>> Cristina Hansen >>
Eu não sei ao certo o que é mais estranho…
Se é o cara desinteressante, galinha e hostil, que eu muito desejei nunca ter tido o desprazer de conhecer, agora está ao meu lado, e ainda por cima, como uma grande e nada prazerosa ironia, ser o homem ao qual eu estou prestes a apresentar ao meu pai como meu noivo.
Noivo…
Era estranho pensar nele, ou até mesmo me dirigir a ele, dessa forma. Porém, eu precisava me acostumar com a ideia de que para todos os efeitos era isso que ele seria para mim - na vista de todos - pelos próximos cinco meses que estava por vir.
Contudo, não era apenas isso que martelava a minha mente sem nem um pingo de modéstia. Mas sim a ideia de que eu estava a cada segundo que se passava mais próxima de casa - a mesma casa que eu não visitei nos últimos dois anos - só em pensar nisso o meu estômago revirar a ponto de me fazer revirar.
Eu ainda não me sentia pronta o suficiente para apresentar o "meu noivo" para a minha família. Por que eu sei que tanto o meu pai, quanto a minha mãe e até mesmo a Samantha eram minuciosos o suficiente para observar todos os detalhes até descobrir o que tem de errado nessa relação. Mas o que me deixava mais nervosa é saber que eles não dirão nada até ter certeza.
Tudo estava acontecendo tão rápido que eu m*l tive tempo para raciocinar sobre qual era a melhor solução para resolver o meu problema. Noah, estava com uma expressão fechada e pensativa desde a sua descoberta.
O que era bem compreensível, já que ele está aqui contra a sua vontade própria e possivelmente teria que lidar com um drama familiar que não estava imposto no acordo.
Segurei meus dois braços - como alguém que tinha a intenção de abraçar a si mesma - e comecei a acariciar a minha pele com o polegar enquanto observava a movimentação de pessoas na rua. Sentindo o meu peito subir e descer por causa do ar que saia dos meus pulmões enquanto eu ficava a cada segundo mais nervosa com a aproximação do meu destino.
— Foi ela que roubou o seu namorado ou ela só pegou de volta o que você já tinha roubado? — Ele perguntou, fazendo com que eu tomasse um breve susto por causa da voz grossa que me tirou dos meus devaneios sem nem sequer ter me dado um aviso prévio. Virei a minha cabeça em direção a ele e continuei o olhando de forma desentendida — Você sabe… A sua irmã…
A forma que ele comentou, para a minha surpresa, foi como alguém que estava receoso com as suas próprias palavras. Noah não era do tipo que media as palavras antes delas saírem da sua boca.
— Pareço ser o tipo de pessoa que rouba o namorado de uma irmã? — Perguntei enquanto levantava um pouco uma das minhas sobrancelhas e olhava para o mesmo como se eu tivesse dito o óbvio. Sou incapaz de beijar o mesmo homem que vi outra mulher beijando em uma festa, imagina roubar o namorado da minha irmã.
— Você também não parece ser do tipo que usa um vídeo para obrigar alguém a se casar com você — Ele retrucou, fazendo com que eu soltasse uma risada suave e olhasse para ele, pela primeira vez desde que entrei no carro, nossos olhares de encontraram e eu puder perceber o quanto ele estava curioso sobre o assunto — De você, eu não duvido mais de nada.
— Você deve me achar uma megera — Comentei fazendo com que ele desse risada e automaticamente eu rir também. Voltando a olhar para frente, mas de soslaio, eu pude perceber que ele assentiu com a cabeça.
— Das piores… — Comentou como alguém que realmente estava aflito com toda a situação, mas o tom de sua voz entregou que ele não está de fato se sentindo assim — Mas até que não tá sendo tão mau assim fingir esse noivado.
Eu olhei para ele imediatamente, com a testa franzida e um pouco assustada com a sua mudança repentina de opinião, já que até ontem ele me olhava como se estivesse prestes a atear fogo em mim.
— Essa chantagem está me ajudando a me desfazer dos rumores sobre mim — Ele justificou, fazendo com que um sorriso bem humorado nascesse nos meus lábios.
— Em outra palavras, você está usando a minha imagem para melhorar a sua — Indaguei com a sobrancelha erguida e ele deu risada ao mesmo tempo em que assentiu com a cabeça em sinal de concordância.
Pelo menos agora eu tenho um motivo para não me sentir tão m*l com tudo isso.
— Você me usa para agradar seus pais e eu te uso para salvar a minha imagem, uma mão lava a outra… — Ele falou como se não fosse nada demais. Eu dei risada enquanto negava com a cabeça e voltava a olhar pela janela — O que tá puxado mesmo é esse negócio de castidade.
— Isso precisa parecer ser real. — Indaguei como se fosse o óbvio enquanto gesticulava com a mão. Olhei para ele que encarava a estrada e o volante com atenção — Nenhum noivo que ame a sua noiva dorme com outras durante o noivado.
— Bom, se você não quer que eu transe com outras… — Ele comentou enquanto gesticulava com o polegar sobre o volante. Tirou uma das mãos do acessório, fazendo com que uma imagem surpreendentemente atraente dele dirigindo de uma mão só pudesse ser vista. Colocou a sua mão na minha coxa enquanto olhava para mim com malícia — Você bem que poderia me ajudar a aliviar a barra...
Completou, fazendo com que a minha boca abrisse e fechasse algumas vezes sem saber o que responder. Eu estava completamente despreparada para essa investida repentina, mesmo sabe que esse tipo de coisa poderia vir dele a qualquer momento.
— Eu não vou t*****r com você! — Exclamei como se ele estivesse louco, agarrei a mão dele que estava na minha coxa - me repreendendo mentalmente pelo efeito que aquilo teve no meu corpo - e joguei ela em direção ao dono, que resmungou alguma coisa que eu não entendi.
— E eu não vou ficar quatro meses sem t*****r por que você quer! — Ele falou como se fosse o óbvio, fazendo com que eu olhasse para ele como uma mulher adulta olhava para uma criança que estava fazendo birra, com repreensão, e ele olhou para mim a melhor expressão de deboche que ele tinha — Eu não sei como funciona para vocês, mulheres, mas os homens precisam gozar.
— Bate punheta... — Falei como se fosse o óbvio e dei com os ombros, virando para a janela enquanto sentia o peso do olhar raivoso sobre mim.
— Vou pensar em você quando bater! — Informou, entre os dentes e nitidamente decepcionado com a minha resposta. Eu respirei fundo e fechei os olhos implorando aos céus que ele me desse ao menos um pouco de paciência para aguentar tudo isso.
Encostei a minha cabeça no vidro da janela - que estava meio fechado e meio aberto - e continuei observando as ruas do pequeno interior onde eu cresci, já tínhamos passado pela entrada a alguns minutos e por mais que eu tivesse dois anos que não vinha para esse lado, eu me lembrava perfeitamente e cada uma das ruas em que passávamos.
Sentir um nó se formar na minha garganta quando uma lanchonete em especial passou bem na minha frente, fazendo com que a minha mente fosse atingida por um milhão de memórias boas e uma única memória que fazia com que o meu peito se destroçasse.
Eu pedi para que o Noah estacionasse a alguns passos de distância da casa onde os meus pais moravam, porque na minha cabeça isso seria o suficiente para que eu pudesse me acostumar com a idéia de que estaria voltando aqui depois de tanto tempo e que finalmente iria enfrentar - cara a cara - o fato da minha irmã e do único homem ao qual eu já amei terem se casado.
Ele estacionou, saiu do carro e ficou esperando que eu também saísse ao lado do carro. Porém, não foi tão fácil para mim já que o inteligente do meu noivo trancou a porta. Fazendo com que eu puxasse a alavanca e empurrasse a porta do carro mais vezes do que poderia contar nos dedos. Comecei a bater no vidro do carro, já ficando desesperada com a falta de ar que tomava conta nos meus pulmões, fazendo com que ele - finalmente - notasse o que fez e arregalasse os olhos, abrindo a porta do carro.
— Foi m*l, tô acostumado a andar sozinho — Disse enquanto abria a porta do carro e ria de nervoso da situação, eu saí do carro - sem deixar de olhar para ele de forma ameaçadora - e ajeitei o meu vestido enquanto olhava para o meu corpo para ter a certeza de que eu ainda estava arrumada — Tá tudo no lugar.
Ele comentou. Parei de me auto examinar e olhei para ele que parecia mais nervoso do que deveria está, meu olhar foi dividido entre seu rosto e seus dedos de uma mão que eram estrelados com o da outra mão diversas vezes em um curto período de tempo.
— Você tá legal? Parece tenso… — Perguntei um pouco preocupada com o homem em minha frente que parecia prestes a dar um treco e eu dei risada quando ele respondeu que "sim" mas negou com a cabeça — Meu pai é um amor de pessoa, não precisa se preocupar.
— Ele pode ser um amor de pessoa com geral, mas não vai ser com o homem que, aparentemente, quer meter o p*u na filha dele pelo resto da vida — Me respondeu com certeza do seu argumento e eu olhei para ele enquanto tentava segurar o riso — Bem… Eu não seria…
— Acho que essa é uma coisa que eu nunca pensei que veria em toda a minha vida — Comentei rindo, ganhando toda a atenção do homem alto e forte em minha frente para mim, me olhando como se estivesse curioso para que eu continuasse — Noah Sinclair com medo do pai de uma garota.
Ele gargalhou como se estivesse se deliciando da minha piada tanto quanto eu e fez menção de quem ia levantar a calça que nem estava caindo enquanto olhava para mim. Não pude evitar de olhar para as covinhas que estavam surgindo em suas bochechas com o nascer do seu sorriso e me repreendi mentalmente por ter uma tara esquisita nessas coisas.
— Isso não é medo, é autopreservação! — Corrigiu-me, me fazendo gargalhar e assentir com a cabeça, fingindo concordar e acreditar no que ele falou. — É aquela casa?
Meu noivo de mentira apontou com o queixo. Eu direcionei o meu olhar para a direção em que ele tinha apontado, tendo a visão perfeita da casa de aparência antiga onde meus pais moram. Ela era grande, madeirada e tinha um ar de antiguidade, mas sem deixar de ser chique.
— Sim! — Saiu como um sussurro, eu continuei apreciando a casa com um sorriso no rosto. Fui completamente pega de surpresa quando o Noah deslizou a sua mão no meu antebraço e segurou a minha mão.
Entrelaçou seus dedos aos meus e no mesmo instante, algo que parecia ser um choque térmico me atingiu, olhei para ele sem entender a sua ação repentina, ele sorriu de forma suave enquanto se inclinava em minha direção e colocava a sua boca próxima ao meu ouvido.
— Tem gente olhando — Ele sussurrou e no mesmo instante o meu corpo se arrepiou com o seu hálito quente atingindo a minha pele.
— Lembra do que eu te falei? — Perguntei virando meu rosto para ele. Me arrependo no mesmo instante em que percebi que nossos rostos ficaram muito mais próximos do que eu queria.
Seu nariz estava quase grudado ao meu, seus olhos azuis - um pouco mais escuro que o meu - encarava os meus com precisão, o seu olhar desceu para a minha boca por alguns instantes e isso foi o suficiente para que toda a minha respiração, junto com os meus batimentos cardíacos, acelerasse. Eu engoli em seco quando um sorriso recheado de malícia nasceu em seus lábios, virando a minha cabeça para o lado oposto na mesma hora em que eu ouvir alguém quase gritando o meu nome.
— Mamãe? — Perguntei com os olhos um pouco arregalados e a bochecha ruborizada assim que a mais velha se aproximava de mim com uma expressão que transmitia pensamentos impuros na face.
— Oh, minha querida! Eu pensei que vocês não viriam mais — Ela disse e em um puxão, me tirou de perto do Noah, abraçando o meu corpo que perto do dela parecia quase inexistente com o tanto de força que ela usava nesse momento — Esse deve ser o…
— Noah — Ele completou assim que ela me soltou e estendeu a mão para um aperto. O sorriso simpático que ele colocou na face parecia completamente puro e não de alguém que veio o caminho todo reclamando que eu estava o obrigando a fazer castidade — É um prazer conhecê-la…
— Me chame de sogra! — Ela disse com um sorriso enorme e orgulhoso no rosto, segurou a mão dele e puxou o homem que era o dobro do tamanho dela para um braço. Eu não pude deixar de sorrir da expressão surpreso do Noah com isso — Vamos, já está todo mundo esperando.
Ela disse soltando ele e entrelaçou seus braços nos nossos enquanto nós puxava em direção a casa, relatando os últimos acontecimentos no hospital e o quanto meu pai estava ansioso para conhecer o seu futuro genro.
— Tirem os calçados e venham pra cozinha — Ela ordenou enquanto terminava de tirar a sandália e começando a caminhar em direção a cozinha.
— Tirar? — Noah perguntou com um tom receoso, fazendo com que eu olhasse para os pés dele, percebendo que ele estava com um sapato fechado.
— Você tem chulé? — Perguntei para ele que me olhou como se eu tivesse mandado ele jogar uma bomba na minha família e negou com a cabeça — Meu pai odeia que suje o chão dele.
Justifiquei a ordem de minha mãe e ele assentiu com a cabeça como se tudo finalmente tivesse feito sentido, eu tirei o meu salto e esperei que o Noah tirasse o sapato dele.
— A depender do nível de ameaça do seu pai — Ele comentou enquanto se posicionava na minha frente e eu olhei para ele, esperando ele prosseguir — Eu mesmo espalho esse vídeo e termino com toda essa chantagem.
Completou em alarde, fazendo eu gargalhar e assentir com a cabeça em concordância. A mão do Noah se encontrou com a minha pela segunda vez, mas dessa vez, a iniciativa veio da minha parte. Eu respirei fundo, mas nervosa do que deveria, não com o fato de que eu estaria prestes a encarar meu pai.
Mas sim por que eu veria ele…
Apertei um pouco a mão do Noah antes de começar a me dirigir à cozinha, sendo acompanhada pelo Noah completamente apreensivo do meu lado. Quando entramos na cozinha, o olhar do meu pai que estava sentado na ponta da mesa se ilumina ao perceber a nossa presença, minha irmã que nesse momento estava com a minha mãe atrás do balcão olhava para mim com um semblante fechado.
Eu sorrir para ela sem mostrar os dentes e caminhei em direção ao meu pai que nos encarava com atenção.
— Desculpa a demora, papai! Pegamos engarrafamento… — Mentir e abracei o mesmo que parecia está com dificuldade para se levantar da cadeira.
— O importante é que vocês chegaram — Ele disse com seu jeito doce de sempre e estendeu a mão para o Noah que o comprimentou assim que eu me soltei do seu abraço — É um prazer finalmente conhecer o noivo da minha filha.
— O Senhor fala como se só tivesse ela como filha — Samantha interrompeu a conversa, fazendo o que todos virassem a atenção para ela, que nesse momento estava colocando uma travessa com a lasanha de camarão gratinado da minha mãe. Ela se virou para o Noah com mais atenção do que deveria e abriu um sorriso simpático - até demais - enquanto estendia a mão para um aperto — Eu sou Samantha Hansen, a irmã mais velha.
— A famosa talarica — Sussurrei enquanto me inclinava um pouco em direção ao "meu noivo" para que só ele pudesse escutar e o mesmo estava prestes a gargalhar, mas segurou o riso antes que ele me entregasse.
— É um prazer. Sou o Noah! — Ele disse com uma simpatia desnecessária e eu revirei os olhos incomodada com isso.
— Acredite, filho! Nessa casa todos te conhecem. — Meu pai comentou enquanto fazia alguns gestos com a mão para que todos se sentassem, e assim nós fizemos.
— O seu sogro até aprendeu a mexer no celular para fuxicar a sua vida quando a Samantha disse que você também fazia parte desse negócio de famosos — Minha mãe comentou enquanto colocava a salada ao lado da lasanha e se sentava próximo ao meu pai. A informação dela fez com que o meu cérebro gelasse.
Mas o que realmente me deixava nervosa era a forma a qual ela se referia ao meu pai. Sogro…
— Não deve ter encontrado nada muito agradável sobre mim — Noah comentou com um sorriso simpático enquanto se virava para meu pai — A mídia tem um terrível gosto em fazer pouco caso da minha pessoa.
Ele argumentou, com mais sinceramente do que eu esperava na sua voz e meu pai olhou para ele por alguns segundos antes de entrar em concordância com apenas um gesto de cabeça.
— De fato, mas se fosse para acreditar em tudo o que aparece nas telinhas, eu não conheceria mais a minha menina — Meu pai comentou enquanto olhava para mim com um sorriso meigo, que foi retribuído da mesma forma.
— O Johnny não vem, querida? — Minha mãe perguntou enquanto olhava para a minha irmã. Eu sentir a minha saliva descer pela minha garganta como se fosse gilete e sorrir sem mostrar os dentes para o Noah que me olhava com atenção.
— Ele foi levar o carro do pai no mecânico, mas deve estar… — Ela parou de falar no mesmo segundo em que a campainha tocou, abriu um sorriso de satisfação no rosto e tirou os olhos da minha mãe por alguns segundos, direcionando para minha direção como alguém que tinha levado a vitória — Ele chegou!
Assistir a minha irmã mais velha levantar- se da mesa e caminhar até a porta da cozinha, a sua ausência no cômodo foi notável segundos depois. A minha única reação foi pegar a taça de champanhe que estava sobre a mesa e começar a bebericar o líquido do recipiente assim que eu ouvir o barulho da porta sendo aberta.