Quando recebeu um telefonema de Jongin lá pelas 10h da manhã, Kyungsoo já saiu de casa preocupado. Sabia que uma hora ou outra eles teriam que ter uma conversa, mas sendo esta logo depois de ter expulsado o alfa de vida de seu filho, o ômega só conseguia imaginar que essa conversa teria um discorrer terrível e que só acabaria em uma briga feia. Merda, grande merda! Kim Jongin era poderoso demais e tinha grandes chances de aquilo acabar muito m*l e sobrar apenas para ele.
Entrou na sala do Kim com os passos meio vacilantes, queria estar mais seguro de si, mas isso era impossível naquele momento, só conseguia pensar na possibilidade de Jongin querer dar o troco e tentar tirar Mingyu de perto dele, esse certamente seria o seu fim, não teria como contra-atacar.
— Sente-se. — o alfa lhe apontou a cadeira bem à frente de sua mesa.
Ao contrário do que Kyungsoo imaginava, ele não parecia bravo, na verdade Jongin estava calmo de um jeito que não estava acostumado a ver e podia jurar que havia um leve sorriso em seus lábios, até mesmo seu cheiro estava melhor do que o de costume. Claro que o Do estranhou tudo aquilo, mas guardou apenas para si, já havia aprontado demais em pouco tempo e não podia vir com quatro pedras na mão enquanto Jongin aparentemente estava tentando ser agradável.
— Sei que começamos com o pé errado. — ele disse, empurrando para perto dele um copo grande de café — Mas nós somos os pais do Mingyu e ele não merece crescer cercado por duas pessoas não se dão bem, então, vamos tentar nos dar bem a partir de agora, o que acha?
Kyungsoo estava desconfiado, era como sua avó dizia “filho, quando a esmola é grande o santo desconfia”. Mas o que iria dizer? Não podia simplesmente negar aquele pedido de trégua, Jongin estava agindo de forma correta e fazendo algo que já deveria ter sido feito há muito tempo. Eles não podiam continuar assim, tinham um filho juntos e agiam como dois estranhos.
— Acho muito bom. — o ômega respondeu, mas ainda com a sua velha mania de não o encarar — Mas me chamou até aqui apenas para isto?
Ele não queria ser grosseiro ou desmerecer aquele assunto, mas não era fácil de engolir que Jongin tenha o chamado ali apenas por aquele homem, afinal, aquele alfa não dava ponto sem nó.
— Não, certamente que tenho outro assunto tão importante ou até mais para tratar. — o rosto sereno se fechou um pouco, mas ele ainda estava calmo. Kyungsoo bebia mais um gole do café e por algum motivo o alfa sorriu pequeno o vendo fazer isso — Eu pensei bastante e já está mais do que na hora de assumir legalmente a paternidade do Mingyu, eu quero que ele tenha o meu sobrenome.
O susto foi um pouco maior do que ele esperava, mas meneou a cabeça afirmando que havia entendido. Era o certo a se fazer, Mingyu tinha todo o direito de ter o sobrenome do pai, isso lhe traria muitos direitos, direitos estes que tornariam a sua vida muito melhor. Era mais do que ter o nome do pai nos documentos, era ter o nome de Kim Jongin em seus documentos, ter esse sobrenome o tornava o filho primogênito do Kim e dessa forma o seu principal herdeiro.
Mas da mesma forma que traria direitos para Mingyu, também traria direitos para Jongin.
— E tem mais. — Kyungsoo entrou em estado de alerta — Também estou entrando com um pedido de guarda compartilhada.
Aquilo tirou o chão de Kyungsoo.
— Jongin, acho que nós podemos resolver isso apenas entre nós, sem nenhum advogado ou promotor. — o ômega tentou manter a calma, mas estava quase gaguejando — Tudo bem que queira ser legalmente o pai do Mingyu, eu até gosto da ideia e sei que o Mingyu vai gostar mais ainda, mas nós não precisamos de uma guarda compartilhada, você pode vê-lo quando quiser.
— Quando eu quiser?
— Todos os dias, se você quiser, ele pode dormir na sua casa, pode viajar com você, você pode ser o pai que você quer ser, eu juro que não vou interferir mais.
O alfa notou o quanto Kyungsoo parecia aflito e nervoso, suspirou e sorriu, segurando suas mãos juntas as dele. Ficou em silêncio esperando que o Do ficasse mais calmo. O ômega respirou fundo e ficou mais quieto, encarando suas mãos juntos e o quanto aquele toque parecia o fazer bem.
— Por favor, Jongin, vamos resolver isso entre nós. — ele sussurrou, parecia estar implorando.
— Kyungsoo, olhe pra mim. — ele pediu, esperando até que o ômega olhasse — Não precisa ter medo, assim como eu não quero ficar longe de Mingyu, eu sei que você também não quer. Eu não sou um monstro, eu nunca tiraria ele de você, nós amamos a mesma criança e só queremos o bem dela e o bem dela é que estejamos bem um com o outro, cuidando dele juntos. Eu sei que eu não pareço o melhor alfa do mundo, mas eu não sou mais aquela pessoa terrível que você conheceu na faculdade, aconteceram muitas coisas que me mudaram, não agi da forma certa quando você apareceu aqui naquele dia, mas eu juro que tenho um motivo pra isso.
— Um motivo?
O alfa meneou a cabeça afirmando.
— Sim, eu não gosto de falar sobre isso, mas tenta me entender, por favor.
— Eu entendo. — o ômega respondeu — Todos temos os nossos segredos.
[...]
Kyungsoo segurava em suas mãos os novos documentos de Mingyu, agora Kim Mingyu era oficialmente o filho de Kim Jongin, em pensar que em algumas semanas atrás ele nem imaginava que isso fosse acontecer um dia, sua vida estava de cabeça para baixo, completamente de cabeça para baixo, mas estranhamente estava começando a gostar daquela forma de viver, seu filho estava tão feliz com Jongin, e se seu filho estava feliz, ele também estava.
Os dois haviam acabado de sair do cartório e já estavam a caminho da escola de Mingyu para busca-lo. Não conversavam muito, pra falar a verdade não conversavam nada, aquela amizade não estava começando muito bem, mas pelo menos não haviam farpas, aquelas mesmas farpas que sempre trocavam, ou melhor, farpas vindas de Kyungsoo, porque Jongin sempre evitava discutir. Kyungsoo sabia disse, sabia que precisava partir dele, que ele precisava tentar entender o Kim e o ponto de vista dele, as tentativas dele.
— Então... você está bem? — o ômega perguntou, não sabia o que perguntar, mas não queria que aquele silêncio continuasse.
— Eu estou ótimo. — ele respondeu — Você ainda está procurando um emprego?
— Tenho uma entrevista marcada pra segunda, estou confiante.
— Eu sei que você vai se sair bem. — ele disse, ainda com os olhos na estrada — Sempre foi muito inteligente.
Kyungsoo ficou um pouco sem graça, era nessas horas que odiava ser um ômega que corava fácil, mas por sorte o alfa não estava olhando pra ele. O carro parou em frente a escola e os dois ficaram esperando o horário que Mingyu saía. Kyungsoo apenas mexia nos próprios dedos, hora ou outra lia e relia o nome e o novo sobrenome de seu filho, era como se ainda não acreditasse que aquilo realmente havia acontecido, que Jongin realmente estava ali no mesmo carro que ele, que estavam tentando se dar bem depois de algo que deu tão errado.
— Eu tenho uma coisa pra você. — o Kim quebrou o silêncio, abriu o porta-luvas e tirou de lá de dentro alguns papeis, entregando-os para o menor.
O Do leu o que estava escrito ali, ficando incrédulo e devolvendo os papeis nas mãos do alfa.
— Eu não posso aceitar. — ele disse — Jongin, isso é demais, você não pode comprar um apartamento pra mim e dizer que é “uma coisinha”.
— Considere uma garantia. — o alfa devolveu os papeis — Que não importa o que aconteça vocês sempre terão onde ficar, eu vou me sentir melhor assim, aceite, Kyungsoo. Eu sei que não compensa nada, mas você sofreu tanto tentando dar o melhor pro nosso filho que merece ter um pouco de conforto também, me deixa te dar esse conforto.
O menor balançou a cabeça afirmando, guardando os papeis dentro de sua bolsa.
Não demorou muito até que Mingyu entrasse no carro, vinha alegre e animado, até notar que seu omma também estava no carro. O garoto estranhou.
— Omma?
— Oi, querido, como foi a aula?
— Muito legal! — respondeu — Omma, por que estava com o tio Jongin?
Kyungsoo não sabia como responder, não era bom em inventar histórias para o seu filho, especialmente porque nunca precisou fazer isso. Ele nem era um bom mentiroso.
— Nós fomos dar uma volta, Mingyu, bater um papo. — Jongin foi quem respondeu.
O garoto ficou em silêncio por alguns minutos, apenas olhando pela janela enquanto faziam o caminho para casa, o mesmo caminho de sempre que já conhecia tão bem, por seu omma estar ali, não arriscaria pedir para pararem na doceria que ficava na rua 106. Passou a observar os dois por alguns segundos, esperando a hora certa de começar a fazer perguntas.
— Vocês são namorados?
Ele perguntou de repente, fazendo os olhos de Kyungsoo se alargarem e Jongin rir baixo.
— Por que está perguntando isso, filho? — o Do lhe perguntou, afinal a pergunta não fazia o menor sentido, eles sequer se aproximavam um do outro.
— Os pais da minha colega se separaram e ela disse que a mãe dela estava sempre com um homem e que esse homem sempre tentava agradar ela e que esse homem era o namorado da mãe dela. Tio Jongin sempre vai na nossa casa, é legal comigo, isso é por que ele é seu namorado?
Era a melhor explicação que eles já haviam ouvido em toda a vida.
— Não, querido, ele não é meu namorado.
Mingyu pareceu ter ficado triste.
— Eu queria que ele fosse seu namorado, assim vocês poderiam se casar e o tio Jongin seria o meu pai.
Era óbvio que aquilo os deixou completamente desconcertados. Ninguém mais falou mais nada até chegarem em casa e Mingyu sair correndo para tomar banho para almoçar. Jongin já estava dando as costas para ir embora quando Kyungsoo o segurou pelo braço, o impedindo de ir.
O alfa o encarou.
— Fique para almoçar conosco. — ele pediu — Mingyu vai gostar muito, e... eu também.
Jongin acenou com a cabeça, afirmando que ficaria.
Kyungsoo colocou a mesa enquanto os dois esperavam pelo pequeno alfa, que não costumava demorar muito no banho. Já havia deixado tudo pronto antes de ir até a empresa conversar com o Kim e agora só precisava esquentar um pouco. Jongin ficou de pé apenas o observando organizar tudo e apreciando como ele era delicado fazendo aquilo, não parava de encara-lo e não sabia o motivo.
Mingyu apareceu de banho tomado e com uma roupinha simples, ele não era muito bom em escolher então Kyungsoo já deixava separado, além de tudo Mingyu tinha um cheirinho muito bom. O cheiro que as crianças alfas tinham era um cheiro único, que mudava com o passar do tempo, ao contrário dos ômegas, que já nasciam e cresciam com o mesmo cheiro, apenas se tornando mais forte quando mais velhos.
O pequeno alfa já correu para ocupar o seu lugar na mesa, enquanto Jongin se sentava à sua frente. O alfa achou bonito o fato do menor já se servir sozinho, nem todas as crianças daquela idade faziam aquilo e Kyungsoo explicou que em casa ele preferia que fosse assim, mas quando estavam fora, era ele quem servia o prato do filho para não ocorrer o risco dele derramar tudo.
Depois do almoço o alfa menor foi escovar os dentes e o ômega aproveitou para ter outra conversa com o Kim.
— Conta pra ele.
— Assim, do nada?
— Não é do nada. — o ômega explicou — Já tá mais do que na hora disso acontecer, não precisa ter medo, ele te ama e vai ficar muito feliz, ele mesmo disse que te queria como pai, Jongin, conte pra ele.
O ômega segurou sua mão e em um raro momento o olhou bem nos olhos. Jongin acenou com a cabeça afirmando e os dois foram para a sala. Kyungsoo não saiu de perto da janela enquanto o Kim ficou no sofá. Mingyu apareceu logo depois, abrindo um sorriso e mostrando seus dentes muito bem escovados.
— Sente-se aqui, Mingyu, o tio tem uma coisa importante pra te contar. — Jongin pediu, parecia calmo, mas estava muito nervoso.
Mingyu afirmou com a cabeça, sentando ao lado de onde Jongin estava, o alfa mais velho se virou para ele e o menor continuou esperando que ele dissesse alguma coisa. O Kim respirou fundo, Kyungsoo olhava tudo de longe, já pronto para o que viesse a ocorrer.
Mas ele não sabia por onde começar.
— Mingyu, eu e seu omma nos conhecemos na faculdade, não éramos amigos, mas de certa forma temos uma história pra contar. — ele começou, estava completamente perdido — Mas... sabe, você ainda é muito pequeno pra entender isso, um dia vamos te contar tudo, eu prometo. Mingyu, preste atenção no que eu vou falar. — ele deu uma pausa, Mingyu o encarava curioso — Mingyu, eu sou o seu pai.
O garoto inclinou a cabeça tentando entender.
— Meu appa? — perguntou — Que nem as outras crianças têm?
— Sim, igualzinho as outras crianças. — respondeu, a verdade é que ele estava a ponto de chorar pela emoção daquele momento — Você não está feliz por isso?
— Eu tô sim. — o garoto respondeu, os olhinhos marejados — É que eu tô muito feliz.
— Então vem me dar um abraço.
O garoto se jogou nos braços do mais velho e não demorou muito até que ele começasse a sentir as lágrimas quentes do menor caíram em seu ombro e molharem sua camisa social preta. Kyungsoo via tudo parado ao lado da janela, e foi a primeira vez que ele viu Jongin chorar.