Episódio 6

1310 Palavras
Uma hora depois, estamos na rodovia em direção a Sun City. A cada quilômetro que percorremos, o nó no meu estômago aumenta. Não acredito que, depois de tantos anos, verei o meu pai, os meus irmãos... e o meu querido avô novamente. Edgard aumenta o volume da música e começa a cantar alto, como nos velhos tempos. Isso me faz sorrir, mas não por muito tempo. Pego o meu celular e mando uma mensagem para Carlos, o meu irmão mais velho: Carlos, é a Zafira. Chego em casa daqui a pouco. Não quero uma recepção calorosa, só que todos estejam aqui. Senti muita falta de você. Não se passam nem dois minutos antes de eu receber a sua resposta: Estamos esperando por você aqui, irmãzinha. De braços e corações abertos. Finalmente, chegamos ao portão principal da mansão. É tão imponente quanto eu me lembrava: sóbrio, elegante, delicado... tudo no seu lugar, como se o tempo tivesse parado. Os guardas me reconhecem imediatamente e, com um sorriso, abrem o portão. Cem metros depois, lá está: a mansão Ferragotti. Minha casa. Quando eu morava aqui, parecia apenas mais uma casa, típica da nossa vida de luxo. Mas agora, depois de tudo que passei, vejo-a de forma diferente. A casa que a minha mãe projetou com tanto amor não é apenas bonita: é uma obra de arte. A fachada se ergue imponente com a suas mais de quinze janelas. Dez delas dão para os quartos. O jardim está repleto de flores de todas as cores e espécies, trazidas dos cantos mais remotos do mundo. A antiga fonte se foi: agora, uma escultura de uma mulher despejando água de uma jarra toma o seu lugar. Majestosa. A água cai limpa, cristalina. E o lago — o mesmo que meu pai cuidara com tanto carinho — brilha com os seus peixes multicoloridos. Minha mãe amava animais. Ela queria que a casa estivesse sempre cheia de vida. Pensar nela parte o meu coração, mas não devo me quebrar. Não agora. Não posso deixar que pensem que voltei derrotada, vencida, como todos esperavam. Aproximo-me da entrada principal. Uma fila de dez funcionários me aguarda, cinco de cada lado. Eles se curvam respeitosamente e solenemente. — Bem-vinda, Srta. Zafira. Dizem em uníssono. Não tenho tempo para reagir, pois sinto braços me envolvendo com força e ternura. É Carlos. — Bem-vinda ao lar, minha irmãzinha. Não consigo me conter. Abraço-o com força. As lágrimas anseiam por sair, mas as seguro com todas as minhas forças. Só por enquanto. Minutos depois, estou na sala principal. Os meus outros irmãos me cumprimentam calorosamente. Estamos todos em silêncio, na expectativa. E então, eu o vejo: papai. — Minha menina... não acredito que você está aqui. Diz ele, aproximando-se. O seu abraço é tão forte quanto o amor que ele sempre me deu. E então sim. As lágrimas finalmente vencem. Elas deslizam espontaneamente pelo meu rosto enquanto me agarro a ele, como quando eu era pequena. — Zafi... demorou muito para você voltar. Sabíamos que aquele homem não era para você. — Pai... Sussurro, surpresa com a sua certeza. Tentei fingir ser serena, mas com um olhar, ele já sabe tudo o que sinto. — Como eu sei? Eu te conheço, minha menina. Você emagreceu, não tem o mesmo brilho nos olhos. Está cansada e, mesmo que não queira admitir, aquela família te destruiu... Mas eu juro que eles não vão se safar. — Claro que não. Digo com firmeza. — Só preciso de alguns dias para recuperar as forças e então... vou me vingar deles. Juro. Espero poder contar com você. — Sempre, minha preciosa. Você é a luz dos nossos olhos. O que você está planejando fazer? Vai permitir que Mateus Torres assuma o cargo de vice-diretor? — Pensando bem... sim. Mas não vou facilitar para ele. Quero estar presente nessa cerimônia. — Podemos adiar até você estar pronta. — Só alguns dias, pai. Quero ver a cara do Mateus... e da família dele... quando descobrirem quem eu sou. Vou saborear esse momento. — Teremos tempo para planejar nossa vingança. Você quer ver o seu avô? Tenho certeza de que ele ficará muito feliz. — Claro que sim, pai. Vamos vê-lo. Ver o vovô... Não consigo mentir para ele. Não com as minhas roupas novas ou a minha cara vingativa. Se tem alguém que consegue ver além de tudo... é ele. Depois de cumprimentar cada um dos meus irmãos, sigo o meu pai até o quarto do vovô. Caminhamos pelos corredores em silêncio. Às vezes, não entendo como pude ser tão convencida e vaidosa. Como não apreciei tudo o que tinha... e os anos que desperdicei longe da minha maravilhosa família. Principalmente do vovô. Voltar pouco antes da morte dele é algo que nunca me perdoarei. E tudo por causa de alguém como Mateus Torres. Embora não seja tudo culpa dele: a to&la que escolheu entre a família e ele fui eu. Tentando escapar dos luxos, de uma vida que parecia vazia, acabei assim. Embora, paradoxalmente, eu devesse agradecê-los. Graças aos m*aus-tratos e à humilhação que sofreram, aprendi a valorizar a minha família... e o meu dinheiro. Não é minha culpa ter nascido numa família multimilionária. Mas agora sei que existem maneiras mais nobres de usar essa fortuna. Nem tudo precisa ser superficialidade e luxo. Existem pessoas que realmente precisam de ajuda. E a nova Zafira cuidará disso. Finalmente chegamos à porta do quarto. Por um momento, hesito em entrar. Fui tão ingrata... Tenho medo que ela não queira me ver. Mas a voz do meu pai me tranquiliza: Zafira, papai está esperando por você há anos. Não haverá repreensões, ele só quer te ver. As suas palavras me enchem de coragem e finalmente decido abrir a porta. O quarto do vovô me recebe como eu o lembrava: majestoso, imponente e elegante. Verdadeiramente digno de um rei. A nossa família é praticamente considerada realeza: temos tanto poder e influência dentro da elite que nunca passamos despercebidos. Exceto eu. Meu pai decidiu, para me proteger, preservar a minha imagem entre as pessoas comuns. É por isso que Mateus e a sua família nunca souberam quem eu era. Mas dentro da elite, sou uma das herdeiras mais reconhecida. Isso ficou para trás. Não quero mais ser aquela mulher. No futuro, vou mudar essa imagem fria que todos têm de mim. Primeiro... preciso de vingança. Depois, tentarei reconstruir a minha vida. Depois de examinar o quarto, o meu olhar recai sobre o corpo adormecido na cama. Aquela cama que me abrigou tantas vezes, que foi meu refúgio quando chorei por minha mãe. Agora é o local de descanso do meu pobre e desesperado avô. Com certa apreensão, aproximo-me. Ele está dormindo. Não quero perturbá-lo. Decido ir embora e voltar mais tarde, mas então ouço a sua voz fraca, quase um sussurro, chamando o meu nome: — Minha pequena Zafira... pensei que nunca mais te veria. — Aqui estou, vovô. Sento-me na cama, seguro suas mãos e as lágrimas começam a escorrer pelo meu rosto. Como pude não ter voltado antes? Como pude ser tão cega? Como pude deixar minha família... meu avô? Eu sabia que, por causa da idade dele, talvez nunca mais o visse. Eu fui ingrata. Não mereço o seu perdão. — Desculpe... As palavras ficam presas na minha garganta, como se um nó estivesse passando por ela, me impedindo de respirar. — Desculpe a demora. Eu deveria ter vindo antes, desculpe... Envolvo os meus braços em volta do seu corpo frágil, e ele gentilmente levanta a mão para acariciar a minha cabeça, como quando eu era pequena e chorava no seu colo. — Minha neta... que bom que você voltou. De repente, eu o vejo sentado na cama, cheio de energia, com um sorriso jovial nos lábios. Eu não entendo nada. O que está acontecendo? — Vovô? O quê...? Pergunto, perplexa.
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