Ravena se esforçou para ficar com as pálpebras abertas e olhou em volta, ela franziu o cenho.
As sombras do mundo ao seu redor eram um vago borrão, como se ela tivesse aberto
os olhos sob a água.
Ela se sentiu tonta, quase como da vez em que roubou uma garrafa de vinho da adega de seus pais e bebeu metade da garrafa. Mas aquilo era diferente, ela estava presa em um corpo estranho. Procurou dentro deste corpo e encontrou a si mesma. Ela quis que o corpo se movesse... então moveu os dedos e depois os braços. Este novo corpo dava a sensação de que ela estava vestindo seu novo eu. Assim que a tontura diminuiu, seus nervos se acalmaram.
Ela se concentrou em sua audição, dava para ouvir os sons distantes do tráfego e os murmúrios suaves das pessoas falando. Ela piscou as formas começaram a entrar em foco. Era como se ela estivesse observando o mundo através dos olhos de outra pessoa.
Ela olhou para baixo para ver o novo corpo e apertou as mãos contra o peito. Nada nenhuma batida de coração, nenhuma compressão dos pulmões, tudo vazio.
Seus olhos lentamente se ajustaram às sombras ao redor dela. Ela estava em um beco úmido que fedia a lixo da semana passada. Ravena seguiu o cheiro e viu gatos comendo nas latas de metal. Altos edifícios de tijolo obstruíam a luz e formas se moviam dentro das sombras. Ravena recuou quando dois homens m*l-encarados a observavam de uma porta escura.
Então algo tocou em seu ombro.
Ravena deu um pulo para trás e quase caiu.
— Relaxe, Ravena, sou eu. — David reapareceu e ele carregava a mochila preta nas costas. Seu sorriso atrevido fazia seu rosto ficar ainda mais bonito. Ravena se virou para o outro lado para não ser vista corando. Foi aí que ela se lembrou que não corava, ela não tinha sangue.
— Como está se sentindo? ele perguntou, enquanto passava o braço sobre o ombro dela.
Ravena deu um sorrisinho e como na ressaca do meu aniversário de dezesseis anos, ela levantou a cabeça.
O mundo ao redor dela está em foco agora, mas o chão ainda oscilava ligeiramente. Ravena estava empolgada por estar de volta, mesmo que fosse por um breve momento.
David olhava para o nada com um sorriso bobo na cara.
— Sim... aqueles foram momentos divertidos.
Ele suspirou e olhou para Ravena.
— Mas isto é normal vai passar em alguns minutos.
Ele soltou o ombro dela e colocou a mochila no chão. David se abaixou, revirou a mochila e encontrou um mapa. Após estudá-lo por um tempo, ele o guardou de novo e puxou um relógio de pulso com uma correia marrom.
— Bom, estamos a poucas quadras de distância.
Num pulo, ele ficou de pé e prendeu o relógio no pulso.
Uma brisa mascarava o cheiro do lixo por um momento, enquanto trazia o de escapamentos de carros, do concreto quente e de c**ô de cachorro desde a rua movimentada. Ravena ajeitou uma mecha de cabelo, colocando-a atrás da orelha.
Ela levantou as mãos até a altura do rosto e as estudou, movendo os dedos, e se concentrando no fato de que estava em um corpo que não a pertencia.
Ainda no Horizonte, antes de dar um grande mergulho, ela se lembrou de ter se sentido como seu velho eu; sem os órgãos internos... mas como ela mesma. Agora, de volta à Terra, após sua morte, aquele corpo parecia estranho.
Ela não sabia se conseguiria se acostumar a aquela situação.
— Leva um tempo até a gente se acostumar a usar um Traje M. Acredite em mim, eu sei! — David uniu as mãos.
— Cara, eu me lembro da minha primeira vez... Eu me senti completamente dopado, ele riu e seus olhos estavam brilhando.
Ravena sorriu! David lembrava os rapazes da universidade que ela via pela cidade: jovens, bonitos e cheios de si.
Eles transpiravam um ar de arrogância e a maioria das garotas do Ensino Médio babavam por estes rapazes, ela havia batizado aquele tipo como "Os Intocáveis" e David era um deles. Ele era muito bonito e tinha uma forma física impressionante. Ela se sentia desconfortável por estar tão perto dele, os olhos deles se encontraram por apenas um segundo e Ravena podia ter quase certeza de que ele podia ler seus pensamentos...Ele sorriu.
— Mas depois de experimentar algumas vezes, você quase não sentirá mais o traje... ele acaba se tornando uma parte de você — David ajeitou a jaqueta e levantou o colarinho.
— Sim... Agora sim! Ravena franziu o cenho o que você quer dizer com trajes M? Mortal, humanos, terráqueos se você não faz parte da Legião, você é mortal.
— Você está dizendo que estou vestindo um traje humano? Isso.
Ravena fez uma careta... Isto é nojento! Ela balançou a cabeça e ainda não consigo entender. Como chegamos aqui? Seus olhos castanhos procuraram pelo rosto dele.
— Olha só explicou David, enquanto a estudava você lembra de quando pulamos na piscina lá no Horizonte? Nós meio que fomos teletransportados para a terra.
— Ele levantou os braços e apontou para o peito e fomos parar aqui nessas “coisinhas” aqui.
— Sei... para essas mochilas...de corpo disse Ravena, enquanto analisava a si mesma.
Ela estudou seu braço, puxando a manga da blusa e tocando sua pele, a sensação... é diferente.
— Ela disse e olhou nos olhos dele.
David concordou, enquanto sorria para ela eu
sei que você vai acabar se acostumando.
— Mas estes corpos aparecem magicamente?
— Há! Ele riu. — Você é engraçada mas... ah... não. Olha, quando nós viajamos entre o Horizonte e a Terra, precisamos submergir na água... Lembra
das piscinas? A água serve como uma porta de entrada entre os dois mundos, ela também nos permite criar os trajes M e eliminá-los depois.
Não me pergunte como, mas é assim que funciona nós chamamos o processo de "Vega".
Ravena piscou! Sou uma marionete sem os fios. Sua mente cintilava dentro de seu corpo mortal, antecipando o movimento. Ela mudou o peso de uma perna para outra...tudo que ela precisou foi de um pensamento.
O corpo respondeu como água sugada por uma esponja, seu espírito havia sido absorvido completamente; corpo e alma se moviam como um só. Ela não precisava mais da vontade do corpo para se mover.
Rapidamente, estava se tornando natural para ela. Ela repousou as mãos em seus quadris talvez não fosse tão difícil quanto ela havia pensado a princípio.
— Acho que estou pegando o jeito da coisa....David
a observava e sorria.
— No Horizonte, não precisamos de corpos de carne e osso, nossos corpos são imortais. Você ainda é a mesma pessoa de antes, mas não no mesmo corpo mortal.
Você pensa e sente exatamente do mesmo jeito é como se você nunca houvesse deixado seu antigo corpo. Mas os nossos corpos mortais se foram... Como um AG, você tem de submergir em trajes M para caminhar pela Terra... A nossa alma morreria sem eles. Pense neles como uma outra versão de seu antigo corpo.
Eu tenho que admitir que adoro vestir os trajes... eles fazem com que eu me sinta invencível!
Ravena se sentia mais à vontade a cada momento que passava até que esta nova vida não parecia tão r**m no fim das contas.
— Tudo bem... daqui vamos para onde? perguntou Ravena, enquanto praticava o movimento de seus membros. Ela deu alguns passos, olhando para seus pés, sorrindo. Ela tinha de admitir, realmente era incrível quando você se acostumava.
— Temos menos de quinze minutos para chegarmos até a Sra. Wil antes que ela escorregue e morra em um acidente bizarro.
Está pronta? David ergueu uma sobrancelha e agora é a hora de eu revelar meus talentos extraordinários!
— Os dentes dele reluziram e ele esfregou uma mão na outra.
Ela olhou para o rosto sorridente dele e estremeceu.— Ah é?
— Não se preocupe, estarei aqui com você disse David. — E você, você estará testemunhando um verdadeiro mestre em sua arte... em primeira-mão! Eu sou o maior.
Ravena balançou a cabeça.—Uau... todos os anjos da guarda são tão pretensiosos assim, ou eu fui realmente sortuda de ficar presa a você?
— Eu sou o que há de mais quente no Horizonte, baby. — disse David.
Seus olhos cintilaram maliciosamente, ele jogou a bolsa preta sobre seu ombro, ajeitou sua jaqueta e saiu correndo. — Vamos! Ele gritou para trás.
— Com certeza, garotão — Ravena riu.
Ela correu para acompanhá-lo, tentando não tropeçar em suas novas pernas. Logo o beco desapareceu e eles se encontravam em frente a uma rua movimentada. Altas palmeiras
decoravam a rua de ambos os lados, como enormes postes de luz. Suas folhas farfalhavam com uma brisa leve, trazendo o odor do oceano. Instantaneamente, Ravena soube que ela não estava mais em sua cidade-natal.
Ela avistou uma placa metálica de rua e, nela, estava escrito “Northeast 5th Street”. Ela nunca havia estado ali antes.
— Onde estamos? perguntou Ravena depois de um tempo, enquanto observava uma das enormes palmeiras.
— Fort Lauderdale, na Flórida, baby respondeu David. Ele caminhava pela rua com facilidade e Ravena deduziu que aquela não era a primeira visita de David a Fort Lauderdale.
Eles caminharam pela 5th Street, ziguezagueando entre multidões de compradores.
O cheiro de cebolas, alho, peixe e especiarias os cercava. Ravena imaginou um suculento hambúrguer.
— Podemos comer carne? Quer dizer... precisamos comer? Aliais, nós podemos comer? Não.
Este é um traje mortal, não um corpo de verdade, então não precisamos comer.
— Que saco... Eu tinha a esperança de comer um Hambúrguer ou algo do tipo.
— Você poderia tentar... mas seria como comer papel.
— Acho que vou deixar para lá, obrigada.
Ravena seguia David de perto, ela ainda se sentia desconfortável vagando pelas ruas em seu novo corpo. A garota olhava para os transeuntes e se indignava quando reparavam nela.
— Você tem um espelho aí? — Por que você quer um espelho? David parou de caminhar e observou Ravena.
— Para me ver eu gostaria de saber como eu me pareço.
— Ó... é claro! Quer saber se você ainda é você... venha aqui — David caminhou até um carro estacionado. Ele se certificou de que ninguém estava olhando.
Você pode se ver com isso aqui ele apontou para o espelho retrovisor.
Raven se inclinou e deu uma olhada. — Eu tenho exatamente o mesmo visual? Os mesmos olhos, nariz e cabelo? Ótimo... eu tenho até mesmo as
mesmas espinhas! Como isto é possível? —
Porque você é você.
— Mas o que acontece se alguém que eu conheço me ver? A pessoa teria um treco! Ravena imaginou o rosto assustado de sua mãe. Ela achou que a mãe provavelmente morreria de um ataque do coração ao ver sua filha morta vagando pelas ruas como um zumbi.
David segurou Ravena pelo cotovelo e a tirou de perto do carro.
— Você não seria reconhecida, pois não é exatamente a mesma para essas pessoas... você pareceria um pouco diferente para elas. Embora tenha os mesmos olhos e cabelos castanhos, no máximo lembraria quem você era antes de morrer.
Talvez se parecesse com uma prima ou algo assim.
— Ó! e que eu não tenho primas....Eles
caminharam por outra quadra até chegarem à North Andrews e virarem para o sul.
Casais com crianças passaram por eles, e Ravena pensava em sua própria família.
Naquele momento, ela se sentiu infeliz e sentia saudades de sua mãe.
Mesmo que ela fosse meio doida, era a única mãe que Ravena tinha. Ela imaginou o rosto de sua mãe aflito de pesar e desejou poder dizer à ela que estava bem.
— Você tem saudades de sua família? David
ficou em silêncio por um segundo.
— É claro que sinto falta dela o tempo todo, mas não trocaria a minha vida no Horizonte por nada. Amo o meu trabalho, nós somos parte de um grupo de elite... escolhidos para manter os mortais seguros.
A emoção que eu sinto em uma missão... Você não consegue a mesma sensação fazendo outra coisa. É perigoso, mas eu adoro ultrapassar limites, sou
bom nisto. É como se fosse para eu fazer isso desde sempre. Além disso, podemos brincar com
armas super legais! o rosto dele se iluminou.
Ravena se perguntou se David havia tido muitas namoradas quando ainda estava vivo.
Ela sabia a resposta para sua própria pergunta e percebeu que estava sendo boba.
Mas outra pergunta queimava no fundo de sua mente.
— Posso lhe fazer uma pergunta? Claro, o que você quer saber? Ravena desviou o olhar.
— Como... como você morreu? — Ah, isso David riu. — Bem, não foi nada espetacular, eu me afoguei.
— Você se afogou! Ó, meu Deus! Este é um jeito h******l de se morrer.
— Bem, na verdade, eu joguei o carro dos meus pais contra uma ponte. Então foi um pouco mais cinematográfico do que o normal.
Ravena imaginou o cenário em sua mente.
— Como foi? Quer dizer... se afogar? Você sofreu? Deve ter sido terrível.
— A última coisa que me lembro foi da sensação de voar; o que, aliás, foi muito legal, disse David e depois o carro atingiu a água e eu bati a minha cabeça no volante acabei apagando.
Quando acordei, tinha um macaco fungando na minha nuca.
— Certo! O chimpanzé do elevador....David
ajeitou a mochila em seu ombro.
— Depois disso eu entrei na Legião... fiquei popular com as mulheres... irritei alguns anjos... e o resto é história.
— Ele se calou por um segundo antes de continuar, com uma expressão pensativa — E você? O que você se lembra da sua morte? Ravena coçou a nuca.
— Não senti nada quando morri... Quer dizer, não senti dor alguma, eu me lembro do ônibus vindo na minha direção. Lembro de pensar que era tarde demais para sair do caminho... daí ele me acertou. Depois disso eu estava no elevador, ela
chacoalhou a cabeça, eu pensei que estivesse dormindo.
— Acho que todos passamos por isto. — David disse aqui está, 187 North Andrews, apartamento número três... a sua primeira missão.
Que o show comece! Ele deu uma olhada em seu relógio. — Não temos muito tempo. Rápido! Ele
correu para a frente do prédio de pedras cinzas e subiu correndo a escada de metal, subindo três andares até o apartamento número três.
Ravena o observou da parte debaixo das escadas e encolheu os ombros.
— Ótimo! Estou presa ao show do Fantástico David mesmo assim, ela subiu correndo as escadas, com o seu corpo completamente em sintonia com sua vontade.
— O segredo de uma missão bem-sucedida é fazer o trabalho rápido e discretamente. Salvar o mortal... e dar no pé e essa é a melhor forma de evitar os demônios.
— Hum, estes demônios disse Kara como eles são? Ela não conseguia evitar de tremer enquanto esperava pela resposta. Se os demônios existiam mesmo, havia uma pequena chance de sua mãe realmente não ser louca.
— Depende! Há muitos tipos diferentes de demônios, alguns podem ser como os monstros
de seus piores pesadelos e outros podem ser como você e eu como um mortal.
— Com olhos negros. — Sim... como você sabe?
A cabeça de Ravena girou e ela tentou organizar os pensamentos.
— Minha... minha mãe os via, eu acho ela... ela os chamava de demônios. Ela disse que eles estavam atrás de nós. Quero dizer... todos pensávamos que ela estava louca.
Eu nunca vi nenhum demônio, eu queria acreditar nela. Tentei muito, ela fazia com que eles parecessem ser tão reais... mas eu não conseguia. Gastei boa parte da minha vida escondendo ela de todos para que não me pusesse num orfanato. Meu pai morreu quando eu tinha cinco anos... então éramos... éramos só nós duas.
— Bem, ela não era maluca, David inclinou a cabeça para o lado. — Alguns mortais podem ver espíritos e demônios... eles são chamados de Sensitivos. Essas pessoas formam uma sociedade secreta e trabalham com a Legião há séculos, então sua mãe provavelmente é uma deles.
— Sensitivos repetiu Ravena. — Eu.... eu acho que você tem razão. — Sua culpa a oprimiu sua mãe não era louca. Ela se lembrava da mãe gritando e apontando para inimigos invisíveis.
Agora que sabia da verdade, Ravena estava cheia de arrependimento, sua mãe estava falando a verdade todos aqueles anos. Isto apenas fez com que Ravena se sentisse pior.
— Agora, assista e aprenda, David tocou a campainha.
Após um instante, surgiu um ruído estridente quando o interfone foi ligado.
— Sim...? atendeu a voz rouca de uma mulher.
David pigarreou e deu uma piscadela para Ravena.
— Oi, Sra. Wil? Meu nome é John Mathews e estou aqui com minha amiga Karen.
Somos da escola Saint Thomas e estamos pedindo doações para o time de natação.
Temos certeza que ganharemos neste ano...Surgiu
um alto scrch no interfone.— Ó! Sim, sim, é claro. Subam! A porta zuniu e vibrou enquanto David a empurrou para abri-la.
— O filho dela costumava participar do mesmo time de natação. Pode deixar que eu falo ele sussurrou — o seu trabalho agora é apenas observar... veja como eu cuido da donzela em perigo! Muitas vezes, ser boa pinta resolve metade
da situação.
— Com certeza, galãzinho! — Ravena o seguiu para dentro do prédio, o ar estava espesso e tinha um tênue odor de mofo no ar.
Ela enrugou o nariz, manchas de uma marrom sujo tingiam as paredes verde-claras, e chicletes mascados estavam grudados no imundo carpete das escadas.
Baratas mortas do tamanho de camundongos
jaziam no chão perto das paredes e outras vivas desapareciam em rachaduras apertadas.
Vozes vindo da televisão do apartamento vizinho se esgueiravam através das paredes.
Quando David chegou ao topo das escadas, ele se virou.
— E outra coisa! ele disse — os trajes Mortais são temporários e eles duram apenas algumas horas. Ficar na Terra por muito tempo revelará aos demônios a nossa localização. Quanto mais ficarmos aqui, mais fácil será para eles nos
encontrarem.
Eles podem nos sentir é porque isso que temos de nos apressar.
Mas não se preocupe, os demônios não aparecem assim do nada. Ainda temos muito tempo para fazer o nosso trabalho. Mas se você vir um, não entre em pânico! Ele estudou a expressão de Ravena. — A pior coisa que você pode fazer é surtar e assustar o mortal. Ela não deve saber nada sobre demônios ou sobre nós.
Temos regras estritas sobre tais coisas e além disso, estou aqui para protegê-la deu para entender?
Ravena aquiesceu, mordendo o lábio, apesar de não estar totalmente certa de que não surtaria se visse um demônio vindo na direção dela.
—Tudo bem! Hum, os demônios... podem nos machucar? Sei que já estamos mortos, mas...
Sua mente viajou para quando ela era uma criança. — Quando eu era pequena, costumava ter pesadelos horríveis sobre monstros... costumava ver formas negras se movendo o tempo todo. Minha mãe dizia que eram demônios e que eles queriam comer a minha alma.
Isto é verdade? Caramba, olha o que eu estou dizendo...você deve me achar uma aberração.
— Você não é uma aberração, disse David, com uma gentileza repentina no olhar.
— Você é um anjo da guarda... e até que não é f**a.
Ravena revirou os olhos. — Mas, sério, eles podem me ferir agora... ou nós somos, tipo, invencíveis?
Temos habilidades especiais de anjo?
David estava de frente para uma porta branca com a tinta descascando.
— Os demônios são os únicos que podem ceifar alma de um anjo da guarda. Se isso acontecer, você deixa de existir e para isso não tem volta. Mas, com treinamento, você desenvolverá suas habilidades. Olha só, deixe os demônios comigo
por enquanto... se houver algum. Hoje você só observa e aprende, ok?
Ravena fez o possível para permanecer calma, ela não queria que David pensasse que ela era uma fracote, especialmente em seu primeiro dia no trabalho.
Mas o que eu faço se eu vir um? David bateu na porta.
— Mostre o dedo do meio e talvez ele vá embora. Calma, é brincadeira e só ficar perto de mim, nada vai acontecer, eu estou aqui.
— Certo... Já me sinto muito melhor, obrigada. — Ravena suspirou.
Ela se concentrou no comportamento relaxado de David para tranquilizar a sua mente. Ela percebeu
que não tinha ideia do que fazer se visse um demônio.
A porta se abriu e revelou uma senhora roliça na casa dos sessenta anos.
— Olá, queridos... entrem, entrem ela disse, enquanto acenava para a porta.
Então... vocês dois estão no time de natação?
— Sim! disseram David e Ravena em uníssono ao entrarem no pequeno vestíbulo.
De onde estava, Ravena podia ver partes de uma cozinha parcialmente escondida atrás
de paredes que haviam sido abertas para criar uma sala de jantar. O pequeno apartamento fedia a carpete sujo, pot-pourri, e uma pitada de xixi de gato.
Como ela sentia saudades de sua avó.
A Sra. Wil analisou o jovem casal.
— Hum...Bem, vocês formam um par bonito, não é? — Sorrindo, ela balançava seu corpo com empolgação, enviando ondas de oscilação para todos os lados com seus pés.
— Meu Stanley sempre chegava do treino doido para tomar um suco. Vou preparar um pra vocês, ela se virou lentamente e bamboleou até a cozinha.
David olhou para Ravena! Balançando sua cabeça, ele fez um sinal para seu relógio e disse um não silencioso.
Ravena espiou para dentro da minúscula cozinha e viu a porta da máquina de lavar aberta.
Havia uma fileira de facas afiadas reluzindo com a luz da cozinha, apontando para fora da cestinha plástica de talheres da lavadora: a assassina.
— Não precisa se preocupar, senhora! disse Ravena. — Nós... nós acabamos de tomar café, ela mentiu, colocando um sorriso amarelo no rosto.. Não estamos com sede.
A Sra. Wil parou e deu meia volta.— Ó, entendo. Vocês, jovens, estão sempre com pressa.
Ravena coçou a nuca.— Hum, sim... mas muito obrigado.
— Sorrindo, ela esticou os cantos da boca, o
máximo possível.
A Sra. Wil franziu o cenho e estudou Ravena um pouco mais, ela apertava os lábios.
— Ok, então! Vou buscar a minha carteira.
— Ela saiu pisoteando pelo corredor coberto por papel de parede e desapareceu atrás de uma porta.
— Esta foi por pouco David inspirou ele deu uma olhada no relógio e sorriu.
— Bem, Ravena, hoje é o seu dia de sorte, falta um minuto, a carga está segura e não há sinais de demônios.
Esta foi uma excelente primeira missão...Cara,
eu mataria por uma cerveja agora.
Alguma coisa se moveu na visão periférica de Ravena e ela virou a cabeça.
Em um canto escuro do corredor, depois da porta pela qual a Sra. Wil desapareceu, Ravena viu uma cintilação sombria.
A princípio, ela não tinha certeza se havia visto
algo... talvez seus olhos estivessem lhe pregando uma peça. Mas, quando sua visão se adaptou às trevas, a sombra apareceu novamente. Era pouco mais do que uma névoa cambaleante que aparecia e desaparecia. Enquanto brilhava na penumbra,
tornava-se visível e invisível, assumindo uma forma sólida por tempo o bastante para expor fragmentos de um corpo corrompido e contorcido. A sombra vacilante deslizou em direção a eles exatamente como em seus pesadelos.