O relógio marcava quase meia-noite quando Gui entrou no quarto de hotel. A cidade lá fora rugia com buzinas distantes, motores acelerando, passos apressados sobre o asfalto molhado pela garoa fina que ainda persistia. Mas dentro, tudo estava quieto. Um silêncio quase opressor, pesado com lembranças e ausência. Jogou as chaves sobre a mesa e ficou parado, olhando o chão. O capacete cor-de-rosa de Clara ainda estava em suas mãos, pequeno demais para o tamanho do vazio que sentia. Cada detalhe parecia gritar sua falta de presença durante cinco anos, o material brilhante, o cheiro de novo, era tudo demais e, ao mesmo tempo, nada: a prova de que ele havia perdido tudo o que poderia ter sido. Sentou-se no sofá sem acender a luz. A penumbra parecia protegê-lo da realidade, mas também refletia o

