O dia seguinte amanheceu com uma garoa fina cobrindo os prédios de São Paulo. Isadora ainda estava na cama quando o celular vibrou.
— Alô? — atendeu com a voz rouca, ainda sonolenta.
— Senhorita Isadora Mendes? — a voz do outro lado era masculina, firme e educada.
— Sim, sou eu.
— Falo da Corp Group Brasil. A vaga é sua. Desejamos que você se apresente amanhã às oito da manhã para o início dos trabalhos, ok?
Ela sentiu o coração acelerar. Um emprego. Um novo começo.
— Claro, estarei lá.
Na manhã seguinte, Isadora se vestiu com a mesma elegância e segurança que sempre carregava — blazer cinza claro, calça social ajustada ao corpo, salto nude. Cabelo preso em um coque baixo. Um batom vinho fechava o visual.
Ela atravessou a recepção da Corp Group Brasil e foi encaminhada por uma assistente até o 23º andar, onde ficava o setor financeiro.
Tudo era silencioso, moderno, de um luxo minimalista.
— Sente-se um instante. O CEO da empresa quer dar as boas-vindas pessoalmente — disse a recepcionista com um sorriso simpático.
Isa franziu a testa.
CEO?
Antes que pudesse questionar, a porta de vidro à frente se abriu.
E ele entrou.
Terno preto impecável. Camisa de botões aberta no colarinho. Relógio de luxo no pulso. Aquele perfume amadeirado... e o olhar.
Ele sorriu com um canto da boca, como se estivesse se divertindo com a surpresa estampada no rosto dela.
— Isadora Mendes — ele disse, aproximando-se com passos lentos e dominantes. — Bem-vinda à Corp Group Brasil.
Ela não conseguiu responder de imediato. O ar pareceu sumir dos pulmões.
— Dante Montenegro. CEO da empresa. E agora, seu chefe — Ele estendeu a mão, os olhos cravados nos dela.
Ela hesitou, mas apertou. O toque quente, firme, com um leve deslizar dos dedos no final.
— Obrigada pela oportunidade — ela disse, tentando manter a voz neutra.
Ele inclinou o rosto, como se lesse pensamentos.
— Gosto de saber quem entra no meu império, Isa. E você... já me mostrou o suficiente para eu ter certeza que fiz a escolha certa.
Ela sentiu a espinha gelar. O jogo, definitivamente, havia começado.
Ele não soltou a mão dela de imediato. Os dedos de Dante deslizaram suavemente pela pele de Isadora antes de soltá-la. Ela recuou discretamente, engolindo em seco. Cada célula do seu corpo gritava em alerta.
— Vou te mostrar a empresa — ele disse, como se aquilo fosse parte do protocolo. — Gosto de apresentar pessoalmente os novos talentos. Ainda mais quando o currículo impressiona.
Ela assentiu com um movimento leve de cabeça, desejando estar em qualquer outro lugar.
Caminharam lado a lado pelos corredores da Corp Group Brasil. As paredes de vidro mostravam escritórios amplos, pessoas bem vestidas digitando em notebooks caros, painéis digitais exibindo gráficos e cotações em tempo real.
— Aqui é o setor jurídico, o cérebro que nos livra das enrascadas. — Ele apontou para a esquerda, mas seus olhos estavam nela.
— E ali, o coração da operação financeira. Onde você vai trabalhar — disse, abrindo uma porta com visão panorâmica da cidade. — Impressionada?
— Bonito. — Sua resposta saiu seca, e ela manteve o olhar focado nas janelas, evitando encará-lo.
— Você está tensa — ele comentou, parando ao lado dela.
— Estou apenas focada — rebateu, sem virar o rosto.
Dante riu baixinho, com um tom grave e provocador que reverberou no ar entre eles.
— O curioso é que, naquela noite, você não parecia nem um pouco desconfortável comigo.
Ela virou o rosto bruscamente, olhos faiscando.
— Aquela noite não existiu, senhor Montenegro.
— Então é assim que vai me chamar agora? — ele sorriu de canto. — Senhor Montenegro?
— É o mínimo de respeito profissional que posso oferecer ao meu chefe — ela respondeu firme, mantendo a postura.
— Eu não pedi respeito. Pedi a sua presença — disse ele, a voz baixa e carregada de algo mais... quente.
Ela não respondeu. Apenas desviou o olhar, como se aquilo não a afetasse. Mas o sangue queimava sob a pele. A lembrança da noite ainda era vívida demais. O cheiro dele. O toque. A forma como ele arrancou dela sensações que jamais sentira com outro homem — nem mesmo com o ex-marido.
Dante se aproximou mais um passo, suficiente para que ela sentisse o calor do corpo dele.
— Você vai mesmo fingir que nada aconteceu? — sussurrou. — Que não gemeu meu nome naquela cama?
Ela encarou os olhos dele pela primeira vez. Havia raiva, sim. Mas também um medo real do que ele podia despertar nela.
— Eu não sou esse tipo de mulher — ela disse, firme.
— Não? — Ele inclinou o rosto, como quem desafia. — Veremos por quanto tempo consegue sustentar isso, Isadora Mendes.
Ela virou as costas, o salto firme no piso de mármore, e entrou no setor financeiro sem pedir permissão.
Ele a observou, com um sorriso predador no rosto.
O jogo tinha começado.
E ela era o prêmio que ele pretendia conquistar.
Isadora entrou em sua nova sala com o coração acelerado. O ambiente era moderno, com tons sóbrios e móveis minimalistas. A parede de vidro dava visão direta para a cidade, mas o detalhe que mais chamou sua atenção foi o vidro lateral, levemente espelhado, que dava para a sala ao lado. A sala de Dante.
Ela se aproximou discretamente e, por trás da transparência, viu a cadeira de couro imponente, uma estante repleta de livros técnicos, e o reflexo dele — já sentado, observando-a descaradamente.
Ela desviou o olhar, sentindo o rosto corar de raiva e vergonha. Sentou-se à mesa, abriu o notebook e começou a revisar os relatórios enviados. A empresa movimentava cifras absurdas. Lucros milionários, investimentos pesados, filiais no exterior.
Era o tipo de desafio que ela gostava — números. Eles eram diretos, lógicos, previsíveis. Ao contrário de Dante Montenegro.
O e-mail corporativo estava lotado, e ela passou boa parte da manhã atualizando planilhas, criando projeções e analisando desvios de orçamento. Mesmo assim, não conseguiu se livrar da sensação de estar sendo observada.
E estava.
De tempos em tempos, ela levantava os olhos e o via ali, na sala ao lado, encarando. Às vezes, ele sorria de canto, como se se divertisse com a própria ousadia. Outras vezes, apenas mantinha o olhar fixo, como um lobo esperando o momento certo para atacar.
À hora do almoço, Isa tentou sair discretamente. Pegou sua bolsa, guardou alguns papéis, e antes que pudesse se levantar...
— Vai sair sozinha? — a voz de Dante surgiu da porta, e ela se virou com um sobressalto. — Tem bons restaurantes aqui perto. Posso te indicar um.
— Prefiro comer algo rápido — respondeu, já irritada com a presença constante. — E sozinha, de preferência.
— Tão arisca... — ele se aproximou, parando à beira da mesa. — Não fui eu quem saiu escondida no meio da madrugada.
— E nem eu quem mentiu sobre quem era — rebateu ela, seca.
Dante não respondeu de imediato. Apenas a olhou por longos segundos.
— Você vai me evitar até quando?
— Até o fim do meu contrato, se possível.
Ele sorriu. Um sorriso lento, cheio de intenção.
— E se eu quiser renovar por tempo indeterminado?
Ela o encarou, séria.
— Isso é uma ameaça?
— É uma oferta — respondeu ele, dando dois passos para trás. — A melhor que você vai receber.
Ele saiu da sala sem esperar por resposta, deixando um rastro de perfume amadeirado e o coração dela acelerado demais para o ambiente frio daquela empresa.
Isa bufou, pegou a bolsa e saiu para almoçar, ignorando o calor estranho que subia pelas pernas.
Naquela altura, ela sabia: manter distância seria mais difícil do que imaginava.
E ele estava contando com isso.