Ravena fez um esforço para abrir os olhos. Ela olhou para o piso de mármore verde onde parte do seu rosto estava espremido contra o chão frio.
Ela sentiu que estava com os joelhos dobrados e
com a b***a para o ar. Paredes com painéis de madeira a cercavam. Ela se empurrou para cima e sentou sobre os calcanhares.
Um enorme primata estava sentado na cadeira do ascensorista. Apesar de estar sentado, ele era tão alto quanto o teto do elevador. Seus longos braços peludos raspavam no chão e seu traseiro gordo caía pelos dois lados da cadeira de madeira.
Seu lustroso pelo laranja escapava de suas calças vermelhas e cobria cada centímetro de seu corpo... era um orangotango do tamanho de um fusca.
Ravena se contorceu para ficar de pé e conferiu a si mesma. Ela estudou o orangotango por um momento e pigarreou.
— Olá! ela disse e deu um tchauzinho você não é o Chimpanzé 5M51.
O orangotango girou a cabeça em direção a Ravena. Ele piscou e depois rodopiou na cadeira para encará-la. Um pequeno par de óculos redondos repousava um pouco torto no nariz achatado do animal.
— Vai para qual andar, senhorita? Ele baixou sua cabeça até a altura de Ravena e empurrou os óculos para trás com um dedo excepcionalmente longo. — Hã? Ravena ergueu as sobrancelhas.
— Certo... hum... — Ela deu uma olhada para a pasta amassada que ela ainda apertava contra o peito. — Ah... acho que devo ir ao quarto andar.
Ela olhou para trás, meio que esperando que David surgisse repentinamente. Ela desejou que ele estivesse ali com ela.
O primata a observou seus olhos aquosos e miravam a pasta que ela segurava em seu colo. Com um movimento lento, ele ergueu o braço e pressionou o botão de bronze com um número 4 no painel de controle.
Longas franjas de pelo laranja balançavam sob seu braço.
— Quarto andar! ele anunciou com uma voz alta, encarando Ravena com seus olhos penetrantes.
— Obrigada! ela conseguiu dizer, olhando para o chão. — Então... você trabalha com o chimpanzé 5M51?
— CHIMPANZÉ! interrompeu o primata, furioso — Eu não sou um chimpanzé! Não me confunda com aquele grupo pavoroso!
Minha espécie é superior eu sou um orangotango. Orangotango 7PT9, por favor — ele disse, enquanto estufava o peito.
Ele ajeitou os óculos e franziu a testa.
— Tudo bem, então, orangotango 7T-alguma-coisa...?
Ravena suspirou enquanto esperava durante um longo e desconfortável silêncio. O elevador subiu até um andar superior. Ela percebeu que o orangotango a encarava.
— Por que você fica encarando a minha cabeça? ela disse quando já não podia suportar mais.
— Perdeu alguma coisa? O que foi?
O orangotango baixou os olhos e mirou o chão — Hum... não é nada e eu não estava encarando a sua cabeça.
— Sim, você estava. — Não, não estava.
— Você acabou de fazer de novo! Eu vi!
— Não sei do que você está falando — 7PT9 levantou o queixo e fitou o painel de
controle. Seu olho esquerdo ainda encarava Ravena.
Ravena mordeu o lábio. — Tanto faz ela escondeu a cabeça sob a pasta. Suas mãos tremiam. "Fique
calma, o quarto andar não pode ser tão r**m quanto o terceiro" ela disse para si mesma.
Sua mente revivia cenas do que havia acontecido com a Sra. Wil instantes atrás imagens de demônios das sombras passavam diante de seus olhos. Uma pequena bola de luz planava sobre o corpo morto da Sra. Wil.
Ravena franziu o cenho e abaixou a pasta, ela não tinha certeza se era feita para ser um anjo da guarda.
Ela cruzou os braços sobre o peito, o que acontecia com os anjos da guarda quando eles perdiam uma alma? Ela se inclinou sobre o painel seu corpo tremia. Ela esperou.
De repente, a parte de trás da cabeça de Ravena balançou e acertou o painel quando o elevador deu um solavanco ao parar.
— Quarto andar: O Salão das Almas! gritou o orangotango.
— Tudo bem, vamos ver o que acontece! Deseje-me sorte! Ravena apertou a pasta contra seu peito e caminhou para as portas do elevador, mas sentiu um repentino puxão em sua cabeça.
— AI! Ravena esfregou o couro cabeludo machucado — Você está louco? Que foi? A minha cabeça é um bufê de caspa para você? Qual é o problema de vocês macacos? ela gritou.
O orangotango ergueu o queixo ainda mais.
— Correção... não é macaco, senhorita, é orangotango. — Ele virou e encarou o painel de controle. — Quarto andar, ele repetiu, lambendo os dedos.
Ravena deu uma olhada no orangotango.
— Canibal, ela resmungou ao sair.
— Saboroso, respondeu o primata.
As portas de abriram e Ravena deu um passo adiante.—Uau...
Ela cambaleou para fora do elevador com suas pernas bambas como geleia. Ravena nunca
havia estado em um infinito céu de ébano.
O Salão das Almas resplandecia como um grande campo de vaga-lumes. A lembrava do céu sobre os campos da fazenda atrás da casa de sua avó à noite.
Ravena gostava de observar os insetos brilhantes
iluminarem os céus negros como estrelas cintilantes os cantos de sua boca se curvaram para cima.
Ravena avançou pelo piso de mármore n***o. Enquanto se aventurava mais profundamente
pelo Quarto andar, percebeu que os vaga-lumes eram, na verdade, milhões de deslumbrantes esferas planando no ar.
Logo ela se encontrou cercada por luz, globos brilhantes flutuavam ao redor dela, como se luzes de natal a envolvessem por todos os lados.
Ela deu uma olhada através das esferas reluzentes e vislumbrou algo grande e branco.
Aquilo cintilava no meio do grande salão a forma branca resplandecia e ficava cada vez mais brilhante, como uma enorme chama.
Uma brisa úmida acariciou suas bochechas e um zumbido suave preencheu seus ouvidos ela
fechou os olhos e suspirou.
— Ei! — RAVENA gritou quando alguém que se chocou contra ela. Ela tropeçou e caiu no chão, depois girou para se apoiar nos cotovelos.
Seu agressor se afastou na direção oposta e desapareceu atrás de uma parede de luz.
— Com licença! — rosnou Ravena, ela se esforçou para se levantar. — Por acaso eu sou... invisível? Ela seguiu adiante, então estacou.
Centenas de crianças com cabelos dourados corriam pelo lugar. Elas passavam pelos milhares
de globos flutuantes, que pareciam grandes jarras de vidro, suas vestes azuis balançavam atrás delas. Ravena observou que seus rostos eram idênticos.
Veículos de três rodas corriam erraticamente pelo chão, conduzidos pelas mesmas crianças com cabelos dourados. Os bancos de trás destes pequenos carros estavam sobrecarregados com mais jarras de vidro. Elas tilintavam enquanto os veículos corriam através de paredes de luz e sumiam de vista.
Ravena estava cercada por uma apresentação do Cirque de Soleil. Ela olhou por cima das cabeças das crianças, um brilho atraiu seu olhar.
Ela caminhou em direção a ele depois de um instante, e chegou em uma clareira.
Uma escrivaninha entalhada a partir de um grande bloco de vidro estava sobre uma plataforma elevada. Refletindo a luz dos globos, ela cintilava como um gigantesco diamante.
Um grande homem estava sentado atrás
dela.
Os pés de Ravena vibraram sob ela e a massa de globos reluzentes zumbiram em uníssono, como se milhões de vaga-lumes tivessem começado a voar ao mesmo tempo.
Mas onde estava David? O que havia acontecido com ele? Ele deveria estar bem atrás dela.
Ela balançou a cabeça, tentando afastar as imagens de David sendo estraçalhado por demônios.
— Hã... com licença? disse Ravena para a multidão de crianças. Ela forçou um sorriso que lembrava o de David.
— Oi... vocês podem me ajudar? Não estou muito
certa do que devo fazer com isto? Ela segurava a pasta.
Eles a ignoraram e se afastaram, como se ela fosse invisível.
— Muito obrigada! Ravena gritou batidas, chamaram sua atenção e ela se virou.
— David! Ah... não é o David! Um par de anjos da guarda com estrelas douradas em suas testas apareceram de uma parede de esferas brilhantes. Eles passaram por ela com o semblante sério e se
encaminharam para a escrivaninha de cristal.
Ravena decidiu segui-los.
Eles caminharam em fila única até a escrivaninha. Ela cintilava como um cristal sob a luz do sol. Um arco-íris de cores se formava no chão.
A escrivaninha estava coberta com livros, com um monitor tela plana de computador espremido entre
eles. Um homem enorme com a testa franzida estava sentado no meio do entulho de livros e papéis.
Ele vestia um manto branco, aberto na frente com um colarinho decorado com ouro, com suas longas mangas dobradas sobre a mesa.
Tecido dourado decorava as largas mangas, o rosto dele era bonito e sério.
Um brilho dourado emanava de sua pele pálida ao se aproximar, Ravena percebeu que a testa dele estava marcada com um escudo dourado, com duas espadas prateadas se cruzando.
Ele a amedrontava...Os dois anjos da guarda se arrastaram até a escrivaninha e falaram com suas
cabeças curvadas.
Ravena ficou a alguns metros atrás deles, ela mexia em sua pasta.
O pensamento de se dirigir para aquele homem fazia com que os pelos de sua nuca se arrepiarem. Talvez ninguém percebesse se ela desse no pé. Depois de um instante, o homem olhou para cima e lhe deu um olhar malicioso e calculista.
Um dos anjos segurava uma pasta o homem a
agarrou e a abriu. Em um rápido movimento, ele acenou para o condutor de uma daquelas geringonça de três rodas.
O veículo deu uma guinada, acelerou em
direção à plataforma e deu uma freada brusca.
Os anjos da guarda subiram no banco de trás. Com suas cabeças inclinadas desajeitadamente, eles se espremeram no pequeno espaço.
Eles correram para os campos de esferas brilhantes. Ravena os seguiu com o olhar.
— Onde está David?! sussurrou Ravena.
Seu corpo formigava de maneira desagradável a mente dela estava trabalhando duro.
Ela mordeu o lábio inferior, suas mãos tremiam e ela balançava para frente e para trás em seus calcanhares como se fosse um joão bobo.
Depois de um momento, ela avançou seus olhos estavam colados nas grandes mãos do homem. Ela ficou imóvel com a pasta presa firmemente em seu colo. Ela esperou e a princípio, ele não pareceu notá-la. Ele estudava as páginas de um grosso livro de couro.
Ravena relembrou imagens de sua vida na Terra quando ainda estava viva, quando anjos e demônios só existiam em seus desenhos e quando ela saboreava uma suculenta fatia de pizza de pepperoni, com gordura pingando dos cantos de sua boca...PLOP!
Ravena arregalou os olhos quando deixou sua pasta cair no chão.
O homem gigante levantou sua cabeça e a examinou.
— Nome, ordem de classe e nível, exigiu a estrondosa voz.
Ravena forçou as palavras a saírem de sua boca.
— Hã... E-eu sou, Ra— Ravena... ela gaguejou, enquanto se inclinava e recolhia a pasta.
Seus dedos tremiam. — Hum, não sei a minha ordem de classe, mas sei que sou uma novata? Ela se ergueu.
Os olhos azuis flamejantes a observaram por um momento. Ele estendeu a mão diante dela.
— Me dê a pasta, ele ordenou.
Ravena obedeceu e entregou a ele a pasta suas mãos tremiam e ela as fechou em punhos.
O homem se sentou novamente e folheou a pasta. Sua cabeça se levantou abruptamente.
— Você é a novata, Ravena Valenor! sua ordem de classe é nº 4321. Você está de volta de sua primeira missão... onde está o seu Oficial? Ele ergueu as sobrancelhas e olhou para atrás dela.
— Hum... Não sei! Ele deveria estar bem atrás de mim...Ravena disse, com nervosismo.
Ela olhou ao redor, procurando — Ele... ele me disse para vir aqui até o quarto andar.
É tudo que sei, ela uniu as mãos atrás das costas e tamborilou com os dedos.
O homem a observou em silêncio por um momento e depois disso, tornou a olhar para a pasta.
— Diga-me, qual é o nome do seu Oficial? Ravena
piscou. — David McGowan.
O homem ergueu as sobrancelhas, franziu os lábios e olhou para ela.
— Entendo, ele disse simplesmente. — Você está com o David.
— Ah... você o conhece… Estamos em apuros ou algo assim? Ela deixou os braços caírem ao seu lado. — Você sabe onde ele está?
— Terei de relatar isto e neste momento, suas mãos se moveram sobre o teclado.
As sobrancelhas dele abaixaram um pouco e subiam a cada poucos segundos enquanto
digitava. Depois do que pareceu ser para Ravena, cinco minutos muito longos fitando os dedos de alguém, se pode ouvir um alto tap, tap, e Ravena se
virou para ver David correndo até ela.
— Ah... aqui está você, Ravena! disse David, com um amplo sorriso. Ravena percebeu que o cabelo dele estava um pouco despenteado.
Mas, tirando isto, ele parecia estar bem ele se voltou para o homem gigante.
— Olá, Ramiel! Sentiu falta de mim, Ó Poderoso?
Ravena deu uma olhada para ele.— Por que demorou tanto? ela sussurrou.
— Estou morrendo aqui! David largou a sua bolsa no chão.
— Eu me atrasei! Você sabe... demônios.
Ramiel olhou para David seus olhos azuis estavam incendiados.
—Bem, David McGowan, você não perdeu o seu senso de humor, ele disse friamente.
O rosto dele se contorceu com descontentamento. Ravena deu uma rápida olhada para David, apenas o suficiente para apanhá-lo piscando para ela.
Ela se virou.— Vejo que você abandonou a sua novata na primeira missão dela? Tenho certeza que o tenente Arcanjo Gabriel ficaria interessado nesta informação — disse Ramiel.
— Nunca seguindo as regras... não é, David? Pensa que está acima das regras? Você não está dando um bom exemplo para a sua novata.
Pondo a vida dela em risco... isto não é bom para o seu histórico. — Ele balançou o dedo irritantemente para Ravena, então seus olhos se moveram para David. E lhe deu um olhar de reprovação.
David sorriu, estudando a face de Ramiel.
— Você é sempre tão gentil comigo, Vossa Excelência. Mas não se preocupe, pois ela nunca esteve em perigo... eu cuidei disto.
Ramiel ergueu uma sobrancelha.
— Esperamos que você guie Ravena e a ajude a abraçar seus deveres como um anjo da guarda... sem que ela perca sua alma ou quebre alguma regra.
David exibiu seus dentes perfeitos e fez cara de inocente.
— Eu? Quebrar regras? Nunca, Vossa Santidade! Sou alguém que acredita verdadeiramente em seguir as regras... você acabou de falar sobre isso disso — ele estava reluzente.
A expressão de Ramiel se tornou sombria, seu belo rosto se enrugou, contrariado.
Com um alto rangido, ele empurrou sua cadeira para trás e se levantou. De pé perto de Ravena e David, ele parecia uma montanha.
— Segundo a minha compreensão, você já está pisando em ovos, David. Infelizmente para você, a Legião está cansada de sua bagunça.
Você não tem disciplina e não quero ouvir mais tolices suas, como pular de aviões ou ir atrás de sete demônios superiores por conta própria! Que tipo de exemplo você está dando aos seus novatos? ele rugiu.
Ravena se perguntou quantos outros novatos David havia treinado antes. Ele não devia ser
tão r**m assim, ou devia? David ergueu sua mão direita, com a palma voltada para Ramiel.
— Juro pela minha alma que prefiro morrer... ei, só um minuto. Já estou morto! ele riu.
A expressão de Ramiel era assustadora e Ravena teve a sensação de que, se quisesse, ele provavelmente poderia espremer David até ele virar geléia. Ao invés disto, ele jogou a pasta para David, que a apanhou com facilidade.
— Há uma alma a ser queimada, ele se sentou novamente e imediatamente retornou sua atenção para seu teclado.
David abriu a pasta e correu os olhos por ela. A fechou e se virou para observar Ravena.
Seu rosto reluzente rapidamente se tornou sombrio.
— Hum... este negócio de queimar almas não e parte mais agradável do trabalho, sabe? Mas, ei...
melhor fazer isto logo.
Vamos lá! David se virou e agarrou Ravena pelo braço.
Ele a puxou consigo.— O quê? Ravena desabafou, enquanto tentava se livrar da mão dele.
— Espere, hã... David, você pode me dizer o que está acontecendo? O que tenho de fazer aqui? O que Ramiel quis dizer com: "há uma alma para ser queimada?" Ravena tinha uma terrível sensação de que era a alma dela que deveria ser assada.
— Hã? Oh, sim...Não se preocupe com Ramiel.
Os Arcanjos pensam que são os donos do lugar,
isto porque eles se comunicam com o Chefe em
pessoa.
Eles pensam que isto os torna especiais, eles são apenas uma cambada de idiotas cabeçudos, se quer saber ele zombou e deu meia volta, indo em direção aos campos de globos brilhantes.
Ravena o seguiu. — Então... queimar almas... o que é isto? O pensamento de queimar qualquer
coisa a deixava nervosa.
— Nós perdemos a alma da Sra. Wil... então agora temos de queimá-la. Temos de jogar as almas mortas no fogo branco pois elas nunca mais poderão renascer depois disso.
— As almas podem renascer? disse Ravena, com espanto. Ela não conseguia imaginar isto.
— É claro... quando um corpo mortal morre, a alma renasce em outro corpo mortal quando uma nova criança nasce. E o processo se repete, de novo e de novo, a não ser que a alma seja morta... como a da Sra. Wil. Aí tudo acaba para sempre.
Ravena sentiu como se tivesse sido esmurrada no estômago e suas pernas ficaram bambas.
— Eu... Eu a matei, eu matei a alma dela, isto é tudo minha culpa — Ela imaginou a Sra. Wil renascida como um lindo bebezinho e sentiu um aperto na garganta.
— Ela nunca mais vai renascer por minha causa. Eu... Eu a matei.
— Não é culpa sua e não fique se torturando. Escute...estas coisas acontecem, faz parte do trabalho.
Ravena baixou os ombros.— Bem... esta parte é realmente chata.
David pôs os dedos na boca e deu um alto assovio. Um carro de três rodas freou
bruscamente.
Ravena seguiu David até o carro que os esperava e se apertou no banco de trás junto com ele.
Ele abriu a pasta e a mostrou ao motorista, que
aquiesceu, então pisou no acelerador.
O motor rugiu com força. Ravena e David foram arremessados contra os bancos traseiros, com seus apertados corpos espremidos juntos em um emaranhado corporal extremamente desconfortável.
— AHHH! gemeu Ravena, enquanto o motorista ziguezagueava pelo grande salão.
De repente, ela desejou que tivesse o estômago cheio de comida parcialmente digerida, para que ela pudesse vomitar sobre o motorista.
Altas labaredas brancas cintilavam e dançavam adiante, como uma vela gigante.
As chamas aumentavam quando eles passavam perto delas. O carro corria, passando por estradas invisíveis e caminhos que seguiam por trevas infinitas e por fim, o veículo parou.
Milhares de globos brilhavam ao redor deles.
Ravena olhou em volta um fogo branco alto queimava em uma magistral fogueira de pedra
atrás deles. Para Ravena, parecia com um fogo de um conto de fadas e ela se perguntou se poderia tocar a chama.
David saiu do veículo e caminhou em direção a um muro de esferas reluzentes. Ele prestou mais atenção em um globo escurecido que pairava a poucos centímetros do chão. Diferente de outras esferas reluzentes, esta não estava iluminada.
Ravena se forçou a sair do carro, o motorista continuou sentado, olhando para a direção oposta. Um aroma salgado preencheu o nariz dela e imagens do oceano passaram por sua mente. Ela caminhou e parou perto de David.
— Qual o seu problema? Está com cara de quem acabou de morrer.
David se inclinou sobre a esfera n***a, ele suspirou e ficou em silêncio.
— O que está acontecendo? Por que todos estão perdendo a cabeça por causa desta bola preta? Ela a olhou com desconfiança. — O que há de tão especial nela? Ravena se moveu mais para perto do globo n***o.
Imediatamente, ela sentiu uma onda de desolação atravessá-la, como se alguém próximo houvesse acabado de morrer. Ela foi tomada pela tristeza, o que a assustou, ela deu um passo para trás.
— O que... O que é isto? Ela balançou a cabeça e tentou se livrar daqueles sentimentos.
— David... o que está acontecendo? Por que me sinto assim? Ele se ajoelhou e cuidadosamente agarrou a esfera em suas mãos.
— Você está sentindo a perda da vida e esta alma pertencia à Sra, Wil. Quando a alma é morta na Terra, ela também morre no Horizonte.
A luz da vida se apagou e tudo que resta é esta casca enegrecida. Aqui...pegue — disse David, ao se levantar e esticar as mãos.
Perplexa, Ravena deu outro passo para trás.
— O quê? Você quer que eu segure isto? Sem
chances! — Você tem que fazer isso.
Você era o anjo da guarda desta alma e você é responsável por ela — David agarrou a mão direita de Ravena e apertou o globo nela.
Assim que a esfera fria tocou sua pele, Ravena foi atingida por um número alarmante de diferentes emoções, como se uma coleção de sentimentos de milhares de anos houvesse explodido em seu rosto de uma só vez..Ela cambaleou e quase caiu.
— Cuidado, não a derrube — disse David, agarrando Ravena pelo braço e a equilibrando.
— Isto é tão estranho. O... O que eu faço com isso? — Ravena estremeceu, enquanto as emoções atravessavam seu corpo.
— Jogue no fogo, as almas mortas precisam ser queimadas no fogo branco.
— respondeu David, e apontou para trás deles, para a enorme fogueira de pedra.
Ela se erguia quase cinco metros acima deles. Altas chamas brancas tremulavam a centenas de metros no ar.
— É melhor que você seja rápida, confie em mim, David caminhou em direção à impressionante fogueira.
Ele arrastou Ravena pelo cotovelo com ele...Esta parte do trabalho é realmente chata.
O que você deve fazer é... você precisa jogá-la no fogo.
Eles chegaram até o fogo e pararam. Ravena piscou várias vezes a claridade das chamas feria seus olhos, como quando ela costumava olhar para o sol sem piscar.
David estudou o rosto de Ravena.— É melhor fazer isso rápido.
Ravena ergueu as sobrancelhas.— Espere! Por
que você parece estar tão tenso? O que vai acontecer quando eu jogar isso aí?
Ela tinha a h******l sensação de que as coisas iriam piorar bastante.
— Hum, não consigo descrever... apenas faça — disse David, ao sentir a relutância dela, ele a empurrou para frente com suas mãos contra as costas dela.
Com os olhos arregalados, Ravena deu um passo adiante. Ela agarrou a alma morta em suas mãos trêmulas.
Ravena se aproximou do fogo branco. Ela estava surpresa por não sentir calor.
Era um calor branco, mas ela não sentia nada... nenhuma sensação de queimadura em sua pele. Ela ergueu as mãos diante de si e lançou a
alma morta no fogo branco.
O chão tremeu....Milhões de vozes gritando explodiram dentro de sua mente, como se todas as almas existentes berrassem com uma dor excruciante no momento que ela jogou o globo
nas chamas brancas.
O corpo de Ravena queimava de dentro para fora. Os gritos a atormentaram, eles feriam na alma. Imagens passavam por seus olhos: uma mulher
negra trabalhando em um campo, uma moça loura andando de bicicleta em um subúrbio, uma velha barganhando um peixe em um ruidoso mercado. Uma súbita paixão brotou nela ao ver imagens de uma linda ruiva beijando seu amado.
Mais imagens de diferentes mulheres passaram em seu cérebro. Elas gritavam enquanto suas almas eram puxadas de si, morrendo.
Ela se abalou com as poderosas emoções que atacavam seu ser. Então, os sentimentos e as imagens desapareceram e ela caiu no chão duro.
Ravena abriu os olhos um instante depois, apenas para ver o rosto preocupado de David a poucos centímetros de si.
— Fica mais fácil com o tempo, eu prometo e eu também desmaiei na minha primeira vez.
Você não parece estar tão m*l! Tudo bem, vamos levantá-la! — Ele a ajudou Ravena a se colocar de pé.
— Isto foi...ela disse com voz rouca, tentando recuperar o controle muito interessante.
Quando eu vou parar de tremer? — Passará em alguns minutos, sei quão dolorosa é a sensação... — David estendeu a mão e a pressionou nas costas dela, gentilmente massageando em movimento circular.
— É realmente a pior parte do trabalho.
Ravena ergueu a cabeça, seus olhos se encontraram e se fixaram um no outro.
Seu pelo se eriçou quando ela sentiu o calor se espalhando por seu ser. Pequenos choques elétricos a percorreram da cabeça até a ponta dos dedos dos pés.
Ela desviou o olhar! Houve um longo e desconfortável silêncio. Ela não ousou olhar
nos olhos dele novamente.
Então, ao invés disso, ela falou com as botas dele.
— Quando vamos embora? Acho que não consigo suportar nem mais um minuto aqui.
David retirou sua mão das costas dela e se afastou.
Ele se alongou.— Agora mesmo.
— Bom! Ravena estava enjoada, se é que isso era possível em seu corpo de anjo da guarda.
— Então... para onde vamos agora? David
uniu as mãos e as esfregou.
Ele estava reluzente.— Agora vem a parte divertida! — Ele fez uma dancinha. — Eu e você vamos para o
andar das Operações!