4

1406 Palavras
Arabella. Depois de um banho demorado e de um tratamento facial mais do que necessário, eu me sentia quase humana novamente. Mas a fome logo me levou ao restaurante do hotel. Mesmo jantando sozinha, me vesti como sempre — elegantemente sem esforço. Um vestido de verão de alças finas moldava meu corpo, e meu cabelo castanho recém-lavado caía em ondas suaves pelas costas. — Mesa para um, por favor. O restaurante no décimo quinto andar oferecia uma vista deslumbrante do horizonte de Brisbane iluminado pelo céu noturno. Pedi espaguete à bolonhesa e uma taça de vinho branco. Assim que levei o garfo à boca, senti. Aquela sensação inconfundível de estar sendo observada. Ergui o olhar e encontrei um homem loiro, de nariz torto, sorrindo para mim. — Posso me sentar? Antes que eu pudesse recusar, ele interpretou meu silêncio como permissão. Maravilha. Ele falava sem parar, perguntando sobre a Nova Zelândia, o Castelo de Larnach, Queenstown. Sua risada ecoava alta e desagradável ao contar como a ex-namorada havia gritado durante um salto de bungee jump. — Eu não acho isso engraçado — disse friamente. Ele apenas riu mais alto. E então. Uma voz. Atrás de mim. Grave. Suave. Ressonante. — Já organizei tudo. Você só precisa apresentar. Meu corpo inteiro ficou imóvel. Aquela voz. Aquela voz que arrepia, aquele homem rico e inconfundível. Meu pulso disparou. Cada terminação nervosa despertou. — Silêncio — rosnei para o homem ao meu lado. Forcei-me a ouvir. — A reunião está marcada para as dez da manhã. Não se atrase. Cuide-se. As mesmas palavras. A mesma cadência. Virei-me a tempo de ver apenas um vislumbre de cabelos negros desaparecendo pelo corredor. Meu coração batia violentamente. Não podia ser. Ou podia? Sem pensar, levantei-me abruptamente e fui atrás dele, ignorando o protesto indignado do loiro atrás de mim. Eu precisava ver seu rosto. Atravessei a multidão, avistando-o novamente ao se aproximar dos elevadores. Minha respiração falhou. — Ei! Acenei, mas as portas do elevador se fecharam com uma crueldade definitiva. Fiquei ali, encarando meu reflexo difuso no aço polido. Três anos. E eu ainda era desarmada pela lembrança de olhos escuros como tempestade, mãos firmes ao redor do meu tornozelo e uma voz que havia se gravado nos meus ossos. Soltei uma risada trêmula. O que havia de errado comigo? Eu parecia uma mulher correndo atrás de um fantasma. Mas amanhã… Dez horas. Se o destino tivesse algum senso de ironia, talvez eu finalmente descobrisse se o Sr. Voz que provoca arrepios, era apenas uma fantasia… Ou exatamente o homem que eu estava prestes a conhecer. Era cedo, e o sol já castigava impiedosamente a fachada de vidro da Kingsley Holdings quando cheguei, quinze minutos antes da reunião marcada para às dez da manhã. O prédio se erguia imponente sobre a paisagem urbana — moderno, elegante e intimidante, um verdadeiro monumento ao poder e à ambição. Mal tive tempo de admirar a arquitetura quando um senhor idoso, mais ou menos da idade de Papai, veio apressado em minha direção, os braços abertos em acolhimento. — Minha querida! — exclamou calorosamente, envolvendo-me em um abraço surpreendentemente forte e paternal. — Você deve ser Arabella. Meu Deus… como cresceu. George costumava me enviar fotos suas desde quando era apenas uma menininha. Apresentações escolares, formaturas… e agora veja só você, pronta para assumir a Stone Corporation e essa nossa empreitada conjunta. — Ainda não — respondi com um sorriso modesto. — Ainda preciso de muita experiência. — Bobagem — ele dispensou com um gesto. — George não colocaria você nessa posição se não acreditasse no seu potencial. — Sou filha dele — disse, rindo de leve. — Pequena mulher! — Giancarlo afagou minha cabeça com carinho, do mesmo jeito que Papai fazia quando eu acertava algo. — Filha ou não, ele acredita em você. Sorri, sentindo-me inesperadamente acolhida. — E falando em George — continuou Giancarlo enquanto me conduzia para dentro —, como está aquele velho rabugento? — Papai está muito bem. Mandou lembranças. — Sinto falta dele — suspirou com afeto. — Preciso convidá-lo para minha festa de aniversário no mês que vem. — Ele adoraria. Entramos no prédio, e o clima mudou imediatamente: piso de mármore frio, aço polido e o aroma discreto de um perfume caro no ar. Funcionários cumprimentavam Giancarlo com respeito enquanto atravessávamos o lobby. Fui apresentada como uma estagiária temporária auxiliando no projeto. Apenas um pequeno grupo conhecia minha verdadeira identidade. Papai e Giancarlo haviam concordado que isso evitaria bajulações e aproximações interesseiras de funcionários ambiciosos. — Preciso apresentar você aos meus filhos — disse Giancarlo animado ao nos aproximarmos da sala de reuniões. — Eles também estarão envolvidos nesse projeto. Achei que seria bom a nova geração trabalhar junta. — Parece uma ótima ideia — respondi. Mas o clima leve desapareceu assim que entramos na sala. Os funcionários estavam reunidos em torno do projetor, cochichando com expressões tensas. O sorriso de Giancarlo sumiu. — O que está acontecendo? Por que a apresentação não está pronta? — exigiu. — O projetor apresentou uma falha, senhor — explicou um funcionário, nervoso. — Não ligava quando fomos configurar há trinta minutos. Um novo está a caminho. Giancarlo soltou um suspiro lento, visivelmente frustrado. — Arabella, sinto muito. Isso é inaceitável. Tempo era dinheiro nos negócios. Preparação refletia competência. Aquela falha me incomodou, mas mantive a compostura. — Não se preocupe — disse calmamente. — Essas coisas acontecem. Sentei-me e peguei meu tablet, retomando o livro que estava lendo enquanto os técnicos se apressavam. Do outro lado da sala, ouvi Giancarlo resmungar: — Onde está aquele garoto? Ele já deveria estar aqui. — Estou aqui. A voz era firme, levemente ofegante. Ergui o olhar e vi um homem jovem de cabelos loiro-escuros e olhos azul-claros entrar na sala com passos confiantes. Parecia ter pouco mais de vinte e cinco anos e vestia o terno sob medida com charme natural. — Arabella, querida — chamou Giancarlo. — Este é meu filho, Alexandre. — Senhorita Stone — disse ele, estendendo a mão com um sorriso fácil. — Senhor Kingsley — respondi. — Por favor, me chame de Alex. Senhor Kingsley é meu pai. O aperto de mão durou um segundo a mais do que o profissional. Seu polegar deslizou suavemente pela minha palma — deliberado demais para ser um acidente. Retirei a mão com delicadeza. Ah. Um flertador. — Bem — disse com neutralidade —, podemos começar? Dez minutos depois, com o projetor finalmente funcionando e os membros do conselho presentes, as luzes se apagaram. A apresentação começou. Para minha surpresa, Alex era articulado, preparado e extremamente competente. Projeções financeiras, análises de mercado, impactos ambientais — tudo meticulosamente pesquisado. Sua postura era confiante, sem arrogância. Quando terminou, eu já formulava mentalmente o relatório para Papai recomendando avançar com o acordo. — Excelente — disse Giancarlo ao final. — Arabella, você deve passar o fim de semana em nossa casa fora de Brisbane. Lauren ficaria encantada em conhecê-la. — Será como uma reunião de família — Alex acrescentou, aproximando-se demais. O rosto de Giancarlo se contraiu por um breve instante ao ouvir o nome da esposa, mas logo voltou a sorrir. — São cerca de três horas de viagem — acrescentou. — Derek pode levá-la. — Eu acompanho — Alex se apressou em dizer. — É uma viagem longa. Você vai se entediar olhando para árvores de eucalipto. — Gosto de viagens silenciosas — respondi. — Tenho certeza — murmurou ele, com um brilho estranho no olhar. No fim, recusar Giancarlo seria indelicado. Concordei. De volta ao hotel, meu telefone tocou assim que entrei no quarto. — Como foi a reunião? Viu Giancarlo? E a apresentação? — Papai — provoquei, jogando-me na cama —, fiquei fora menos de vinte e quatro horas e você só pensa em negócios. Não me ama mais? Ele riu. — Minha pequena Bella, claro que a amo. Vamos começar de novo. — Giancarlo foi ótimo. Alex apresentou o projeto. Foi impressionante. — E o que achou? — Da proposta? — Não. Do Alex. Sentei-me imediatamente. — Papai… você está tentando me arranjar um compromisso? Silêncio. — Minha pequena bella… — Não, Papai. Estou aqui para aprender, não para casar. O suspiro dele veio pesado pelo telefone. Desde sempre, Papai quis segurança para mim. Estabilidade. Mas casamento sem paixão? Sem aquela chama que incendiava minha pele? Impossível. Depois da ligação, fiquei encarando o teto por longos minutos.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR