dizer?
— Encostar em seu corpo, normalmente os rapazes nos tratam com certa brutalidade.
— Eu não faço isso.
— Claro que deve fazer.
— Me ensina então.
— Certo... mexa em meu cabelo, quero ver como se sai. — Cedrico levantou-se e foi até a garota.
— Isso é estranho.
— Vamos logo, não tenho a noite toda. — O garoto riu fraco e aproximou-se mais ainda, com um pequeno gesto colocou uma de suas mechas atrás de sua orelha.
— Assim?
— Deixe sua mão mais leve, tente de novo, com mais gentileza.
— Certo. — Suspirou e levou a mão até seu rosto e o acariciou com calma, Ane encarou seus olhos e sentiu seu corpo arrepiar com o toque de seus dedos — Gosta disso?
— Sim.
Diggory levantou sua outra mão e continuou acariciando o rosto da morena, que estava gostando da situação. Mesmo que não admitisse, Catarine chamava sua atenção desde que eram crianças.
A garota encarava seus lábios que logo foram umedecidos, o rapaz estava fazendo o mesmo, sequer percebeu. Os jovens sabiam muito bem o que queriam, mas não admitiriam em voz alta.
— Chega. — Ane afastou-se tirando suas mãos de seu rosto.
— Como eu fui? — perguntou.
— Ótimo, para uma primeira lição — respondeu seca. — Eu vou me deitar.
— Não vai jantar?
— Estou sem fome.
— Não deveria dormir sem ao menos fazer uma refeição. — Chamou sua atenção enquanto a garota subia as escadas.
— E você não deveria cuidar da minha vida e aqui estamos. — Balançou os braços no ar e finalmente virou-se, desaparecendo completamente pelo corredor dos dormitórios.
Cedrico voltou para o sofá e novamente encarou as chamas na lareira. Sentia algo estranho, tocar Ane daquela maneira e a ver tão frágil havia deixado o rapaz contente, ele sabia que a garota que conheceu ainda estava ali, por baixo de toda aquela armadura.
— Está tudo bem? — perguntou Justino encarando o amigo enquanto jantavam.
— Sim, por que a pergunta?
— Estou há uns dois minutos te chamando e você não responde, está nessa órbita? — O loiro riu fraco e deu um gole em seu suco.
— Ah desculpe, só estava pensando algumas coisas.
— É importante?
— Nada demais.
— Fala sério, Diggory! Você não ficaria assim se não fosse algo importante. — O loiro suspirou e olhou em volta.
— Promete guardar segredo?
— Sim.
— Hoje mais cedo, eu estava no salão comunal com Catarine.
— E?
— Por um momento, quase nos beijamos.
— O que? Só pode estar brincando. — Justino encarou o amigo, sua expressão era de total surpresa — E depois?
— Depois ela parou.
— Como?
— Ela se afastou de mim.
— Sabe que ela estava com o Avery, não?
— Sim, e também não a vejo dessa maneira.
— Como não? Vocês viviam colados quando eram mais novos.
— Por isso mesmo, éramos crianças e ela continua sendo a mesma garotinha para mim.
— Deveriam tentar algo, quem sabe você não acalma a fera? — Riu fraco.
— Não a chame assim.
— Não estou mentindo.
— Bom, eu preciso ir. Ainda tenho monitoria, até mais tarde.
— Até.
O lufano caminhou lentamente pelos corredores do castelo, que pareciam estar mais frios do que nunca. Boa parte dos estudantes ainda estavam fazendo sua última refeição do dia, o que daria um ótimo tempo para o rapaz até o horário de sua monitoria.
— Acredita em mim, foi só um deslize que não significou nada.
— Como não? Vocês não transaram porque aparecemos antes. — Cedrico parou no corredor, não era de ouvir conversas mas essa em particular lhe interessava.
— Já disse meu amor, Susan foi apenas um acidente em nossa relação.
— Não me chame assim e saia da minha frente! — A garota esbravejou.
— Sabe que gosto de nós dois juntos. — Suspirou — Pode ao menos me dar um beijo de boa noite?
— Já disse que não, Avery.
— Não se faça de difícil, eu sei que você também quer. — Puxou a garota para seus braços.
— Me solta!
— Juro que vai ser legal. — Gargalhou tentando prender a garota contra a parede.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou Cedrico encarando o rapaz.
— Nada demais, estamos apenas nos divertindo.
— A senhorita não parece estar se divertindo, solte-a.
— Ah Diggory, você é um saco. — Afastou-se da garota — Sabia que é muita falta de educação atrapalhar a conversa alheia?
— Eu não ligo, vá para o salão principal antes que eu tire pontos de sua casa.
— Acha mesmo que eu me importo? Tire quantos pontos quiser, minha conversa com a Catarine ainda não acabou.
— Acabou sim. — Cedrico puxou a lufana para perto de si — Ela deve cumprir o castigo, temos que fazer a patrulha.
— Não sei o que as garotas vêem em você, sem ofensas, mas esse papo de bom moço não cola comigo. — Sorriu malicioso e logo caminhou para longe dos bruxos.
— Você está bem? — Cedrico encarou a garota que não dizia uma única palavra, apenas assentiu com a cabeça — Eu sinto muito. — O rapaz sequer a deixou falar e a envolveu em seus braços.
— Está tudo bem, não se preocupe. — Suspirou retribuindo o gesto.
— O que ele queria? — Acariciou seus cabelos ainda abraçados.
— Voltar o namoro que nunca tivemos — respondeu com desdém. — Obrigado por me defender.
— Só fiz minha obrigação. — Ane riu fraco e soltou o rapaz.
— Eu posso me defender sozinha, sabia?
— Eu sei, mas às vezes precisa de uma mãozinha.
— Onde estava indo?
— Temos monitoria daqui a pouco, vou esperar dar o horário. Por quê?
— Curiosidade — respondeu caminhando em direção às escadas.
— Onde vai?
— Quer vir comigo? — Parou de andar e o encarou com um olhar de curiosidade.
— Só se prometer que não vai fazer nenhuma azaração.
— Por que eu faria?
— É o que costuma fazer. — A acompanhou.
— Não é porque costumo fazer, que significa que eu vou fazer. Tipo você.
— O que tem?
— Sempre está de bom humor, ajudando os outros. Mas isso não significa que deva fazer com frequência. — Abriu uma porta e passou pela mesma.
— Onde quer chegar?
— Torre de astronomia, pensei que conhecesse.
— Conheço! Estou falando dessa conversa.
— Só estou dizendo que não precisa ser bonzinho a todo momento. — Apoiou-se no parapeito e suspirou encarando o céu.
— Não sou bonzinho sempre.
— Não? — Riu fraco — Qual a pior coisa que já fez, Diggory?
— Eu já ameacei um fantasma — respondeu debochado.
— Não vale, Murta já está morta.
— Achei que não lembrava.
— Eu estava apavorada, devo ter esquecido.
O loiro riu fraco e encarou o céu, podia se lembrar da primeira vez em que esteve na torre de astronomia com Catarine.
“...
— Cedrico! Eu achei um lugar incrível, vamos. — Correu subindo as escadas e o garoto a acompanhou.
— Espera, Ane!
— Vem rápido.
Logo que as crianças entraram na torre, Cedrico encarou o local e só conseguiu sussurrar um “uau" enquanto encarava as estrelas que mais pareciam vagalumes.
— Isso é lindo, Ane! Como encontrou?
— Eu vi alguns alunos do terceiro ano saírem dessa sala, resolvi descobrir o que era. — Apoiou-se no parapeito e sorriu.
— m*l posso esperar para poder ter essa aula.
— Cedrico! Esse pode ser nosso lugar secreto — disse Ane empolgada.
— Mas todos entram aqui, Ane.
— Eu sei, mas quando está vazio assim pode ser um lugar só nosso, podemos guardar nossos segredos com as estrelas.
— Parece maluquice.
— Confia em mim. — Suspirou encarando o amigo.
— Todos os nossos segredos?
— Sim, aqui será nosso porto seguro na escola."
— Diggory? Está nesse planeta?
— Ah? Sim.
— Ouviu o que falei?
— Não, desculpe.
— Para de se desculpar.
— Ah desculpe...
— Por Merlin! — Riu fraco.
— Lembra-se de quando encontrou essa torre?
— Não. — Encarou as árvores.
— Tem certeza ou é como quando comentei da Murta? — Sorriu malicioso.
— Tinha me esquecido do quão chato você pode ser. — Suspirou — Eu lembro.
— Por que insiste em dizer que não?
— Porque depois não foi uma boa época.
— Pode me contar o que houve. — Segurou sua mão com gentileza — Estamos no nosso lugar seguro.
— Não seja bobo, Diggory. — Sorriu fraco e acariciou a mão do garoto — Já sabe o que vai dizer a Violet?
— Não. — Analisou os movimentos da morena em sua mão.
— Podemos fazer um acordo, o que me diz?
— Que tipo de acordo?
— Você me ajuda com as matérias e eu com a Violet.
— É interessante, mas não acredito que possa me ajudar. — Sorriu tímido.
— Como não? Eu sou ótima com as pessoas. — O loiro gargalhou.
— Piada essa hora, senhorita Peterson?
— Vá se ferrar, Diggory.
— Calma, Ane. Estou brincando.
— Vamos logo, temos monitoria.
(...)
Alguns dias se passaram, mesmo Cedrico dizendo que não queria ajuda para falar com a senhorita O'brien, Catarine estava determinada a ajudar o colega e logo colocou seu plano em prática.
— Oi Violet. — Aproximou-se ao seu lado encarando o jardim.
— Ah, oi Cat. — Sorriu.
— O que está fazendo?
— Alguns exercícios de herbologia, essa matéria é um caos para mim.
— Sério? Por que não troca?
— Infelizmente preciso dela no meu currículo, se quero estudar medibruxaria. — Suspirou encarando suas anotações.
— Deveria pedir ajuda a alguém — sugeriu Catarine enquanto analisava Cedrico brincar com os amigos no jardim, a luz do sol o deixava ainda mais atraente.
— Conhece alguém?
— O Diggory está me ajudando com algumas matérias, pergunte se ele pode te ajudar também.
— Acha mesmo que ele ajudaria?
— É do Cedrico que estamos falando.
— Não vai ser estranho? Acho que só nos falamos umas duas vezes.
— Claro que não! Fale com ele.
— Certo. — Guardou suas coisas e saiu para o jardim — Com licença, rapazes. Cedrico posso falar com você?
— Ah, claro. — A encarou confuso, mas a seguiu para perto de alguns arbustos.
— Eu sei que pode parecer estranho já que nunca nos falamos antes. — Sorriu tímida — Mas eu queria saber se pode me ajudar com herbologia? Me falaram que está ajudando Catarine.
— Ah é claro! Podemos nos encontrar mais tarde na biblioteca.
— Claro! Muito obrigado mesmo. — Sorriu deixando o rapaz sozinho.
O lufano caminhou em direção aos colegas, mas de longe avistou a morena o encarando e sorrindo, ele apenas retribuiu, sabia muito bem que Violet ir pedir ajuda não foi apenas coincidência.