Naquela manhã de segunda-feira Jongin não apareceu e Kyungsoo não tinha nenhuma desculpa boa para dar para o seu filho, apenas lhe dizendo que naquela manhã eles iriam juntos para o colégio. O garoto não discutiu, mas era nítido que ele havia se incomodado com a ausência do Kim. Aquilo haveria de se repetir e durante os dias seguintes Kyungsoo acompanhou seu filho até a escola e o buscou todos os dias.
Não estava sendo nada fácil, Mingyu perguntava o tempo todo por Jongin, além de não largar aquele ursinho para nada, o levando para todos os cantos que ia, nem mesmo dentro de casa o largava um só minuto e o ômega já havia pego seu filho perguntando diversas para o pequeno urso marrom quando o tio Jongin iria voltar.
— Eu tô dizendo, Eunwoo, eu já não sei mais o que fazer. — o ômega menor desabou sobre a cadeira da mesa, suspirou e deitou a cabeça, estava quase entrando em desespero — É o dia inteiro, “tio Jongin, tio Jongin, tio Jongin”, eu não sei quando isso vai parar.
Cha Eunwoo estava acostumado a ouvir as reclamações de Kyungsoo desde que os dois se conheceram no ensino médio, o ômega baixinho e carrancudo adorava ralhar o dia inteiro sobre qualquer assunto que o incomodasse e como aparentemente Eunwoo era seu amigo mais próximo, cabia a ele o papel de ouvinte. Mas nos últimos dias o assunto havia se tornado o mesmo, Kim Jongin. Kyungsoo não cansava de reclamar sobre tudo o que o alfa fazia e Eunwoo até tentara o impedir de expulsar o Kim da vida de seu filho, mas o Do era simplesmente muito teimoso.
— Eu te disse que isso não era uma boa ideia. — o mais novo precisava admitir que adorava passar na cara quando Kyungsoo estava errado — Sabe quando ele vai parar? Nunca!
Kyungsoo gemeu em frustração, não estava arrependido, pra falar a verdade ele estava indignado e surpreso, certo que esperava que seu filho fosse perguntar pelo Kim, mas não que passaria a semana inteira perguntando sobre ele, e ainda havia o ursinho, o maldito ursinho ao qual Mingyu teimava em chamar de Kai, o apelido que aquele alfa i*****l tinha na faculdade.
Jongin era uma espécie de encosto em sua vida.
— Tenho que ir, preciso busca-lo na escola e o caminho é um pouco longo. — bufou já imaginando o tanto que teria que andar, culpa de Jongin por ter escolhido uma escola que ficava num lugar tão afastado. Pra economizar Kyungsoo ia andando e voltava de táxi com Mingyu, pois certamente as perninhas de seu filho não aguentariam aquele percurso todos os dias.
— Quer uma carona?
— Quero sim.
Eunwoo deixou Kyungsoo na porta do colégio, onde o mais velho ficou esperando até que as aulas de seu filho acabassem. Ele estava distraído demais olhando para o prédio bonito, o suficiente para não perceber o carro preto de vidro fumê parado do outro lado da rua.
A verdade era que todos os dias Jongin ia até a porta da escola para ver seu filho saindo, só para ter certeza de que ele estava bem, não sabia em que momento havia se viciado em fazer aquilo, só sabia que precisava ter alguma notícia dele, vê-lo nem que fosse através daquele vidro. Estava com tanta saudade de ter Mingyu por perto, de leva-lo todos os dias para a escola, de vê-lo sorrir e da carinha pidona que ele fazia. Mas que merda! Havia se apegado demais ao menino e não parava de pensar nele o tempo todo, se ele também sentia a sua falta.
Naquela tarde, quando no auge de seu desespero ligou para Yifan, ele não sabia se o que estava prestes a fazer seria o certo, a única coisa que sabia era que não poderia mais se permitir continuar daquela maneira. O alfa mais velho sentou à sua frente, esperando curioso para saber o que havia feito Jongin ligar tão afobado e com tanta pressa para vê-lo.
— E então... — o Wu o incentivou em vista do silêncio.
O Kim estava inquieto demais, Yifan podia ver no ato do moreno passar a morder a língua o tempo todo, era uma espécie de tique nervoso que ele tinha.
— Eu não sei o que dizer então vou direto ao ponto. — tomou ar — Quero assumir legalmente a paternidade do Mingyu e entrar com um pedido de guarda compartilhada. Acha que eu tenho alguma chance de conseguir a guarda do meu filho?
[...]
Naquela noite de quinta-feira Kyungsoo dormiu m*l, sua cabeça não parava de reproduzir a imagem decepcionada de Mingyu ao procurar Jongin mais uma vez e não o encontrar. Aquilo já estava saindo do controle, passando dos limites, o pequeno sequer estava comendo direito, dormia muito cedo e não era mais tão comunicativo quanto antes, estava abatido como se tivesse perdido alguém muito importante.
No meio da noite o ômega sentiu mãos quentes o tocando e uma voz baixinha o chamando, acordou com Mingyu parado ao seu lado, os olhos do menino estavam avermelhados e marejados, seu rostinho estava muito corado e ele arrastava uma coberta, junto com o ursinho Kai.
— Mingyu, querido, o que aconteceu? — perguntou aflito se ajeitando na cama.
— Omma, tá muito frio.
Ao tocar a testa do menino, constatou que o mesmo queimava em febre, algo que o deixou em desespero no exato mesmo, nunca havia sentido seu filho tão quente assim, aquilo era fora do normal. Mingyu m*l se aguentava de pé, cambaleava e tremia como se estivesse muito fraco.
— Vamos ao hospital, querido, fique sentado para não cair.
O ômega rapidamente pôs um casaco sobre o pijama que vestia, estava tão desesperado que não fez questão de se trocar. Procurou seu celular como um louco, chamando rapidamente um carro de aplicativo, no momento de aflição era difícil até encontrar as chaves. Colocou um casaco grosso em Mingyu, que tremia. Minutos depois viu em seu celular que o motorista já o esperava do lado de fora do prédio e os dois desceram.
Kyungsoo carregava seu filho no colo, pois o garoto m*l conseguia ficar em pé, o pôs dentro do carro e o motorista foi rápido até o hospital. Chegando lá saiu correndo desesperado com o mesmo nos braços, indo diretamente à recepção e fazendo o maior escândalo quando a recepcionista lhe estendeu um formulário.
De alguma forma Mingyu foi rápido para a triagem e depois de alguns minutos de espera, enquanto esperavam, Mingyu acabou por desmaiar e devido a isso o médico veio correndo lhe atender, ele foi levado para a sala onde seria atendido e Kyungsoo ficou do lado de fora esperando ainda mais aflito, sem saber de nada do que ocorria com seu menininho. Nunca vira nada assim acontecer com ele, Mingyu sempre teve uma saúde de ferro, ele nunca nem gripava e do nada desmaiava na sala de espera do hospital.
Aquilo estava totalmente errado.
Pouco tempo depois o médico apareceu, sua expressão não era nada boa, o que deixou o ômega ainda mais aflito, quase correndo na direção do mesmo.
— Meu filho, Doutor, como ele está? — perguntou, completamente desesperado.
— Fique calmo, rapaz, seu filho está bem. — ele informou, olhou rapidamente para a prancheta que carregava — Ele não está doente, o que ocasionou a febre alta do menino foi um fator totalmente emocional.
— E o que isso quer dizer?
— Desculpe, Sr. Do, mas seu marido tem trabalhado muito nos últimos? — perguntou — Aparentemente seu filho sente saudade do pai, é comum que alfas nessa idade sejam muito ligados ao pai alfa e necessitem da presença dele, nem que seja um pouco. Ele terá alta em poucas horas e você poderá leva-lo pra casa.
Kyungsoo se via num beco sem saída, o que iria dizer agora? Que expulsou o pai do garoto? Não, isso só iria causar um m*l-entendido. Em sua cabeça nada daquilo se encaixava, Mingyu nem sabia que Jongin era seu pai, por que ele estava tão ligado assim? O médico já se afastava quando Kyungsoo o chamou.
— Mingyu não cresceu com o pai, ele acabou de conhece-lo e nem sabe ainda que é o pai dele. — o disse, o médico o encarava esperando que ele terminasse a pergunta iminente — É possível criar essa ligação toda sem nem saber que ele é o pai?
O médico sorriu pequeno para o ômega, era como se quisesse lhe passar alguma confiança.
— É algo acima da medicina. — ele disse — Ninguém nunca foi capaz de entender isso, mas a ligação que um lobo tem com outro é gigantesca, especialmente dos pais com os filhos, eles se ligariam mesmo que o pai não soubesse que Mingyu é seu filho. — o médico suspirou — Olha, eu não sei o que aconteceu para eles terem se separado, mas de um jeito ou de outro, você precisa que esse alfa volte ou o garoto ficará cada vez mais doente.
— Não tem nenhum remédio que ajude?
— Só usamos esse tipo de medicação em caso de morte de um dos pais, mas este não é o caso, não é?
Kyungsoo balançou a cabeça negando e o médico foi embora o deixando sozinho com seus pensamentos. O ômega sentou-se em um dos bancos frios da sala de espera, completamente sem saber o que fazer a seguir. Não, ele não queria que seu filho ficasse daquela forma, ele não merecia ficar doente, especialmente por ser o único inocente naquela história.
A quem Kyungsoo queria enganar? Era tudo culpa sua, ele havia mandado Jongin embora por puro ciúmes, porque tinha medo de perder Mingyu para ele, tinha tanto medo de que seu filho amasse mais ao pai alfa do que a ele. Fora tão i****a em achar que resolveria tudo simplesmente empurrando o alfa para longe deles. Mas que merda! Havia posto os pés pelas mãos e agora se via naquele caminho sem saída. Mingyu estava doente de saudades do pai que m*l conhecia, por que tinha que ser assim?
Era a vida lhe dando o troco por ter sido tão imprudente, por ter agido sem pensar. Olhou para a tela do celular, onde marcava exatas 3h da madrugada, pensou muito antes de discar o número do alfa e enquanto chamava inúmeras vezes, a vontade que tinha era de desligar, sua coragem toda estava morrendo, até ouvir aquele alô sonolento.
— Jongin, sou eu.
— Aconteceu alguma coisa com o Mingyu? — a voz do outro lado da linha parecia preocupada.
— Aconteceu, eu preciso que venha ao hospital, vou te enviar o endereço.
— Certo, já estou indo.
O ômega enviou o endereço por mensagem.
Não demorou nem dez minutos para que Jongin surgisse em sua frente, a expressão preocupada, nunca vira aquele desespero nos olhos do Kim, era como se ali fosse outra pessoa. Se Kyungsoo soubesse que ele havia atravessado todos os sinais vermelhos que encontrou, se soubesse a forma como ele saiu de casa, não o julgaria mais tão m*l.
— Onde ele está? Como ele está?
— Calma. — o ômega ficou de pé, abriu as mãos numa tentativa de manter o alfa calmo — Ele tá bem, não é nada grave, mas eu prefiro que o médico te explique.
— Explicar o que, Kyungsoo? — Jongin não estava nada calmo — O que aconteceu com o meu filho?
Fora inesperado demais ouvir Jongin chamando Mingyu de filho, era algo que não esperava que fosse acontecer tão cedo. Deixou o menor um tanto sem chão e se sentindo ainda pior. Jongin gostava dele. Ele estava bem ali quase entrando em desespero sem sequer saber o que havia acontecido. Jongin se importava com ele. Ele havia atravessado a cidade em alta velocidade só para ter noticias do garoto. Jongin era o pai dele.
— Você pode vê-lo, terceira porta à direita. — disse enquanto apontava para o corredor largo e muito iluminado à sua frente.
O Kim não esperou que ele dissesse mais alguma coisa, foi correndo até a sala indicada, onde encontrou a porta aberta e uma enfermeira servindo alguma coisa para que Mingyu comesse, o garoto quase sujou tudo quando o viu, abrindo um sorriso enorme.
— Tio Jongin! — ele gritou assim que o viu.
A enfermeira tirou a mesinha com a sopinha e Mingyu pôs os pés para fora da cama, mas não foi preciso descer, Jongin parou ao seu lado e ficou de joelhos para o abraçar. As pequenas mãos do alfa menor passaram por cima de seus ombros enquanto era abraçado calorosamente. Um abraço diferente de qualquer outro que já tenha ocorrido, pois era a primeira vez que Jongin o abraçava com a plena convicção de que ali era o seu filho.
— Tio, não me abandona mais. — ele pediu, a voz de choro — Por favor, não vai mais embora.
Era de partir o coração, Jongin se sentia péssimo por ter simplesmente acatado as vontades de Kyungsoo, ele devia ter relutado mais, se recusado a ficar longe um só dia que fosse. Fora um t**o, não imaginava que já estava tão apegado daquela forma, que já nem sabia viver sem ter seu pequeno Mingyu por perto.
— Eu não vou te abandonar, Mingyu, não importa o que aconteça, nada mais vai me tirar de perto de você.