Naquela mesma noite, as feiticeiras prodígios com o Cesar e a Nabyla, que ganhou um bastão mágico, se preparavam para partir.
Ainda eram sete horas da noite, poderia ser perigoso, mas não queriam esperar por mais nenhum minuto e decidiram arriscar.
Despediram-se do Reino das Libélulas e passaram pelos seixos da superfície da ribeirinha até o ponto em que era permitido abrir portais.
De lá, Cesar bateu o bastão mágico no chão e transportou a si e as feiticeiras diretamente para o planalto onde se encontrava a Fronteira de Umnari.
Todas conjuraram a luz para enxergarem melhor no escuro.
— Rasec — Nabyla ficou impressionada —, você nos transportou diretamente para Umnari ou estamos em outro lugar?
— Estamos, sim, em Umnari, onde termina o Reino-Império de Icobax — respondeu Cesar.
— Rasec, você não precisa passar por portais intercontinentais, se bem que este é o único continente do mundo que não tem um, mas de qualquer maneira, isso é impressionante. Além de tudo, pode transportar outras pessoas também.
— Rasec pode abrir portais na Terra — falou Gisele como se fosse a coisa mais incrível do mundo.
— Minha terra amada! — exclamou Nabyla. — Isto é tão difícil, como eu queria ter este poder.
— Ele tem a mesma essência de Noldá — afirmou Naty. — Abrir portais para ele é coisa de criança.
— Bom, eu sabia, só não tinha comprovado isso ainda. Ser Allogaj deve ser fantástico.
— Sim, tem o seu lado bom — ele estava a ser modesto.
Ser Allogaj era o anseio de qualquer feiticeiro ou feiticeira. Quando a magia das luzes oscilou, ela se atraiu para Cesar e o impregnou de poder mágico.
— Vamos, Rasec? — pediu Naty.
Todas as garotas se reuniram ao redor do rapaz, ele então bateu o bastão no chão e foram transportadas para a Taverna dos Álamos quais nem existiam mais.
Estavam agora no porão da Taverna, muito escuro e vazio e com vários buracos no piso, não havia pessoas lá. Acenderam as luzes novamente, uma por uma.
— Tem alguma coisa estranha aqui — falou Belisa.
De repente, uma bola de cristal apareceu a brilhar no escuro em direção a Cesar, era o recado que esperavam para saberem a localização exata de onde passaram a ficar.
"Naty — disse a voz de Érrio a partir da bola de cristal que também funcionava como um poderoso localizador —, ficou perigo morar no porão da Taverna, se você ainda está aí, saia imediatamente. A localização da nossa nova moradia se encontra na..."
— RASEC! — gritou Belisa a fazer com que todas se assustassem.
O restante do recado não pôde ser ouvido, um lobisomem já no segundo estágio corria para pegá-los. De prontidão, Cesar usou o feitiço Kolizio o que o arremessou para longe.
Outro lobisomem se aproximou, mas Naty o atingiu com o mesmo feitiço. O escuro fazia com que não enxergassem direito.
Cesar conjurou o Luz Intensa e com a iluminação geral, puderam ver que o porão estava repleto de lobisomens, estavam distantes, encostados nas paredes, afinal, o lugar era muito grande.
Aquele monte de lobisomens correu tudo de uma vez para atacá-los. Cesar então envolveu a todas as garotas e se transportaram para o lado de fora da Taverna, estavam fora dos limites do Reino e só podiam entrar lá dentro por uma passagem clandestina qual Naty sabia que existia.
Para a infelicidade delas, do lado de fora havia muito mais lobisomens, mas, consideravelmente, distantes, então, elas correram por aquela área desmatada para dar tempo de se reunirem para Naty transportá-las de lá.
— Fiquem todas juntas — ordenou Cesar, estavam ele e as meninas sob pressão, era difícil manter o foco.
De surpresa, um lobisomem apareceu atrás de uma árvore e tombou no Cesar, o arrastando e a fazê-lo cair ao chão, ele derrubar a bola de cristal que rolou sem destino.
O lobisomem voltou para atacá-lo, mas muito irritado, Cesar dominou a terra e criou uma estaca que trespassou o coração da criatura.
Na mesma hora ele sentiu remorso, aquele lobisomem era um humano que poderia ter tido a chance de voltar ao normal, mas Cesar se encontrava numa situação de vida ou morte.
Outros lobisomens se aproximavam dele e o cercaram, então ele foi os atingindo com o feitiço Kolizio para arremessá-los para longe.
— A esfera — gritou Naty enquanto o objeto parava de rolar.
As garotas fizeram um círculo e cada uma atacava um lobisomem de um lado, por impulso, Gisele correu para a direção da esfera, enquanto os lobisomens focavam mais no Cesar. Sem esperar, uma das criaturas pegou a esfera e correu como um assaltante.
— Volte aqui, querido — falou Gisele debochadamente.
Ela bateu a ponta do bastão no chão e uma rachadura perseguiu a criatura até prender a sua pata traseira. O animal urrou e derrubou a bola, então ela conseguiu alcançá-lo e recuperar o objeto.
Um lobisomem apareceu do nada para pegá-la, mas ela foi mais rápida, sabia se concentrar sob pressão e abriu um portal de fumaça branca e ** dourado depois o saltou e parou ao lado das outras prodígios.
— Muito bem, Gika — gratulou Naty que pegou a bola da mão da garota.
Todas se defendiam como podiam, mas quanto mais lançava às criaturas para longe, mais delas surgiam para atacá-las e a cada momento aqueles ataques as deixavam mais cansadas.
Cesar ficou sem paciência, estava um pouco afastado das meninas, então fez como Gika, concentrou-se como pôde e se transportou para o meio delas. Ele era o único no momento que abria um portal embutido com o corpo.
— Se aproximem de mim — gritou o rapaz. — Nós não vamos morrer hoje, quando eu disser "já" vocês se abaixam.
Ele respirou fundo, necessitava de concentração. Mesmo a ser um Allogaj, as cautelas para fazer magia precisavam ser utilizadas, de propósito ou não.
O rapaz não teve outra escolha, ele levantou o seu bastão a brilhar com os encantamentos Konekti e Aliro para acessar todo o poder do Objeto Mágico e da Pedra de Vírnam, mesclou os feitiços Kolizio com Ekstrema Lumo e criou várias ondas de luzes que foram se expandindo e lançando tudo o que estivesse ao redor deles para outro extremo daquela região.
Foi tão forte que fez as árvore que estavam por perto se inclinarem, os lobisomens foram levados pelos impactos que as ondas causavam, parecia o efeito de fortíssimos ventos de um furacão.
Quando finalmente acabou, tudo voltou a escurecer. As meninas acenderam os seus bastões mágicos e agora, tudo ficou em plena paz, as criaturas foram arremessadas e seria melhor que se apressassem, pois, algumas outras poderiam voltar.
— Uau! — impressionou-se Nabyla. — O que foi isto?
— Uma pequena demonstração do poder de um Allogaj — respondeu Fabiana.
— Pequena? Este homem mesclou dois feitiços, ninguém mescla feitiços assim. Eu estou muito impressionada.
— Gente, podemos falar sobre isto depois? — falou Belisa. — Não quero ser grossa, mas a gente ainda está aqui, ainda sinto algo estranho no ambiente.
A intuição de Belisa era certeira. Primeiro, ouviram um rosnado ecoar por entre as árvores, em seguida, um par de olhos dourados foram vistos até saberem que pertencia a um lobo rajado de pelagem completamente preta.
A luz dos bastões iluminavam o suficiente para verem que o lobo era do tamanho de um elefante, ou um pouco maior.
— Agora vamos morrer — falou Nabyla.
— Por quê? — choramingou Gisele. — Sou jovem demais para morrer, gente.
— Esta é uma das criaturas mais temidas do nosso mundo.
Cesar tomou a frente para proteger as suas garotas.
— Ninguém vai morrer, fiquem tranquilas — disse o rapaz.
— Eu não teria tanta certeza disto, garoto — falou o Lobo.
— É! Ele fala, vamos morrer — complementou Tainara.
O lobo gigante caminhou lentamente ao redor das meninas e Cesar o acompanhava como se estivesse a guardá-las do m*l.
— Você fala, então você é consciente — afirmou Cesar.
— Sim, eu sou — respondeu o Lobo. — Qual o seu nome, jovem?
— Rasec. E o seu?
— Eu não tenho um nome estabelecido, eu sou apenas o Senhor dos Lobos.
— Rasec — disse Nabyla —, ele é o criador da licantropia deste mundo, é uma entidade muito poderosa.
— Ah! Vejo que alguém me conhece — falou o Lobo, ele fixou os olhos em Nabyla. — Você é diferente, jovem, o que tu és?
— Uma Transcendentis — respondeu Nabyla bem confiante.
— Muito bom — ele encarou o Cesar novamente que estava com a expressão mais austera que podia fazer. — E você, Rasec, também é diferente. O que és?
— Eu sou um Allogaj.
— Hum! Interessante. Outro Allogaj surgiu neste mundo que ainda não sabe da sua existência. Agora faz sentido aquela poderosa onda de luz que você usou para dispersar as minhas criaturas. Nenhum feiticeiro comum teria tanto poder.
— O senhor quem mandou aqueles lobisomens para nos atacar? — arriscou Cesar em questionar.
— Não, vocês simplesmente apareceram no território deles.
— Este território não era deles antes — disse Gisele.
— Agora é.
— Se o senhor não mandou que eles nos atacassem, por que eles tentaram nos roubar? — insistia Cesar.
O Lobo gigante parou de andar.
— Tentaram roubar-lhes o quê?
As meninas olharam entre si. A entidade encarnada era um ser das trevas, mas não mentia, não sabiam se era confiável responder-lhe as suas perguntas.
Contudo, Cesar pediu que mostrassem a bola de cristal e Naty a mostrou por poucos segundos, a escondeu na roupa novamente.
— Uma bola de cristal — falou o Lobo. — Minhas criaturas não foram manipuladas por algum feiticeiro, se é o que estão a pensar, senão eu saberia. Elas estão a pegar objetos mágicos perdidos para mim, eu tenho uma coleção em minha caverna.
— Uma entidade com cleptomania, nunca vi — comentou Tainara.
— Você disse o quê? — questionou o Lobo de maneira ameaçadora.
Tainara, a se confiar no Cesar e no seu poder, passou por entre as meninas e parou ao lado do rapaz que imediatamente a impediu de dar mais um passo. Ela falou:
— Eu disse que você é cleptomaníaco.
— Tainara, fique quieta — ordenou Cesar.
— Eu gostei desta — falou o Lobo. — Por isto, será a primeira a morrer.
Tainara arregalou os olhos e tremeu de medo. Cesar, também a temer a ameaça do animal, atingiu a Tainara com um feitiço de magia avançada que transportava uma pessoa para outro lugar, mas lhe consumiu suas energias físicas e ficou um pouco tonto.
Uma grande vórtice de fumaça branca com poeira dourada se formou ao redor da Tainara, mas o Lobo grunhiu e o seu bafo desfez o portal.
— Oh! Maldição — praguejou Nabyla.
— Eu também tenho os meus poderes, Allogaj, estão todas condenadas — ameaçou o Lobo outra vez.
— Você não vai tocar em um fio de cabelo destas meninas — berrou Cesar, ele apontou o seu bastão mágico para o Lobo. — Deixe-nos em paz, não procuramos guerra contra você.
— Mas procuram contra o Reino que eu sei, desordeiros, e eu não vou permitir. Pensam que não entendo o que estão a tramar? O Reino já foi avisado sobre vocês; ele será completamente tomado pelas trevas e vocês não vão impedir.
O Lobo avançou, ele estava um pouco afastado do pessoal, mas era pesado demais para ser rápido, porém, alcançá-lo não seria nada difícil.
Cesar não podia permitir que a entidade encarnada matasse as meninas, Nabyla e ele eram os únicos que podiam escapar com vida, mas decidiram ficar e enfrentá-lo.
Tudo aconteceu tão rápido, mas o mundo parecia lento aos olhos do rapaz.
O Allogaj decidiu usar toda a intensidade que possuía no seu cerne para lançar o mesmo feitiço no Lobo, os seus olhos brilharam e filetes de fumaças brancas evaporavam do seu corpo.
Antes que atacasse, um grasnado muito alto e estridente ouviu-se por aquela área desmatada, uma Grande Harpia passou na frente de Cesar, o vento projetado pelo seu voo quase os levou de tão forte.
A Grande Harpia agarrou-se com o animal e ambos tiveram uma pequena briga.
O Lobo tentava mordê-la, mas ela era maior e mais rápida, com as garras, agarrou o pescoço do animal e com o bico mordeu-lhe na nuca a arrancar-lhe a cabeça de vez.
Decapitado, o animal caiu mórbido no chão, estava derrotado. A Harpia, que parecia muito mais ameaçadora, olhou para o pessoal e se aproximou bem rápido.
Por ímpeto, Cesar lançou um raio cósmico na criatura, mas ela abriu as asas e o bico, e o raio transformou-se em uma poeira translúcida que evaporou-se antes que chegasse perto dela.
— Por que Allogajs insistem em atacar-me? — questionou-se a Grande Harpia, tinha voz masculina e pomposa.
— Cesar, esta é uma Criatura Primeva — avisou Naty.
O rapaz ficou espantado e pediu mil perdões, ele não conhecia outra Criatura Primeva antes, além do Morcego e da Serpente. Agora sim veria todas elas.
— Estou a procurar pelo feiticeiro Rasec — disse a Harpia a caminhar para mais perto. — Creio que sejas tu, jovem Allogaj.
Aquela cena deixou as meninas tão intrigadas, principalmente as que eram daquele mundo. Primevos não procuravam pessoas e sim o contrário.
— Meninas, se cuidem, eu preciso ir — disse Cesar.
— O que está acontecendo, homem? — perguntou Gisele.
— Ele solicitou um Plenário Solene e foi contemplado — respondeu a Harpia.
— Meus deuses! — exclamou Naty. — Você é cheio de surpresas, Rasec.
— Vamos, não temos tempo a perder — a Harpia esperou Cesar despedir-se das meninas antes que o pegasse com as suas enormes garras e levantasse voo, montar nas suas costas não seria tão seguro.
As feiticeiras prodígios e a Transcendentis ficaram sozinhas, pelo menos estavam fora de perigo.
Ali, terminariam de ouvir da bola de cristal qual era a localização da nova hospedaria dos feiticeiros prodígios que estavam a serem ajudados por Beltenor, o dono da antiga Taverna — o Reino obrigou-se a dá-lo outra por causa do estrago que causou — e pela feiticeira Sal, a Immortalis que era a diretora do Primeiro Colégio de Magia do Reino de Ic, ambas pessoas de conceito no Reino, e mesmo a serem leais à coroa, estavam dentro do círculo de suspeitos de traição.
Cautela era a sua maior prioridade.
***
Cesar sentia muito frio nas garras da Grande Harpia.
— Meu Deus, que frio! — gritou Cesar para que o Primevo ouvisse.
A Harpia o olhou com curiosidade, apesar de ser um animal e não demonstrar expressões faciais de certo modo.
— Por que não disseste antes? Esqueço-me de que humanos são tão frágeis e limitados — a Grande Harpia recolheu as suas asas e implodiu para o próprio cerne quando o ar vibrou ao seu redor.
Agora, estava a voar para a entrada de um enorme Castelo construído numa ilha de pedra de frente para uma encosta onde, um pouco longe, havia uma cidade construída, tão extensa que não se podia mensurar. Apenas uma ponte dava acesso para o Castelo.
A Harpia pousou na entrada e colocou o Cesar no chão, a partir dali caminhariam para o destino final.
— Por que não abriu um portal antes? — perguntou Cesar.
— Estou há tanto tempo como animal que esqueço-me dos meus poderes de Primevo — respondeu a Harpia.
Cesar analisou a dimensão do lugar.
— Onde estamos? — questionou.
— No Castelo do Rei Farabáz, do Reino de Barboa.
— Estamos em Barboa? Um dos sete reinos de Umnari?
— Sim, aqui é o local onde as Criaturas Primevas fazem os Plenários Solenes. São muitos os que pedem.
— O Primevo daqui é a Grande Morsa, não é?
— Sim, meu rapaz.
— Que demais! E onde está o pessoal do Castelo? Não vi ninguém aqui desde que chegamos.
— O rei deve estar em seus aposentos. Apesar de este Reino possuir a maior população do continente, o seu Castelo praticamente é desabitado. Este foi o primeiro Reino constituído em Umnari, era governado pelo Imperador Icobax, mas as histórias não contam esta versão. Depois de muitos anos, o Imperador decidiu construir o Reino-Império em outro lugar e com o seu próprio nome.
— Eu não entendo, como você sabe de tudo isso? As Criaturas Primevas só apareceram no mundo depois do Rei Ic.
— Outra versão da história... E m*l contada. As Criaturas Primevas apareceram pela primeira vez no mundo em matéria, em forma de animais, mas sempre existimos, desde os primórdios dos tempos quando a humanidade mágica começou a se proliferar pelo mundo.
— Deve ter sido difícil ter acesso a vocês antes. Quantas pessoas já imortalizou?
— A maioria dos feiticeiros e feiticeiras quais imortalizei transformou-se numa estrela. Pouquíssimos ainda vivem neste mundo, ou em outro. Mas para responder-te a pergunta, a quantidade exata é sessenta. A mais recente foi uma guerreira do Reino de Par.
— Quais os critérios para você transformar uma pessoa em Immortalis?
— Sinto muito, mas não posso responder-te esta pergunta.
Cesar ficou em silêncio, depois lembrou-se dos acontecimentos minutos antes e decidiu falar sobre aquilo enquanto desciam uma extensa escadaria.
— Olha, obrigado por m***r aquele Lobo, salvou a minha vida e a das meninas que estavam comigo.
— Hum! — exclamou a Harpia de maneira profunda, como se estivesse a desaprovar o comentário. — Não há o que agradecer, eu não matei aquela criatura.
— Não?
— Apenas mortifiquei a sua matéria, o Lobo vai recuperar a sua forma atômica em três dias. Não se pode m***r uma entidade.
— Ai, caramba! Estou ferrado.
O Primevo encarou o rapaz.
— Vocês Allogajs não conhecem mesmo o poder que têm. Saiba que aquele Lobo é uma antiga e poderosa entidade encarnada deste mundo, mas a intensidade que você colocou no seu ataque poderia destruí-lo além de poder mandá-lo para outra dimensão.
— Sério? Eu não sabia. Por que não deixou?
— Parece que vivo a interferir-me nas ações humanas, eu preciso parar.
— Por que você disse "vocês Allogajs"? Você já falou com a Audaxy?
— Sim, agora percebo que não foi uma boa ideia, nós, Primevos, podemos ver reflexos do futuro, e eu acabei usando isto para... — o Primevo parou de falar, julgou não ser uma boa ideia relatar aquilo. — Melhor não falar sobre isso.
Finamente, chegaram à uma area circular muito grande, parecia habitação de gigantes. Havia várias pilastras que sustentavam dez galerias, uma acima da outra, com vários arsenais de livros.
No centro, no canto da parede, havia uma piscina redonda feita de pedra e no meio um patamar redondo.
Nada naquela área chamava mais atenção do que ver aqueles cinco animais gigantes ao redor do patamar que seria onde o Cesar ficaria. Ele subiu e foi encarado por cada um dos Primevos.
Estavam o Morcego, a Serpente, a Doninha, o Feneco e o Jaguar, a Harpia havia acabado de chegar, e para fechar o círculo, a Morsa gigante subiu da piscina, depois saiu a arrastar-se para se reunir com os demais. A água que escorria evaporava-se até tudo ficar seco.
— Bem-vindos, Primevos, a mais um Plenário Solene — saudou a Morsa, tinha voz masculina e ébria, porém, imponente como qualquer outro da sua classe de seres. — Seja bem-vindo, jovem... — a Grande Morsa se interrompeu ao olhar para o rapaz. — Meu jovem, você é um Allogaj? — foi um pergunta retórica, na verdade ele queria saber se o próprio rapaz sabia disso.
— Sim, senhor — respondeu Cesar.
— Qual o seu nome?
— Eu sou o Rasec, meus senhores.
A Morsa encarou a Serpente.
— Kuraĝa, por que não disseste que este rapaz se tratava de um Allogaj?
— Ele solicitou um Plenário, Saĝa, e eu aprovei, julguei digno — respondeu a Serpente.
— Eu conheci este rapaz — falou o Morcego, nitidamente, não gostou do Cesar. — Procurava auxílio no Reino-Império, ele está mancomunado com traidores do próprio Reino e eu não o ajudarei em hipótese alguma.
— Vigla, não vai sondá-lo? — questionou a Serpente.
O Grande Morcego se escondeu com as suas asas, o ar a sua volta vibrou e ele implodiu num portal, apenas deixou para trás uma poeira colorida como um arco-íris.
— Uoah! — exclamou o Feneco, tinha uma voz rouca e suava, bem feminina, e Cesar ficou derretido por achar uma criatura dessas tão fofa. — O Vigla sempre foi o mais rabugento de nós, mas nunca saiu de um Plenário deste jeito.
Cesar ficou preocupado, não pediram para que ele falasse, também, não se atreveu a falar sem que lhe fosse permitido, mas o que o Morcego falou estava fora de contexto, ele nem teve a chance de se justificar.
Aquela atitude do Morcego poderia influenciar na decisão dos outros Primevos em abençoá-lo, foi assim que o rapaz pensou.
— Muito bem, Primevos — continuou a Morsa —, eis aqui diante de nós um jovem rapaz que deseja adquirir uma benção nossa, entretanto, ele se trata de um Allogaj, é a primeira vez que um feiticeiro desta categoria nos procura. Qual as vossas sentenças?
— Eu nunca abençoei um Allogaj, e creio que este aí tem poder suficiente para dominar o mundo. Por que eu o abençoaria? — argumentou o Feneco.
— Quantas pessoas poderosas você já transformou em Potensis, Konstenta? — questionou a Morsa.
— Mas nenhuma delas era Allogaj. Ele quer poder? Que ele se aperfeiçoe — a Primeva Konstenta não falava com arrogância, a sua voz era até engraçada para quem a ouvia, mas ela tinha as suas razões para não querer abençoar o rapaz. — Jovem Allogaj, você tem um bom coração, mas não tem aquilo que julguei necessário para te abençoar. Tenha uma boa sorte em seu destino — o Feneco abaixou a cabeça e implodiu num portal.
— Sovaĝa? — a Morsa dirigiu a palavra ao Grande Jaguar.
O Jaguar, que tinha a voz mais grave deles, analisou o Cesar e disse:
— Não farei um pacto de ressurreição — e implodiu num portal.
— Aŭtenta? — dessa vez, a Morsa falou com a Doninha.
— Meu querido Allogaj — falou a Primeva que também tinha voz feminina, porém, mais suave, Cesar virou-se para observá-la —, vejo que você realmente tem um bom coração, mas julgando-te por completo, não d****o abençoá-lo com o desdobramento. Boa sorte com o seu destino — a Doninha implodiu num portal.
Agora era a vez da Grande Harpia Elokventa.
— Meu caro rapaz, você tem um propósito de vida, você tem uma família, você tem planos para um futuro, mas não vejo uma vida inesgotável, por isto, não te abençoarei com a imortalidade — a Harpia apenas deu às costas e andou para a escadaria. — Espero-te lá em cima.
Finalmente, Kuraĝa, a Grande Serpente, se aproximou do rapaz, sempre a balançar aquela língua para fora, e falou:
— Meu amigo, você tem todas as qualidades necessárias para ser julgado como um bom homem, mas ainda tem muito o que aprender sobre magia, sobre a vida, sobre os mistérios do mundo. És um rapaz corajoso, forte e altruísta, no momento não te tornarei um Saneturis, quem sabe, em uma outra ocasião eu te abençoe — a Serpente enrolou-se no próprio corpo e implodiu num portal.
O último Primevo, que era a Grande Morsa, olhou para o rapaz com apreço. Cesar não ficou triste, não ficou abatido, na verdade, entendeu o posicionamento de cada Criatura, exceto o do Morcego, sabia sobre o que falavam. O único que foi grosso fora o Vigla, os demais foram bastante gentis.
— Jovem Rasec, este foi o mais diferente Plenário Solene de todos, por ter sido muito rápido, por os Primevos terem falado pouco, por terem se retirado daquela maneira e por você ser um Allogaj — disse Saĝa. — Eu sou o Primevo da Sabedoria, diga-me, por que eu deveria abençoar-te?
Cesar fez uma pequena pausa, ele não se considerava muito bom com discursos a pesar dos seus conceitos e das suas ideias serem dignas de serem discursadas para muita gente, mas não conseguia pensar em nada de extraordinário, nem sabia o que era um Plenário Solene. Ele fez uma careta antes de respondê-la:
— Olha, eu realmente não sei, eu quero ser abençoado, mas sinceramente, depois do que aconteceu aqui, já entendi que não sou digno, mas sei que tenho um propósito, a magia das luzes me escolheu e me deu o dom de poder praticá-la por algum motivo e tudo o que fiz foi aceitar. Eu só estou neste mundo porque aceitei fazer parte disso, eu aceitei pedir um Plenário Solene, eu aceitei ajudar pessoas, eu aceitei porque pensei ser o certo a se fazer, eu só quero ajudar, nada mais. Se não quiser me abençoar, eu não vou ficar triste, simplesmente, vou aceitar. É isto.
A Morsa, sorriu para o Allogaj antes de dizer:
— Bem, diante do que tu acabaste de dizer-me, eu decidi não te abençoar com o dom da Sabedoria, contudo, não preciso de magia para perceber o quanto tens caráter, personalidade, e inteligência. Tu enfrentarás uma pessoa, ela é tão poderosa quanto tu, mas por conhecer mais, poderia derrotar-te, neste caso, conceder-te-ei o Conhecimento necessário para enfrentá-la, sinta-se contemplado, meu rapaz — a Grande Morsa fez um reverência, e depois soprou no rosto do Allogaj que se sentiu tonto e desmaiou a pousar levemente naquele patamar redondo.