Episódio 7

1361 Palavras
°•~~~~🔥~~~~•° Virginia. O bolo vulcão de avelã e cacau, ou coulant, é uma sobremesa que evoca sensualidade, calor reprimido e uma doçura que queima por dentro. Para começar, o chocolate amargo é derretido com manteiga e desejo: uma mistura densa e brilhante, como os pensamentos que você tenta esconder. Os ovos são batidos com açúcar até que a culpa se dissolva numa espuma doce e persistente. Farinha e avelãs torradas são adicionadas, crocantes como verdades meio confessadas. O creme é despejado em pequenas forminhas bem apertadas, e uma colherada de creme de avelã é escondida no centro de cada uma. O coração líquido, o centro vulnerável, aquele ponto exato onde tudo se quebra. Uma provocação. Uma promessa do que explode apenas quando tocado no lugar certo. Assa m*al. Porque o proibido não espera. Porque o ponto perfeito é onde tudo ainda estremece por dentro, e a superfície m*al se contém. E quando se rompe, com a ponta de uma colher trêmula, o líquido se rende. Transborda. Quente. Lento. Como um corpo que não consegue mais resistir, como uma boca que não quer mais se calar... Não é uma sobremesa, é uma confissão carnal, servida à beira do abismo. Quando abro os olhos, o aroma familiar de rosas me envolve. Olho ao redor. O bip da máquina conectada a mim é irritante. Movo a mão, tentando expelir o oxigênio do meu nariz, mas estou fraca. Até que noto o cateter intravenoso conectado à minha mão e sigo com os olhos o trajeto do tubo que se liga a uma bolsa de soro. Ao lado, uma bolsa de sangue que está apenas meio cheia, já que o meu corpo já absorveu a outra metade pelo braço. No entanto, o que mais me surpreende é que estou no quarto de Lorenzo. Meu quarto. Uma enfermeira entra e começa a me examinar sem dizer uma palavra. Tento falar com ela, mas não consigo formar uma frase. Estou fraca demais, cansada demais... Perco a consciência novamente e acordo de novo... e assim por diante. Até que abro os olhos mais uma vez, sentindo os raios de sol no meu rosto. Duas empregadas estão limpando o meu quarto. Pisquei algumas vezes e cobri o rosto com as mãos, franzindo a testa. — Senhorita, a senhora acordou! Disse uma delas, fechando as cortinas de repente. — Vou avisar o Sr. Stracci. Não respondi. Apenas apontei para o copo d'água no criado-mudo. A outra empregada percebeu e levou o copo aos meus lábios, e soltei um suspiro de alívio quando finalmente matei a sede. No entanto, não demorou muito para que eu adormecesse novamente. E quando acordei, foi porque senti os dedos dela na minha testa, afastando uma mecha de cabelo do meu rosto. — L-Lorenzo... Sussurro. — Shh... Estou aqui. Ele responde, com aquele sotaque italiano. — Você está segura... Por algum motivo, a sua mão grande envolvendo a minha me dá uma sensação de segurança, mesmo que o meu coração ainda esteja acelerado. — Eu estava com tanto medo. Os meus olhos se enchem de lágrimas. — Eu sei, bambina, se acalme... Ele acaricia os meus nós dos dedos. — Você está comigo agora, e nada de rui*m vai acontecer com você. Eu prometo. Eu assinto. — O que aconteceu? Eu só me lembro de uma batida e... — Sim, algumas pessoas imprudentes bateram na van. Ele coça a nuca. — Por sorte, Ettiene conseguiu te colocar em segurança, e a polícia está cuidando do caso, porque o motorista fugiu. — Droga... Murmuro, sentindo a ansiedade me invadir ao me lembrar do momento. — Você está bem, Virginia, nada vai acontecer com você. Ele aperta a minha mão. — Os médicos suturaram o ferimento na sua coxa e na testa. Você perdeu muito sangue, então fizeram uma transfusão. Você precisa descansar, recuperar as forças e logo estará de volta aproveitando o verão como antes... Viro os meus olhos azuis para ele e passo a ponta dos dedos pela sua palma. — Obrigada por cuidar de mim. Sussurro, mas logo adormeço novamente. Passo uma semana entre consultas médicas e séries da Netflix, recuperando lentamente as minhas forças e curando os meus ferimentos — tanto internos quanto externos. Ainda estou com muito medo, mas a forma como Lorenzo cuidou de mim naquela época me faz sentir segura sob o seu teto agora. Ada, a pequena empregada, e eu nos tornamos muito amigas. Ela me contou que o "Sr. Stracci" mandou construir uma ala médica no meu quarto para que eu não ficasse apavorada no hospital e pudesse ficar confortável na minha própria cama. E enquanto eu estava inconsciente, ela falava com meu pai todos os dias para tranquilizá-lo sobre o meu estado. Minha mãe não pareceu se importar muito. Ela perguntou se eu estava me sentindo melhor e, quando recebeu uma resposta afirmativa, voltou a se concentrar na viagem com as amigas. Meu pai quis voltar da Austrália inúmeras vezes, mas eu o convenci a não fazer isso. Ele merecia aquela viagem, e eu já tenho idade suficiente para cuidar de dois cortes no meu corpo. O corte na minha coxa é o que exige mais atenção. É preciso desinfetá-lo todos os dias até que os pontos cicatrizem e sejam removidos. Então, quando a noite cai, decido descer para pegar algo para beber, como uma desculpa para recuperar um pouco de mobilidade depois de uma semana sedentária. Vou até a cozinha e encho um copo com água fresca, que o meu ser inteiro agradece quando a recebo. Ouço passos atrás de mim, esperando que seja algum dos funcionários vindo me ajudar, como sempre fazem quando preciso de algo, mas não… Lorenzo para na porta, vestindo uma camisa preta aberta e calças largas que deixam… muito pouco para a imaginação. — Você não consegue dormir? Balanço a cabeça, tentando recuperar a compostura. Dou um gole na minha bebida e me encosto no balcão. — Não, já descansei o suficiente. Preciso me mexer um pouco... E você? — Eu tinha... alguns papéis para terminar. Ele passa a mão pelos cabelos. Ofereço-lhe o copo d'água. Ele hesita por um instante antes de aceitá-lo, e os nossos dedos se roçam por alguns segundos, causando-me um arrepio. — Você tem um kit de primeiros socorros? Decido quebrar o silêncio tenso entre nós. — O médico disse que eu deveria desinfetar os ferimentos todos os dias, e a Ada tem feito isso para mim até agora... mas eu quero fazer eu mesma. Ele acena com a cabeça e se vira para ir a um dos banheiros. Espero por ele e decido sentar no balcão para aproveitar o luar que entra pelas enormes janelas da cozinha. — Cuidado. Sinto as suas mãos na minha cintura e, num movimento rápido, ele me levanta como se eu fosse uma pluma. — Eu te ajudo. Antes que eu possa responder, ele abre o kit de primeiros socorros e tira gaze e antisséptico. Removo cuidadosamente a bandagem que cobre a minha coxa e ele leva as suas mãos trêmulas até o ferimento, aplicando uma pequena quantidade de antisséptico. — Você está bem? Franzo a testa, percebendo a tensão no seu corpo. — Sim. Ele responde secamente, usando a gaze para limpar o sangue seco. — Dói? — Não... só arde um pouco. Sussurro. Ele fixa os seus olhos escuros em mim e se inclina levemente em direção à minha perna. Lentamente... ele começa a soprar no ferimento para aliviar a sensação de queimação. — Melhor? Ele mantém as suas mãos grandes na minha coxa e eu só consigo acenar com a cabeça. Ele termina esse corte e passa para o da minha testa, aproximando tanto o rosto do meu que consigo ver a cicatriz tênue na sua sobrancelha direita, as pequenas sardas quase invisíveis nas suas maçãs do rosto. — Lorenzo... ‍​‌‌​​‌​‌​‌​‌​‌​​​​​​​‌​‌​‌​​​‌‌​​‌​​‌​​​‌​​​‌​​‌​‌​‌‌‍
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR