Tomo um longo banho e depois fico na cama lendo as minhas anotações de gastronomia. Ouço a porta da frente abrir por volta das três da manhã, junto com o som de sapatos arrastando no tapete. Aproximo-me um pouco mais da porta e o perfume de Lorenzo me invade... o seu cheiro misturado com uísque e... algo mais...
O cheiro de outra mulher...
Ele está bêbado e dormiu com alguma vagab*unda.
Balanço a cabeça e me deito novamente, concentrando-me no meu livro. As infidelidades do marido da minha mãe não são problema meu.
No dia seguinte, decidi seguir o conselho de Stephanie e Nicole e fazer um passeio turístico. Elas fizeram aquela viagem incrível à França que eu desisti de fazer. Porque, no fundo, mesmo odiando a minha mãe, uma parte de mim ainda se importa com ela. E tomei a decisão de vê-la por mais um ano porque precisava ter certeza de que ela estava bem na sua nova vida.
Mas é claro que nunca vou contar a ela que recusei uma viagem com minhas amigas para a Itália para ver a sua mansão luxuosa. Não quero dar a ela a menor pista de que uma parte do meu coração ainda sente saudade dela.
Visto uma saia jeans, botas brancas de cano alto, uma blusa combinando e uma jaqueta jeans curta. Deixo o meu cabelo loiro solto e passo um pouco de brilho labial.
Sigo em direção à porta grande, mas antes que eu possa sair, uma jovem, mais baixa que eu, vestindo um uniforme de empregada, me para.
— Aonde vai, senhorita?
Me viro, arqueando uma sobrancelha.
— Vou sair. Digo. — Por quê?
— A senhora já avisou o Sr. Stracci? A sua voz é doce e gentil. Ela fala tão lindamente que me impede de ficar com raiva dela.
— Por que eu deveria? Rio. — Estou sendo mantida em cativeiro aqui ou o quê?
Dou uma olhada nos outros funcionários, que observam a situação com curiosidade. Embora empalideçam a princípio, logo soltam uma risadinha.
— Não, claro que não, senhorita. Responde a pequena criada. — Mas a senhora não conhece a Itália, conhece? Pelo menos não esta cidade... a senhora poderia se perder. Talvez o Sr. Stracci possa lhe oferecer um de seus motoristas.
Eu franzo os olhos. Quero protestar, mas ela tem razão. Seria muito mais fácil usar um dos carros do Lorenzo do que pegar o metrô.
Então, vou até o escritório dele sem dizer mais nada. Sei que ele está lá porque a rotina dele é a mesma todos os dias.
Bato na porta e entro, sem esperar permissão.
Ele levanta a cabeça de uma pilha de papéis, ergue uma sobrancelha, apoia os cotovelos na mesa e me olha sem dizer nada.
— Vou ao shopping. Digo. — Algum dos seus funcionários poderia me dar uma carona?
— Ao shopping? Ele hesita. — Sozinha?
— Bem, sim, com quem eu vou? Não conheço ninguém aqui. Reviro os olhos. — Estou presa nesta mansão desde que cheguei. Quero sair e explorar a região... comprar roupas novas... sei lá.
Ele fica em silêncio novamente, até que finalmente volta a concentrar a sua atenção nos papéis. — Tudo bem, mas meus seguranças vão te acompanhar.
— O quê? Franzi a testa. — Eu preciso ir ao shopping com dois homens enormes de terno me seguindo? Todo mundo vai ficar olhando!
Ele nem se mexeu, continuou trabalhando.
— Você vai sair com seguranças ou vai ficar aqui.
Apertei os punhos. Queria gritar com ele, dizer que ele não era meu pai, que era um idio*ta que eu conhecia há menos de um mês, só mais um dos amantes da minha mãe. Mas a parte racional de mim me dizia que se eu fosse sozinha... provavelmente me perderia numa cidade desconhecida. Claro, eu sempre posso usar o GPS do meu celular, mas e se eu for assaltada? Como vou me comunicar se não falo uma palavra de italiano?
— Tudo bem. Murmurei baixinho.
Ele pegou o celular e mandou algumas mensagens.
— Tudo bem. Murmurei. — O motorista chega em dez minutos. Diz ele. — Espere por ele lá embaixo.
— Tanto faz.
Fico parada nos degraus da entrada com o celular na mão, navegando pelas redes sociais até que uma van preta grande para bem na minha frente.
Um dos seguranças, um rapaz de cabelos castanhos e olhos verdes, abre a porta traseira e me chama com um gesto.
Entro e eles vêm comigo. Tenho três homens enormes me escoltando até o shopping. E não consigo evitar pensar em como seria engraçado pedir a opinião deles enquanto experimento sapatos e vestidos.
Coloco os meus fones de ouvido e me concentro em ouvir Taylor Swift enquanto olho pela janela. A van entra na rodovia e eu consulto o GPS para ver quanto tempo falta para chegar.
Quarenta minutos.
Não consigo evitar um suspiro. Por que a mansão é tão longe da civilização?
Não estou prestando muita atenção à viagem, nem ao que aqueles homens estão dizendo enquanto trocam olhares estranhos. A minha concentração está em "Don't Blame Me", minha música favorita, e no céu quente da Itália.
Estou tão perdida nos meus pensamentos que nem percebo quando, do nada, um carro azul bate na nossa lateral.
Começamos a girar e tudo parece desacelerar. O carro se comprime como se fosse feito de papelão, e um pedaço de metal da porta crava na minha coxa. Mas não sinto dor, apenas um zumbido incessante no ouvido e o desespero de perceber que tudo está embaçado.
Sinto mãos me puxando e consigo soltar o cinto de segurança. Reconheço o mesmo rapaz que abriu a porta. Agora ele me segura pela cintura e me guia para longe do carro.
Ele me diz algo, mas não consigo entender. Tento focar o meu olhar nele e, embora não consiga enxergar com clareza, noto sangue no seu estômago. Ambos estamos ofegantes e aterrorizados, caminhando com a pouca força que nos resta.
Atrás de mim, ouço explosões que não consigo decifrar, pois um bipe constante no meu ouvido faz a minha cabeça latejar.
E eu também sinto: filetes de sangue escorrendo pela minha testa.
Não consigo ver mais nada, não consigo ouvir mais nada, e desabo na grama. Sinto-o me puxando, mas não há nada que eu possa fazer quando o meu corpo decide se desligar e mergulhar na escuridão mais profunda.