O Allogaj dormiu e acordou depois de três horas, ainda sentia sono, o seu corpo amanheceu mais pesado que o normal. Ele saiu do quarto diretamente para o andar de baixo e os guardas, que interagiam entre si e bebiam vinho, aguardavam-no.
A Infanta Sebbeka, e curiosamente, dona e recepcionista da pousada, ordenou que eles tirassem aquele tempo para relaxar, se bem que eles nem faziam nada demais naquela cidade pacata e isolada do resto do mundo.
Cesar estava vestido com uma simples túnica branca de linho fino e um manto qual envolvia a cabeça e deixava o rosto à mostra. Indumentária comum da cidade, porém, para a nobreza.
O Oficial disse algumas coisas para ele que entendeu que já estava na hora de saíram. A anfitriã, Infanta Sebbeka, estava no balcão da recepção a limpar e guardar os copos quais os guardas haviam bebido vinho, apenas acenou para Cesar alegremente, como se fosse um "adeus".
O rapaz foi conduzido até uma carruagem. Os seus pertences estavam lá dentro, ele seria levado para o Templo. Passaram por um palácio que era a maior e mais bela residência da cidade, provavelmente da realeza.
Assim que chegou, depois de vários minutos, pois, o Templo ficava literalmente no fim da cidade, Cesar pôde ver a arquitetura de perto, era uma enorme Basílica de três andares com três torres que pareciam cogumelos em todos os detalhes, porém, mais simétricos, dois de cada lado da Basílica e um maior atrás. Tudo era branco, como se fosse feito de gesso.
— Gente, que formato estranho — Cesar comentou sobre as torres ao sair do transporte.
Ele estava numa área na frente para o Templo com um monumento de ouro no meio, eram três humanóides face a face a fecharem um círculo ao encostarem as palmas das suas mãos, depois estava a escadaria para o Templo que tinha quatro colunas na entrada.
De repente, o dragão de outrora pousou ao seu lado a levantar muita poeira e fazer as roupas se debaterem nos corpos.
— Sim, parecem genitais masculinos, mas eram para se parecerem com cogumelos, apesar de muitas culturas usarem a imagem do cogumelo para representarem o falo, contudo, este é um local sacro, o falo foi obra dos divinos, mas o seu uso imoral é repugnado — disse o dragão Tianlong.
— Nossa! Você ouviu o meu comentário — falou Cesar, ele percebeu que o dragão fez um sinal para os guardas que fizeram uma reverência e foram embora.
— Tenho os meus sentidos muito aguçados e posso me concentrar para ouvir aquilo que quero ouvir em específico. Venha comigo, jovem — Tianlong caminhou lentamente para que Cesar pudesse acompanhá-lo, não dava para ser montado como um cavalo no momento, as suas escamas eram eriçadas nas costas, formavam a sua crina que começavam com chifres da mesma cor na cabeça, eram inclinados na diagonal e começava do maior para o menor, até à nuca, daí começavam as escamas que chegavam até à cauda, no lugar de pelos haviam pequenos espinhos.
— Não entendo. Você é um animal mágico, como pode continuar mágico aqui? — questionou Cesar.
— Sim, sou um animal mágico, mas não continuo mágico. O fogo que eu posso expelir pela minha minha boca se realiza devido à magia, aqui não posso fazer isto — respondeu Tianlong. — Contudo, a minha capacidade de falar e reproduzir a linguagem acontece porque nós dragões somos criaturas muito inteligentes.
— Quantos dragões existem neste mundo?
— Eu sou o último, nesse caso, o único. Muitos de nós existíamos há centenas de anos, mas aí o humano mágico criou o **-de-lichia-de-dragão para poder nos controlar. Dragões são répteis com capacidade de pensar e raciocinar como humanos, o ** nos deixava hipnotizados e extremamente subordinados, os répteis comuns ficavam desvairados e incontroláveis. O que ainda não sabiam era que lichia-de-dragão tornava os répteis estéreis, a reprodução das espécies caiu drasticamente, até mesmo os que foram chocados recentemente já nasceram sem a capacidade de reprodução, foi o que causou a extinção.
— Sinto muito.
— É bom que sinta, apesar de não ter culpa, você é homem e está sujeito a pecar como os seus ancestrais ou semelhantes.
Subiram às escadas e agora estavam no salão vazio da Basílica, tudo era tão branco. Tianlong levou o Cesar para se sentar num canto, em uma das doze alas com acentos ao redor da sala redonda. O rapaz começou a falar.
— Interessante como alguns animais podem fazer magia, mas não podem fazer como os humanos, e quando um, raramente, consegue, causa perturbação na magia e faz com que se tornem parte dela.
— Animacaes, sim, são criaturas complexas, por isto, renegadas pelas criaturas mágicas. Tudo o que é complexo, ou não-convencional, é renegado neste mundo, e já que tocou no assunto sobre magia humana, saiba que os humanos não criaram feitiços, eles se inspiraram nas criaturas mágicas. Cada uma tem a sua peculiaridade, ainda assim, tem propriedades que até hoje tentam reproduzir, como a Miracuro Radix, planta cuja raiz pode produzir uma seiva capaz de curar a qualquer enfermidade que surgir por meio da magia.
— Como assim? Algumas doenças são obras da magia?
— Sim, apenas os feiticeiros das trevas têm a capacidade de enfeitiçar a alguém com doenças. Nem todos a desenvolve, apenas aqueles que carregam muito ódio em seu coração.
— Muito triste. Mas ainda quero saber sobre Animacaes. Eu li um livro falando sobre eles uma vez, mas não entendi o porquê de um elemento da natureza se tornar a sua principal característica.
— Vou explicar-te do começo, Rasec, resumidamente: segundo relatos passados de geração para geração, o Inatingível Sempar derivou os Únicos quais chamamos de Onipotentes, eles derivaram o Cosmos e o Universo, que derivou o Tempo que derivou Destino. O Universo ainda derivou o Espaço que derivou os Mundos. Também, o Universo derivou a Gravidade que derivou as Magias, Luz que derivou luzes e Treva que derivou trevas, mas as Magias, primordialmente, derivaram os Seres Elementais. A Magia das Trevas derivou o Elemental do Fogo e do Ar, a Magia das Luzes derivou o Elemental da Terra e da Água. Os Elementais, ao criarem o Coração de Noldá, responsabilizaram-se pelo equilíbrio do Mundo, atomicamente falando. Quando um animal mágico faz magia qual apenas humanos tem a capacidade, a depender da magia, um Elemental transforma o seu corpo para que a magia não o reconheça mais, contudo, são empoderados. Por isso um Animacae n******e ser morto, apenas destruído, e quando isso acontece, ainda assim, o seu espírito pode hospedar-se no corpo de alguém como uma simbiose e retornar à sua forma e poder originais.
— Agora tudo faz sentido. Por que os livros didáticos não são tão simples de entender? Não precisa responder — disse Cesar de antemão. — Foi uma pegunta retórica. Eu quero saber mesmo é sobre esses Elementais. Cadê eles?
— Os Elementais não são desta dimensão. Eles só aparecem quando há algum desequilíbrio no mundo, como no caso dos Animacaes. Também, se houver grande desequilíbrio, eles aparecem para começar o processo de reinício.
— Eita! Eles quem reiniciam o mundo? Não são as Esferas do Reinício?
— Eles controlam estas esferas. Elas contém a Essência do Espaço e do Tempo, a mesma que pode gerar um mundo pode destruí-lo.
— A cada dia que passa fica mais difícil entender este lugar.
Cesar conversou com Tianlong por horas até anoitecer. Ele era um dragão sábio, pois, tinha quase três mil anos.
Cesar não tinha permissão para subir ao segundo andar, era onde ficavam os sacerdotes e aprendizes. No terceiro andar apenas o Sumo-Sacerdote podia entrar.
Às sete horas, o pessoa da cidade se reunião no salão do Templo para cantar hinos, todos estavam de roupas brancas e o coral fazia as estruturas se abalarem. Todos e todas ficaram ao redor de um espaço circular no centro cujo piso tinha um desenho de uma estrela de doze pontas.
O dragão continuou ali, ao lado de Cesar, não o deixou sozinho nem por um instante. Assim que iniciaram um cântico mais baixo, Cesar aproveitou para falar:
— Tianlong, por que você está aqui?
— Nesta cidade? A minha espécie é conhecida como Dragões Divinos, eu fui o único que escapei da extinção graças aos Trealtas, quando vi e ouvi uma Luz a dizer que eu precisava proteger um lugar onde a magia não se realizava, mas o perigo era real. Eu aceitei e cá estou, há muitos anos protegendo pessoas comuns do perigo.
— Que maravilha! Eu ainda preciso saber a fundo o que é esta Luz.
— Ninguém pode explicar a Luz, ela é o que é, energia, matéria, vida. Tudo começou com a Luz, e tudo se terminará com ela.
O rapaz decidiu não mais falar sobre aquilo, o assunto ficou complexo demais e ele gostava de ouvir respostas objetivas, justamente porque queria parar de perguntar. Ele perguntaria a outra pessoa e juntaria todas as informações para chegar a uma conclusão mais tarde.
Em poucos minutos, o Sumo-Sacerdote, e os sacerdotes e discípulos, entraram no salão, Talita estava ao lado dele, agora, vestida com trajes semelhantes. Pararam bem no centro, em cima da estrela de doze pontas.
Os cânticos foram interrompidos para que ele pudesse dar uma saudação, a que poderia causar perturbação em todos e todas que aguardavam ansiosos o Novo Escolhido ser apresentado. Nesse caso, a nova Escolhida.
O Sumo-Sacerdote revelou que o primeiro de sua classe na verdade foi uma mulher, que a História omitia essa informação por causa do androcentrismo vigente e que não se abalassem nem se escandalizassem por Talita ter sido Escolhida para ser a Suma-Sacerdotisa, o mundo estava mudando e tudo mudaria com ele.
Foi um discurso deslumbrante. Aquelas palavras daquele homem ancião convenceria a qualquer pessoa sobre Talita, e nem parecia se esforçar tanto.
No final, às nove horas da noite, o pessoal foi embora e Cesar continuou ali, ao lado do dragão e se sentiu privilegiado quando o Sumo-Sacerdote e Talita andaram em direção a ele.
— Oi, Rasec, como está? — perguntou Talita.
— Estou bem — Cesar sorriu para ela, depois a analisou dos pés à cabeça. — Já vai ocupar o cargo?
— Ainda não, amanhã faremos a cerimônia na Montanha do Ritual. Somente os sacerdotes e os aprendizes poderão participar. Pena que você não poderá estar lá para me ver.
— Pena mesmo, mas estou feliz por você, d****o que seja a melhor que já tiveram.
— E eu não poderia desejar uma pessoa melhor para passar este momento comigo, eu agradeço muito pela sua companhia. Acredito que, pelo menos, bons amigos seremos.
— Isto é um adeus?
— Não necessariamente, a gente ainda vai se ver muito, só não sei quando. Temos uma coisa para você — Talita olhou para o ancião que entendeu a sua expressão e retirou da manga longa da túnica uma esfera de vidro, um ** dourado e refinado se movia lá dentro como se tivesse misturado com a água, em seguida, Talita o entregou o pequeno rolo dourado que o Imediato Merkírio os concedeu como permissão para atravessar Fronteiras. — Nesta esfera contém uma parte do Coração de Noldá, você deve entregar para Nabyla, o dia da desmagnificação está próximo, toda ajuda será necessária, Kanahlic n******e reinar por mais nenhum período.
— Devo ir agora?
— Agora não, está de noite, é perigoso. Você vai descansar e se abastecer para amanhã de manhã poder partir, você vai dormir aqui. Infelizmente, eu não posso te acompanhar, meu lugar é lá em cima agora. Amanhã, creio que será um dia agitado para nós dois.
Cesar pegou os objetos, os guardou na bolsa e fez uma reverência para cumprir com as formalidades, agora, Talita seria a maior autoridade do mundo mágico e aprenderia tudo o que fosse necessário, mas ela o abraçou informalmente, um abraço bem apertado.
— Não chora — falou Cesar a brincar.
— Você já me conhece, não é? — Talita o soltou a secar as lágrimas, depois sorriu. — Manda um abraço para as meninas, diga que eu vou sentir muitas saudades, menos para Tainara.
Cesar deu risadas.
— Pode deixar.
Por fim, o ancião chamou Talita para ir, ela ainda era jovem e tinha muito o que aprender e muito o que fazer. Cesar também.
O Allogaj foi levado para uma das torres cogumelo para um quarto onde dormiria, mas ainda estava cedo para ele, então ele desceu às escadas em espiral e se deparou com Tianlong.
— Ainda cedo, não é? — disse o dragão.
— Sim — respondeu Cesar. — Também, eu dormi um pouco de tarde, vou ficar um tempinho sem sono — ele olhou ao redor, as lamparinas das ruas foram acesas. — Este lugar transmite muita paz, a energia daqui é muito forte, tanto que me arranca I fôlego.
— Este Templo é onde os Trealtas se manifestam, eu entendo o que está sentindo — falou o dragão.
Cesar lembrou-se da esfera de vidro.
— Mas, o que de fato é o Coração de Noldá?
— Cesar, para quê serve um coração?
— Bombear sangue para o corpo.
— E se ele parar de bombear?
— O sangue coagula e o corpo morre... Ah! Minha nossa, o mundo é um organismo vivo? Ouvi isso uma vez e fiquei conturbado.
— Todos os mundos são vivos. Todos os mundos possuem um Núcleo qual chamamos de Coração. Neste mundo, o Coração libera através de uma cratera este "sangue" que mantém a tudo vivo.
— Pensei que fosse outra coisa.
— Tudo contribui para que o mundo não morra, como um organismo, não só o coração o mantém vivo, mas o sangue, o cérebro, os pulmões etc. É um sistema.
— Entendi. Que perfeito! Nunca tinha aprendido tanto com uma pessoa como estou aprendendo agora com um dragão.
— Para ser sincero, Rasec, estas coisas eu apenas revelei para você, jamais compartilhe com ninguém, a não ser que você sinta, como eu estou sentindo agora. Você é muito especial, a Luz te acompanha por um motivo.
— Eu não sei o que tenho de tão especial, eu sou tão comum.
— Eis aí um dos motivos, a sua humildade, mas creia, você não é tão comum quanto pensa.
Cesar acanhou-se, não gostava de falar de si próprio, então mudou de assunto.
— É verdade que aqui neste Templo há um portal interplanetário?
— Sim, não apenas interplanetário como também interdimensional, o Coração é o que tem este poder. Todos os Corações têm.
— Oi? Todo os Corações? Como assim?
— Rasec, você tem um dom — afirmou o dragão, já haviam falado sobre isso antes.
— Sim, o da Projeção Astral — falou Cesar.
— Ele está aperfeiçoado. Você pode ir para o passado, ou para o futuro se se concentrar bastante.
— Exatamente.
— Um conselho, vá para o seu quarto, sente-se na sua cama e medite, use o seu dom e tente ir para o passado deste mundo, o mais longe que você puder ir, eu sei que você aguentará. Aproveite este lugar e convide a Luz e peça para que ela te mostrar os Corações. Creio que você entenderá tudo.
Tianlong não esperou Cesar responder, bateu as asas e voou, Cesar deu de ombros, mas foi imediatamente para o quarto fazer tudo como o dragão mandou, precisava saber.
***
O quarto de Cesar era iluminado por meio de duas taças de vidro muito grandes, a sua parte superior tinha forma de bulbo e era tampada. Continha uma substância química que quando era agitada reduzia como uma lâmpada.
Cesar sentou-se na sua cama, na outra extremidade da cabeceira, e fechou os olhos. Estava a se concentrar para poder se projetar de maneira astral.
— Luz, por favor, me mostre a origem dos Corações — Cesar abriu os olhos e tudo estava normal e silencioso, mas sentiu algo diferente, quando olhou para trás, viu o seu corpo caído na cama, a sua alma havia se projetado, tanto que ele olhou para os seus braços e os viu em aspecto fantasmagórico. — Nossa! Foi rápido. Mas por que não está tudo azulado? Isso só acontece quando eu vou...
Inesperadamente, um esfera de luz branca e fumegante entrou no seu quarto pela janela e parou bem de frente para ele.
— Olá, Cesar — disse a Luz, tinha voz grossa, porém, feminina, diferente da voz qual ele ouviu pala primeira vez. — Ouvi você me chamar e aqui estou eu.
— Uau! A sua voz está diferente de quando eu te vi pela primeira vez.
— Eu sou a Luz, eu sou as Luzes, eu sou muitas, eu sou uma. Minha complexidade pode te confundir.
— Eu já entendi — Cesar maravilhou-se por conversar com a Luz daquela maneira, do jeito que falavam dela era como se ela fosse uma deusa.
Ele se levantou devagar e se aproximou, estendeu a mão para tocá-la, mas quando chegou perto a sua matéria começou a vibrar tão rápido que parecia que iria se desfazer.
— Eu não posso ser tocada — disse a esfera de luz.
— O que você é, uma deusa? — Cesar admirava aquele ser de uma maneira que não podia esconder.
— Não, os Trealtas são os deuses, eu sou a sua criação e derivei a Magia das Luzes. Eu sou a fonte do poder, do seu poder. Diga-me, por que me chamou? O que quer comigo neste lugar sagrado?
— Primeiro, como devo te chamar? Você tem nome?
— Pude me chamar de Lumi — respondeu a esfera.
— Então, Dona Lumi, eu gostaria de saber sobre os Corações deste mundo que são responsáveis pelos portais interplanetários. Pode me levar para o momento exato do passado onde encontrarei a minha resposta?
— Quem te instruiu a fazer isto? Foi o dragão divino?
Cesar jamais imaginou que aquele ser pudesse fazer uma pergunta daquelas? Era como se tivesse sentimentos e emoções.
— Sim, Tianlong.
— Está ciente de que estas informações são restritas? Você teria que ter, no mínimo, o penúltimo grau de magia para conhecê-las. Concorda em fazer um Pacto de Sigilo?
— Sim — o ar ao redor de Cesar vibrou de maneira forte e efêmera. — Opa! — mesmo na forma astral, ele sentiu uma leve tontura.
— Está feito — disse Lumi. — Venha comigo.
A esfera atravessou a parede e saiu do quarto, Cesar foi atrás, não por v*****e própria, mas a Luz o controlava. Ele flutuou pela troposfera como um jato e chegaram a um lugar acima do mar, de frente para a terra. Sem esperar, o mundo começou a regressar, desde o pôr do sol até para o nascer.
Cesar viu animais voltarem do solo para a vida até regressarem ao estado de feto, plantas decrescerem, construções se descontruirem, o solo voltava ao seu formato original, antes da manipulação humana, ou antes de fenômenos naturais. Era como se ele estivesse a ver um filme de trás para frente. Foi tão rápido que ele nem pôde observar direito.
Finalmente, tudo parou e o mundo parecia tão isolado, tão desabitado. A vida primitiva era a coisa mais peculiar que ele presenciou.
De longe, três humanóides colossais caminhavam de mãos dadas sobre a terra, eram do tamanho de montanhas. Apesar de parecerem que tinham milhões de toneladas, as suas pisadas não deixavam marcas no chão.
Os humanoides não tinham detalhes no corpo, eram como avatares, eram acinzentados e no rosto só havia os olhos apenas com as escleras amareladas, mas o que mais chamava atenção era o coração de cada um, quando pulsada, toda as veias se iluminavam com um luz dourada.
— Quem são eles? — quis Saber Cesar admirado. — Nunca vi nem ouvi nada parecido com isto antes.
— Estes são os Seres do Tempo de Dorbis, Cesar, ou Deuses do Tempo, cada continente os denominou da sua maneira — respondeu Lumi. — O do centro controla o Tempo Presente, o do lado esquerdo controla o Tempo Passado e o do lado direito controla o Tempo Futuro.
De uma hora para outra os Seres do Tempo soltaram as mãos e cada um foi para um canto.
— O que houve? — indagou Cesar.
— O trabalho deles está feito, agora, se entregarão para Noldá — respondeu Lumi. — Venha, vamos seguir o Tempo Passado.
Enquanto o seguiam, Cesar aproveitou para perguntar:
— O que é Noldá, de fato?
— Noldá é nome deste mundo, Cesar. Dorbis é um termo técnico que os humanos mágicos inventaram por causa da modernidade. Daqui a alguns anos, pode ser que mude novamente. É assim que funciona a evolução.
Cesar parou bem perto do humanoide colossal, testemunhou quando o Ser debruçou-se sobre um vulcão, o maior daquele mundo, como se ele fosse uma cama e fundiu-se com ele completamente.
— Este é o vulcão de Vírnam? — perguntou Cesar.
— Sim, Cesar — respondeu Lumi. — Estamos em Lappalidor. Venha — a esfera de luz levou Cesar para dentro de uma caverna no centro do vulcão, ao chegarem ao final, uma membrana reluzente se movia tranquilamente naquele lugar ainda inexplorado. — Esta membrana é o Coração do Tempo Passado, um dos portais interplanetários.
— Caramba! Maluco, que revelação é esta? — Cesar ficou eufórico. — Eu estou perplexo, que ódio que eu não posso contar.
— n******e, quebrar um Pacto de Sigilo pode lhe custar a sua vida. Vamos ver o outro Ser.
A Luz levou Cesar para longe daquele lugar numa fração de segundos, agora estavam numa ilha tão grande que se tornaria mais tarde um continente, o menor de todo o Dorbis.
Cesar viu o Ser colossal caminhar sem rumo até parar no centro daquele continente e se deitar como se fosse dormir, o corpo se desmanchou e se espalhou a gerar vida e criaturas extraordinárias, o seu Coração se afundou numa caverna e Cesar foi levado para lá. Uma membrana semelhante a outra estava lá dentro.
— Este é o Coração do Tempo Futuro — informou a Luz.
— Esta é a Caverna de Agolar — afirmou Cesar. — Eita, que eu vou ficar sem dormir por uma semana.
— Sim, é a Caverna de Agolar.
— Então, estamos em Umnari, nas Terras Encantadas do Reino de Ic. Agora tudo faz sentido, por isto este lugar é tão especial.
— Sim, Cesar, as terras do Reino de Ic fazem parte do corpo de um Ser Deífico.
— Fascinante. E o Coração do Tempo Presente?
Lumi levou Cesar para o meio do mar, o último Ser colossal caminhava pelas águas até encontrar uma ilha de pedra, seu nível era de quarenta metros acima do mar, com pouca vegetação. A criatura encontrou uma f***a no centro da ilha e se enterrou nela. Cesar pôde contemplar o Ser se desmanchar e se fundir com aquele arquipélago. A superfície se encheu ainda mais de vegetação e o seu subsolo se tornou fonte de ouro e prata.
— Que lugar é este? — questionou Cesar.
— Esta ilha, tempos depois, foi encontrada por uma exploradora chamada Vévda Novéanor — respondeu Lumi.
— Oh! Meu Deus, esta é a Ilha de Novéanor, a Ilha do ouro e da prata que pode conduzir magia humana.
— Sim.
— Eu soube que aqui tinha um portal interplanetário, mas foi fechado por Lidarred, e os Vinte e Quatro Anciões até hoje querem saber como ele conseguiu fazer uma proeza dessas.
— Cesar, qualquer feiticeiro pode abrir um portal interplanetário, a menos que a Organização Mundial de Magia comandada pelos Anciões impeça — Lumi, a esfera de luz, levou Cesar de volta para a chapada onde mais tarde seria construído o Templo dos Trealtas e o mostrou uma cratera em forma de círculo perfeito, dali emanava uma luz amarelada e uma poeira dourada era expelida, no fundo, uma lava se movia como magma, mas era dourada e reluzente. — Os Corações dos Tempos foram considerados portais interplanetários clandestinos, pois, era o único modo de burlarem o veto dos Anciões, e o Coração de Noldá formou os portais Intercontinentais pelo mundo, mas a Organização Mundial de Magia conseguiu controlar a todos. O Coração de Noldá, em União com os Corações dos Tempos formavam o único portal interdimensional. Os Anciões sabem disto e querem usar este poder para se tornarem Senhores do Tempo de Dorbis, ou Noldá.
— Qual a finalidade destes portais além da óbvia?
— Pergunta pertinente, Cesar — disse a Luz.
— O quê? Não posso ter acesso a esta informação?
— n******e, mas vou te responder mesmo assim, você é um Allogaj das Luzes, suporta todo o conhecimento possível, nada afetará a sua consciência nem o seu cerne. Cesar, você conhece as Esferas do Reinício, não é?
— Descobri através se Tianlong que elas são controladas por seres de outra dimensão chamados de Elementais... — Cesar se interrompeu ao se ouvir, ele, imediatamente, entendeu tudo.
— Sim, você entendeu tudo, o portal interdimensional é a única passagem para trazer os Elementais a este plano, mas enquanto o portal do Tempo Presente estiver inacessível, isso nunca mais ocorrerá.
— Isso é bom, se eles não reiniciarem o mundo, ninguém vai precisar morrer.
— Meu caro Cesar, seu coração é tenro demais para entender a morte.
Cesar arregalou os olhos.
— Como assim?
— Ainda tenho uma pergunta a te responder, mas não esta.
— Bom, realmente eu queria te perguntar como funciona o tempo. Tipo, passado e futuro eu entendo, só não entendo o presente. Se um segundo antes já é passado e um segundo depois já é futuro...
— O presente é o tempo estático — interrompeu Lumi com a resposta. — O presente segura o passado e o futuro nele, impedindo que o tempo venha ou se vá.
— Nossa que filosófico... Espera aí — Cesar pensou em uma coisa e esquematizou para fazer sentido no fim —, o tempo presente é estático; a Ilha de Noveanor tinha o Coração do Tempo Presente; Lidarred conseguiu fechar o portal interplanetário da ilha; Lidarred fez o Medalhão de Cronos que permite ao usuário parar o tempo para ele... — Cesar pôs as mãos na boca sem acreditar. — Meu Deus, como ele fez isso?
— Lidarred era inteligente e poderoso, caro Cesar.
— Até demais, quero ser igual a ele.
— Exceto pelo fato de ele ter sido um feiticeiro das cinzas, mas você pode se tornar tão poderoso quanto.
— Nossa, eu já sabia que ele era das cinzas. Qual era a dúvida desse povo? Lidarred amaldiçoava pessoas, até animais, plantas e coisas. Somente as trevas dá permissão para tal obra.
— Exato, mas feiticeiros das cinzas não são tão poderosos. São talentosos, possuem dons raros, mas o poder é algo longe demais para alcançarem. Somente houve uma família das cinzas poderosa o suficiente para quebrar este paradigma, a Família Magaurotto. O verdadeiro nome de Lidarred era Stibélium Magaurotto, descendente de Sfinesium Magaurotto, vindo do continente Darayonno, no extremo sul deste mundo. Sfinesium foi um poderoso e famoso feiticeiro de vários séculos atrás, chamavam-no de o Senhor das Cinzas e era temido por todo o mundo. Ele foi o feiticeiro que desafiou o Reino-Império de Icobax para tomar posse das suas terras encantadas, os rumores das riquezas daquele lugar se espalhou pelos quatro cantos deste planeta. Por causa disso, o Grande Rei Ic, outrora um simples escriba real, foi atrás do Feiticeiro Congelado Rutamor para obter a ajuda necessária, e Rutamor lhe concedeu um poderoso diamante que ampliava poderes mágicos, assim, Ic derrotou o Senhor das Cinzas, o diamante ganhou o seu nome e ele se tornou rei das terras encantadas.
— O que o rei tinha na cabeça em aceitar um descendente do maior inimigo do continente inteiro como o Mago Real do seu recente Reino?
— Cesar, Ic era um homem... — Lumi interrompeu-se e Cesar estranhou.
— Sim? — insistiu Cesar com o cenho franzido.
— Algo está acontecendo...
Nessa mesma hora, o céu estremeceu, tudo se abalou e Cesar sentiu a sua alma ser levada de volta para o presente até cair em cima do próprio corpo.
Assim que acordou, levantou-se da cama de súbito a ofegar bastante como se não respirasse por muito tempo. Ao olhar pela janela, percebeu que já havia amanhecido.