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Virginia.
Peras ao vinho tinto... Duvido muito que você algum dia faça essa sobremesa, porque é incomum... mas não a julgue, porque se você experimentar, é deliciosa.
Escolha peras firmes, não muito maduras, como corações que ainda não foram tocados. Descasque-as delicadamente, despojando-as da casca, com a mesma lentidão com que um segredo é revelado.
Numa panela funda, despeje um vinho tinto escuro e encorpado. Adicione açúcar — apenas o suficiente —, canela em p*u, raspas de laranja e cravos-da-índia: especiarias que perfumam a expectativa, que intensificam o desejo sem pressa.
Mergulhe as peras, uma a uma, e deixe-as cozinhar em fogo baixo, como uma história de amor proibida: sem pressa, em silêncio, deixando que o vermelho do vinho as permeie até a alma.
Quando estiverem finalmente macias e o aroma preencher o ambiente, retire-as do fogo, mas não do desejo.
E são servidas frias...
Porque algumas paixões ardem mais forte quando escondidas sob o gelo.
Acordo com o barulho incessante que a minha mãe faz lá embaixo. Mesmo morando numa mansão enorme, consigo ouvi-la gritando do meu quarto. Olho para o relógio: 9h da manhã.
— Droga. Murmuro, checando meu celular, mas está desligado.
Ligo rapidamente, porque meu pai me liga todas as manhãs depois do café da manhã, claramente preocupado e intrigado por eu estar tão confortável nessas férias. Enquanto o meu celular carrega, decido calçar os meus chinelos, vestir o meu roupão de seda rosa-claro e descer.
Lorenzo está parado lá, vestindo uma camisa preta e calça jeans skinny da mesma cor. Esse é o estilo dele: calças skinny, camisas desabotoadas nos dois primeiros botões, sapatos impecavelmente engraxados, cabelo perfeitamente penteado, anéis nos dedos, um brinco na orelha esquerda, várias tatuagens... Ele sempre veste preto ou branco, talvez vermelho-escuro ou azul às vezes, mas nunca foge disso.
A sua aparência reflete a sua personalidade: frio, meticuloso, austero...
Minha mãe circula ao redor dele, telefone na mão, falando alto com quem quer que esteja falando. Não entendo nada. Me encosto no corrimão da escada quando chego ao último degrau e observo a cena com curiosidade.
Até que noto as malas empilhadas perto da porta.
— Mãe? Franzo a testa. — O que está acontecendo?
Nara se vira para mim e os seus olhos se arregalam, como se tivesse se esquecido completamente da minha presença.
— Ah, Virginia! Ela exclama, aproximando-se alegremente. — Vou viajar!
— O quê? Esfrego os olhos. Estou com muito sono para processar isso. — Para onde?
— Vou passar um mês num iate com as minhas amigas! Ela ri e pula de alegria, batendo palmas. — Foi um presente de aniversário do Lorenzo, três meses atrás, e finalmente... o dia chegou!
— Mas... e eu?
Ela faz uma pausa e o sorriso desaparece.
— Você vai ter que voltar para a casa do seu pai, querida.
— Mas o papai está na Austrália. Cruzo os braços. — Nossa casa está em reforma. Ele aproveitou esse tempo para fazer algumas obras e viajar porque sabia que eu não estaria lá.
— Bem, eu não sei o que te dizer, Virginia... Porque eu venho planejando essa viagem com as minhas amigas há meses e não vou cancelar.
— Você devia ter me dito antes. Murmuro irritada, pensando em subir para pegar o meu celular e checar meus contatos para ver com quem posso ficar. Talvez num quarto de hotel até a minha casa ficar pronta... ou na casa de uma amiga... Mas todas estão de férias em diferentes partes do mundo.
No entanto, a confusão de pensamentos na minha cabeça é interrompida pela voz grave e firme do homem.
— Você pode ficar aqui. Ele diz. — A casa é grande o suficiente e você tem tudo o que precisa aqui.
— Oh, meu amor, você faria isso por mim? Nara pega o braço dele e lhe dá um beijo rápido nos lábios. — Você não precisa, sabe. Posso ligar para o pai dela e ele resolve tudo.
— Não, não se preocupe, não me incomoda... Ele olha nos olhos dela e acaricia a sua mão. — Aproveite a sua viagem. Eu fico com ela.
— Pare de falar de mim como se eu não estivesse aqui. Reviro os olhos e desço as escadas furiosa.
Nem me dou ao trabalho de me despedir de Nara. Terei mais um mês e meio para lidar com ela quando ela voltar da viagem. Mesmo assim, quando me sento na penteadeira e ligo o celular, não consigo conter o sorriso que se abre no meu rosto ao pensar que foi Lorenzo quem queria que eu ficasse.
Só nós dois…
No entanto, a ideia de que algo mais pudesse acontecer entre nós foi se dissipando com o passar dos dias.
Ele me ignorava completamente, passando direto por mim sem sequer olhar. Estava muito ocupado com o seu... negócio de chocolate.
Passo todo o meu tempo trancada no quarto, fazendo videochamadas com minhas amigas que moram na França, e elas me mostram todas as coisas incríveis que compraram.
Quando chega a minha vez, tudo o que posso mostrar é o vestido que usei no baile de gala. Porque a verdade é que não saí desta m*aldita mansão desde que cheguei, me recusando a dar à minha mãe a satisfação de realmente aproveitar o lugar.
Enquanto converso com elas, percebo pela câmera que Lorenzo está encostado no batente da porta entreaberta.
— Meninas, vou indo, preciso tomar banho. Digo, acenando e sorrindo. Elas me olham estranho, mas desligam.
Levanto-me, de costas para ele, fingindo não notar a sua presença, e tiro o roupão.
Estou nua, ou melhor, só de calcinha, e quando estou prestes a tirá-la... ele pigarreia.
Viro-me de repente, mas não sou uma atriz tão boa assim, porque um sorriso escapa dos meus lábios ao ver a sua expressão de espanto. Mesmo assim, visto o meu roupão novamente e o encaro, arqueando uma sobrancelha.
— O quê?
Ele entra no quarto, fechando a porta atrás de si.
— Você não desceu para jantar.
— Eu não estava com fome. Dou de ombros. — E você não precisa fingir que se importa comigo. Minha mãe não está aqui.
Ele cerra os dentes e estreita os olhos.
— Não estou fingindo. Responde. — Não gosto de desperdiçar comida. Os meus chefs prepararam um jantar especial para você, então você vai jantar comigo.
— Você não é meu pai. Digo, franzindo a testa e dando um passo na sua direção, como se a minha altura de um metro e cinquenta e sete pudesse intimidá-lo minimamente.
— Não sou, mas você está sob o meu teto e vai fazer o que eu mandar. Ele se aproxima. — Entendeu?
— Posso ir embora quando quiser. Preciso levantar a cabeça para encará-lo.
— Você pode, mas não vai… então pare de agir como uma mimada.
— Você adora que eu seja uma mimada. Retruco, com um sorriso irônico. — Tenho certeza de que você ainda está pensando na noite do baile… naquele banheiro…
Os seus olhos se arregalam e ele dá um passo para trás, como se eu fosse algo tóxico e proibido.
E certamente sou.
— Foi um erro. Ele murmurou, engolindo em seco.
— Um erro delicioso. Continuei, aproximando-me dele. — Mas agora que você sabe qual é o meu gosto, fico imaginando qual será o seu...
— Pare com isso, Virginia. Ele balança a cabeça, os seus olhos refletindo a frieza da sua alma. — Já chega.
Aproximo-me um pouco mais, mas em vez de provocá-lo ainda mais, decido passar por ele e abrir a porta.
— Boa noite, Lorenzo. Os meus olhos azuis repousam sobre o seu corpo, esperando que ele saia.
Ele sai, parando no corredor e se virando para me olhar. Ele quer dizer algo, mas não diz, e eu fecho a porta na sua cara.