Capítulo 3

1354 Palavras
Ana Era fim de tarde. Meus pais haviam saído para fazer missão em uma igreja na cidade e eu estava sozinha. Estava cozinhando, quando notei que estávamos sem sal. É, não teria jeito, eu tinha que ir comprar. Tudo, menos comida sem sal. Troquei rapidamente de roupa, pois a que estava usando não era exatamente adequada. Short e camiseta. E coloquei um vestido de mangas, em decotes, que ia até abaixo do joelho. Calcei as sandálias, peguei o dinheiro que o papai deixava para emergências num pote de vidro em cima da geladeira, quando saía, e a chave para poder sair. Como eu já imaginava, muitas pessoas, especialmente as meninas, aquelas que estavam sempre de shortinho curto e cropped, me olhavam de cima a baixo com aquele olhar de desdém que eu já estava acostumada. Sim, era costume me olharem assim. As pessoas, em sua maioria, julgavam uns aos outros por qualquer coisa, inclusive, pela forma como se vestiam ou se portavam. Avistei um bar. E ao longe, tive a impressão de ver uma prateleira com sal e outras especiarias atrás do balcão. Cortei caminho, caminhando até ela. — Ei, gatinha — uma voz masculina tentou chamar minha atenção, mas eu permaneci seguindo em direção ao meu destino — Ah, não faz assim. Não se faz de difícil, só deixa tudo mais instigante, gatinha. Continuei o ignorando, até que quem quer que fosse, parou ao meu lado e segurou meu braço. Foi inevitável não o olhar. Era um daqueles caras que certamente faziam parte do movimento no morro. A arma atravessada em suas costas o denunciava. — Por favor, você pode me soltar? — pedi gentilmente. — Mas estamos nos divertindo, coisa linda. — ele ria, parecendo gostar do que estava fazendo. — É sério, por favor, eu só quero comprar o que preciso e ir embora. — tentei tirar sua mão do meu braço, mas ele não permitiu. — Aê, CK! — o som da voz de outro rapaz me fez olhar para o lado. Era o mesmo que eu havia ajudado no dia anterior na igreja — Solta ela, pô. — O quê? Ela é tua? — Não. Mas ela não é daqui, tá ligado não? Não tá acostumada com as coisas da área. — Se não tá acostumada, mas é moradora, é bom se acostumar. Se mete não, pô. Tu nem faz parte do movimento, tu só conta dinheiro, nada mais. É nós que sabe das regras da favela, eu que sou morador que tô ligado. — Mas não é assim que as coisas se resolvem, CK. — Tu vai se mandar daqui e deixar eu me resolver com a mina, ou eu vou ter que fazer do meu jeito? — me assustei ao perceber que o homem pôs a mão na parte de trás da bermuda, e eu tinha certeza de que pegaria uma arma. Não estava errada. Foi exatamente o que ele fez. E apontou para o outro. Eu estremeci de medo. — Calma, CK, não precisa ser assim. — ele falou, erguendo as mãos em sinal de rendição. — Calma o c*****o, mermão! Tu quer se meter onde não deve. Vai acabar acordando com a boca cheia de formiga, p***a! Notei que o rapaz que eu havia ajudado estava olhando muito para a arma, e quando menos esperei, ele foi para cima do homem que me segurava, agarrou a arma, tentando tirá-la da mão dele. Me desesperei. — Parem, pelo amor de Deus! — sem saber como reagir, acabei gritando, sentindo as lágrimas querendo inundar meus olhos. Eles não se importaram com minha súplica. O homem me soltou e os dois começaram uma luta corporal. — Vem comigo, menina — um senhor de meia-idade, que eu acreditava ser o dono do bar, me puxou com delicadeza — Essas confusões nunca acabam bem. Eu não disse nada. Estava assustada demais para isso. Foi quando estava já atrás do balcão, que o som de um disparo ecoou em meus ouvidos e me assustei ainda mais. Outro. Mais outro. Mais outro. A única coisa em que eu pensava era no rapaz que tentou me ajudar. Será que tinha sido ele o alvo? Esperava muito que não. (...) A confusão durou um bom tempo. Os caras que estavam no bar, que provavelmente também faziam parte do movimento, foram para cima do rapaz que tentou me ajudar, e foi tiro para tudo quanto é lado. Eu nunca havia presenciado isso, então foi apavorante, mas já que estava morando aqui agora, precisava me acostumar. Ainda escondida e protegida dentro do bar, vi o rapaz sendo levado dali pelos outros bandidos, com um deles apontando uma arma para a cabeça dele. Aquilo me apavorou e me fez sentir culpada, porque ele não tinha feito nada, era inocente, só estava tentando me ajudar. Eu precisava dar um jeito nisso. — Acho que já acabou. É melhor eu ir, antes que aconteça alguma coisa novamente — falei com o dono do bar, me levantando, porque estava agachada para evitar levar uma bala perdida — Obrigada. — Mesmo nervosa, sorri para ele. — Não há de quê, menina. Antes de sair do bar, que já estava vazio, e não somente ele, as ruas também, provavelmente, ao ouvir o barulho de tiros, os moradores correram para suas casas, me certifiquei que o lugar estava seguro e só então caminhei para fora. Ao chegar em casa, esperei meus pais chegarem ansiosa. Precisava conversar com eles, quer dizer, com o papai especificamente. Ele tinha que dar um jeito de ajudar aquele rapaz. Terminei a comida e aguardei eles chegarem, porque tínhamos o costume de fazer as refeições sempre em família, era algo que meus pais prezavam muito e me ensinaram a amar. — Soubemos que houve uma comoção hoje mais cedo em um bar. — estávamos sentados à mesa, comendo, quando papai falou. — Sim, pai. E eu estava lá. — Como assim? — os dois falaram ao mesmo tempo, horrorizados. — Eu queria mesmo falar sobre isso com vocês. Ontem, quando eu estava limpando a igreja, eu ajudei um rapaz aqui da comunidade, ele estava com o pé machucado. — Você o quê? — mamãe perguntou, alterada. — Calma, mãe. — Não queremos você envolvida com esse tipo de pessoa, minha filha. — papai disse. — Pai, mas não é justamente isso que viemos fazer aqui? Temos que abraçar essas pessoas, ou nunca poderemos alcançá-las. — argumentei. — Mas, Ana… — mamãe iria falar, mas o papai o interrompeu. — Deixa ela terminar de falar, Amelia. Mesmo contrariada, ela respirou fundo e se calou. — Hoje, quando vocês saíram, eu precisei ir comprar sal, e lá um desses caras aqui tentaram mexer comigo — percebi que, mesmo calados, os dois ficaram tensos — E esse rapaz que eu ajudei, estava lá, e tentou me ajudar, mas a coisa ficou feia, e acabou em morte. O que tentou me ajudar atirou no outro e ele foi levado pelos outros, provavelmente para ser punido. Não sei bem como funcionam as coisas aqui, mas acredito que seja isso. Só que estou me sentindo culpada, ele vai pagar por algo que fez em legítima defesa, e principalmente, por tentar me defender. Queria que você o ajudasse, pai. — Filha, acabamos de chegar aqui, como você mesma disse, não sabemos como as coisas funcionam. Isso pode acabar m*l para nós. Não sei se é uma boa ideia tentar interferir nisso. Eu teria que falar com a pessoa que comanda esse lugar… — Pai, por favor… O senhor acha justo a situação em que aquele rapaz foi colocado por minha causa? Além disso, pelo que entendi, ele nem é morador daqui. — Tudo bem — ele disse após respirar fundo — Verei o que posso fazer. — Obrigada, pai. Pela expressão no rosto da mamãe, eu sabia que ela não tinha gostado nem um pouco disso, mas ela nunca ia contra as decisões dele, por mais que não concordasse. Eu estava muito aflita por tudo o que tinha acontecido, mas ao mesmo tempo, esperançosa. Tinha fé em Deus que o papai conseguiria livrar aquele rapaz dessa.
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