Episódio 9

1694 Palavras
Os dias seguintes passam como páginas viradas pela metade. Lorenzo está em casa, mas não comigo. Ele entra e sai. Fala ao telefone. Dá ordens. Come pouco. Dorme ainda menos. Quando por acaso estamos no mesmo cômodo, o seu olhar me atravessa como se eu fosse parte da mobília. Ele não me toca. Não me procura. Não menciona o que aconteceu. É isso. Dói mais do que qualquer rejeição explícita. Porque começo a pensar coisas que não quero pensar. Que eu era apenas uma válvula de escape, apenas uma tentação, que a noite passada foi uma necessidade, não uma escolha. Digo a mim mesma que é lógico, que ele é assim, que eu sabia. Que não tenho o direito de exigir nada. Mas a raiva não ouve a razão. Estou com raiva dele por seu silêncio. Estou com raiva de mim mesma por ter acreditado nele. Estou com raiva do meu corpo por ter reagido. E, em algum canto incômodo da minha consciência, minha mãe aparece. Não é a voz dela. Não é o rosto dela. É o pensamento. O que eu fiz. A linha que cruzei. Não me sinto totalmente culpada. Essa é a pior parte. A culpa é tênue, distante. O que sinto claramente é outra coisa: fúria. Fúria por ter cedido. Fúria por ter ficado. Mas, acima de tudo, fúria porque não sei se conseguirei impedir que isso aconteça novamente. °•~~~~☠️~~~~•° Lorenzo. A casa dorme, mas minha mente não. Estou em pé diante da janela do meu escritório, paletó vestido, arma apoiada na mesa, observando as luzes distantes da cidade. Tudo parece em ordem daqui de cima. Ordem demais. E isso me irrita. É a primeira vez que sofro um ataque deliberado. A essa altura... os meus antigos inimigos sabem onde não ir. A semana se esvai em reuniões, ligações codificadas e nomes que não deveriam mais existir. O ataque não foi improvisado. Eu sabia disso desde o início. Foi limpo, rápido e intencional. Não para matar. Para avisar. Para testar o terreno. Erro deles. — Quero um nome. Digo, sem elevar a voz. Os meus homens permanecem sentados ao redor da mesa. O silêncio pesa mais do que as paredes da mansão. — Não me importa quanto tempo leve. Continuo. — Nem quanto custe. Quero saber quem deu a ordem. Francesco, à minha direita, acena rigidamente com a cabeça. Ele me conhece há anos. Consegue ler cada nuance do meu tom de voz. — E quando o tivermos. Acrescento, colocando as duas mãos sobre a mesa. — Quero a cabeça dele. Ninguém mexe com o que é meu sem pagar o preço. Ninguém pergunta o que quero dizer. Não há necessidade. Virginia surge na minha mente sem ser convidada. O seu corpo. A sua rebeldia. O jeito como ela me olha, como se não devesse nada ao mundo. É por isso que a evito. Porque, desde aquela noite, o controle me escapou das mãos. Passo os meus dias sem vê-la. Mudo a minha rotina. Janto tarde. Subo para o meu quarto antes que ela desça. Não é por culpa. Não é por causa de Nara. É porque não posso me permitir desejar algo que não posso ter. Naquela noite, porém, decido descer para jantar. Eu não deveria ter feito isso. Encontro-a na sala de jantar, sentada com as costas eretas, como se soubesse exatamente quando eu apareceria. Ela veste uma minissaia que não deixa nada para a imaginação e uma blusa justa que pressiona o meu peito de forma desconfortável. Ela faz isso de propósito. Eu sei disso pelo jeito como ela não me olha. Sento-me à sua frente. O tilintar dos talheres é a única coisa que quebra o ar pesado. Falo sobre coisas triviais. Ela responde com monossílabos. Nem um olhar sequer. Nem uma concessão. Ela me ignora. E isso... isso me e*xcita mais do que qualquer provocação direta. Quando ela se levanta para sair, eu a sigo sem pensar. Alcanço-a no corredor e a encurro contra a parede, colocando uma mão de cada lado do seu corpo. — Por que você está fazendo isso comigo? Cerrei os dentes. — O quê? Eu não estou fazendo nada... Estreito os olhos. — Você é uma péssima atriz. Murmuro. — Você sabe muito bem que está me provocando com essa saia. Inclino a cabeça, o suficiente para que ela sinta a minha respiração. Ela m*al esboça um sorriso. — Você está enganado, Lorenzo. Eu não provoco homens casados. — Pare de brincar comigo. Rosno. — Por quê? Ela inclina a cabeça. — Pensei que você gostasse de brincar... Levo a minha mão em direção à sua garganta, os meus dedos aplicando uma leve pressão, aproximando o seu rosto do meu até que os nossos lábios quase se toquem. No entanto, quando tento beijá-la, ela vira o rosto. — Por que você está resistindo, Virginia? Sussurro, sentindo o seu pulso acelerar sob os meus dedos. — Você me quer tanto quanto eu te quero. Não tente fingir o contrário. — Você é o marido da minha mãe. Ela ofega. — E daí? Ergo uma sobrancelha. — Isso não nos impediu antes. Ela se move abruptamente, agarra o meu pulso e puxa a minha mão para longe do seu corpo. — Eu não sou uma substituta para a minha mãe. Ela me empurra. — Nem para uma das prosti*tutas com quem você tra*nsa. Foi por isso que você tra*nsou comigo, não foi? Para se aliviar? Eu me retraio como se o toque dela me queimasse, uma sensação no peito semelhante ao horror. — Não seja ridíc*ula. Eu franzo a testa. — Isso não tem nada a ver com a Nara, nem com nenhuma outra mulher... — Não me importo, encontre outra pessoa para tran*sar. Ela tenta passar por mim em direção às escadas, mas eu a impeço, agarrando o seu braço e puxando-a de volta para mim. O meu coração dispara, a minha respiração fica ofegante. Odeio a distância que ela está tentando criar entre nós. — Eu não quero nenhuma outra mulher além de você, não desde que sei como é estar dentro de você. Admito. Odeio o quão patético isso me faz sentir. — Você me evitou a semana toda. Ela respondeu, olhando para mim com aqueles intensos olhos azuis que estão me enlouquecendo. — Não é pelo motivo que você pensa. Balanço a cabeça, e a minha outra mão afasta uma mecha de cabelo loiro do seu rosto. — Você não é uma substituta, nem um objeto para satisfazer as minhas necessidades. — O que eu sou para você, então? Minha pecaminosa Virginia… Se ao menos você soubesse… — Ainda não descobri. Suspiro. — Mas há uma coisa que sei com certeza… — O quê? Ela baixa o olhar lentamente para meus lábios enquanto os lambo; estamos tão perto que o seu perfume me envolve. Inspiro, desejando absorver seu aroma. — O meu corpo arde por você toda vez que você entra numa sala. Toda vez que você olha para mim, toda vez que você sorri, toda vez que vejo a luxúria refletida nos seus olhos… O beijo é inevitável. Brutal. Necessário. A suas mãos alcançam as minhas e, por um instante, perco toda a razão. Eu a empurro contra a parede, sentindo a sua rendição… como ela está prestes a cruzar a linha. — Lorenzo… Ela sussurra. — Faça o que quiser comigo. Arfo, fechando os olhos ao sentir seus lábios em meu pescoço. Ela sorri, aquele sorriso travesso que anuncia problemas e paixão. Ela desabotoa a minha camisa e começa a deixar um rastro de beijos até o meu abdômen. Ela se ajoelha à minha frente, o olhar fixo no meu, e começa a desabotoar o meu cinto enquanto morde o lábio. Instintivamente, levo a mão aos seus cabelos, entrelaçando os meus dedos nos seus fios sedosos. Tenho certeza de que ela vai me arruinar, que vai me destruir completamente. Virginia não é uma daquelas mulheres que vão embora sem deixar uma marca profunda e dolorosa. E a pior parte? Eu não me importo. Eu quero que ela me quebre. Eu quero que ela me destrua. Até que passos nos interrompem. Virginia rapidamente se afasta e sobe as escadas, desaparecendo tão depressa que m*al tenho tempo de perceber que Francesco está parado na minha frente, com os olhos arregalados. — Droga, Francesco! Eu o confronto, furioso. — O que dia*bos você quer?! Ele não se abala. — Nós os pegamos. Eu aceno com a cabeça, passando a mão pelos cabelos. Isso é importante. Preciso manter o foco... — Quem são eles? — Russos. Uma gangue pequena, mas com reforços. Nós os capturamos há uma hora. Um sorriso lento e perigoso se espalha pelo meu rosto. — Perfeito. Murmuro. — Esta vai ser uma longa noite." E nenhum deles vai sobreviver a isso. — Senhor... Com licença, não quero me intrometer. Ele pigarreia. — Mas você e a sua filha...? O meu olhar escurece. — Ela não é minha filha. Sussurro. — E o que acontece entre nós não é da sua conta. Da próxima vez que você falar, olhar ou mesmo respirar perto de Virginia, eu corto a sua língua. Entendeu? Ele engole em seco. — Entendido, senhor. — Agora, leve-me até os idio*tas. Ordeno. Francesco se dirige para a saída. Aproveito o momento para ajeitar as minhas roupas e recuperar o fôlego. Preciso me livrar dessa m*aldita ereção, mesmo que a interrupção do meu segundo em comando tenha sido como um balde de água fria. Viro-me para a escada onde Virginia deixou um rastro do seu perfume, cerrando os punhos, tentando não imaginá-la no seu quarto... tomando banho, vestindo aquele vestido de seda que usa para dormir, na sua cama... Preciso me controlar. Por enquanto. — Terei tempo para você mais tarde, Virginia. Isso é só o começo... ‍​‌‌​‌‌​‌​‌​‌​‌​​​​​​​‌​​‌​​​‌‌​​‌​​‌​​​‌​​​‌​​‌​‌​‌‌‍
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