Arabella
Três anos depois.
O ar sufocante do verão de Brisbane me recebeu com um abraço feroz, quase punitivo. No instante em que pisei na pista, o calor se enrolou ao meu redor como um cobertor pesado. Em segundos, o suor umedeceu minha pele, escorrendo pela minha coluna em filetes lentos e irritantes.
— Bem-vinda á Brisbane — murmurei, protegendo os olhos do brilho intenso enquanto conferia o horário no celular. — Três horas a menos.
Violet já devia estar no funeral de Dunstan. Coitada. Ele tinha sido mais pai para ela do que qualquer outra pessoa. E agora estava morto — seu coração frágil incapaz de suportar a crueldade das escolhas irresponsáveis da irmã dela.
Que forma c***l de retribuir um homem que um dia a tirou das ruas.
Corinne nunca deveria ter levado aquele homem que conheceu online para dentro da casa de Dunstan. O escândalo, a traição… aquilo deve tê-lo destruído. Ainda assim, Dunstan também estava errado. Ele era muito mais velho que Corinne. Mais velho até que Papai. Que tipo de solidão — ou egoísmo — leva um homem a se envolver com uma mulher jovem o suficiente para ser sua filha?
Nunca simpatizei com Corinne. Jamais consegui entender o que Violet via na irmã que a fazia protegê-la com tanta ferocidade. Mas eu não tinha irmãos. Talvez existissem laços invisíveis entre irmãs que eu simplesmente não era capaz de compreender.
Suspirei.
Eu realmente precisava parar de me preocupar com a vida dos outros e começar a me preocupar com a minha.
Três anos. Três anos desde a última vez que o vi.
Minha suposta alma gêmea. O estranho que apelidei de Sr. Voz que provoca arrepios. — um homem capaz de criar imagens pecaminosas na minha mente apenas com algumas palavras ditas naquele tom grave e aveludado.
E, ainda assim, ele não estava em lugar nenhum. Droga.
Mesmo agora, eu conseguia me lembrar do calor daquelas noites imaginadas — nós dois enroscados em lençóis brancos e impecáveis, sua boca espalhando fogo pelo meu corpo. A simples lembrança da voz dele vibrando baixa contra meu ouvido era suficiente para acelerar meu pulso. Cerrei o maxilar e me forcei a respirar.
Não era hora. Nem lugar.
Balancei a cabeça com firmeza, tentando acalmar o coração disparado e silenciar o calor que se acumulava entre minhas pernas. Um banho frio. Era disso que eu precisava. Um banho muito, muito frio.
Sentindo-me apenas um pouco mais composta, segui em direção à esteira de bagagens.
Uma mala.
Eu viajava leve. Afinal, era uma viagem a trabalho.
Papai queria que eu me encontrasse com seu antigo associado, o Sr. Kingsley, da Kingsley Enterprises. Assim como Papai, a família Kingsley possuía uma parte significativa dos imóveis mais valorizados de Brisbane. Ambos compartilhavam visões ambiciosas — expansão, prestígio e projetos arquitetônicos destinados a dominar o horizonte da cidade.
A proposta mais recente era monumental: um complexo de luxo para compras, com o tamanho de três campos de futebol, em Surfers Paradise, na Gold Coast.
E cabia a mim avaliar o projeto antes que Papai concordasse com a fusão.
Recém-formada — m*l haviam passado semanas desde a colação de grau — eu havia imaginado liberdade. Mochilão pela Ásia. Mercados na Tailândia. Templos no Camboja. Montanhas no Vietnã. Em vez disso, eu estava na Austrália. Em missão.
Papai tinha um talento especial para transformar sugestões em fatos consumados.
— Por que você não visita Giancarlo? — Papai disse casualmente durante o jantar em nosso restaurante chinês favorito em Dunedin. — Você se lembra dele, Bellinha. Ele costumava visitar a Nova Zelândia quando você era pequena.
— Eu não me lembro dele — protestei. — E a Austrália não é “o mundo”, Papai. O mundo é China, Laos, Tailândia.
— Você pode começar pela Austrália.
— Eu acabei de me formar! O diploma m*l esfriou!
Ele sorriu com aquele sorriso calmo e inabalável.
— Você é minha única filha. Um dia, tudo isso será seu.
— Isso está a anos-luz de distância.
— A preparação começa agora.
E assim a conversa terminou.
Duas semanas depois, lá estava eu. Brisbane.
Pronta — ou pelo menos tentando me convencer disso — para conhecer o Sr. Kingsley.
Mas onde ele estava?
Afundei no sofá de couro do lounge privativo, cruzando as pernas e fingindo mexer no tablet como se estivesse perfeitamente tranquila. Era uma farsa. Por baixo da postura elegante, eu estava exausta, irritada e faminta.
A turbulência durante o voo tinha sido impiedosa, sacudindo o avião com violência. Meus músculos ainda estavam tensos, carregados de um desconforto persistente.
Conferi o horário outra vez.
Papai havia dito que alguém me buscaria às 17h30.
Já eram quase seis.
Eu estava com fome. Suada. E perigosamente perto de perder a paciência.
Quando já cogitava chamar um táxi, um homem de meia-idade entrou no lounge segurando uma placa com meu nome impresso em letras organizadas.
Finalmente.
— Senhorita Arabella Stone? — perguntou educadamente.
— Sim. — Levantei-me, oferecendo um sorriso contido. — Sou eu.
— Peço desculpas pelo atraso. O trânsito estava terrível.
— Eu entendo — respondi. — Auckland também pode ser assim.
Ele se apresentou como Derek e insistiu em carregar minha mala.
— O Sr. Kingsley envia suas desculpas — acrescentou enquanto caminhávamos para a saída. — Ele foi retido em outra reunião. Um de seus filhos esperava recebê-la esta noite e levá-la para jantar.
— Não, obrigada — respondi rapidamente. — Estou exausta. Prefiro uma noite tranquila.
— Como desejar.
O sol escaldante nos atingiu novamente assim que saímos. Silenciosamente, amaldiçoei o verão australiano.
Pelo menos o Hotel Silverton oferecia um serviço impecável. Os herdeiros Silverton haviam se expandido agressivamente pela Austrália e Nova Zelândia, e sua reputação de luxo era merecida. Sempre que possível, eu escolhia me hospedar com eles.
— A reunião é amanhã às dez da manhã — lembrou Derek.
— Não vou esquecer.